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Entenda a atualização do iOS da Apple e como ela afeta usuários e apps

Apesar de protestos de rivais e queixas antitruste, empresa disponibiliza mudanças para usuários da versão 14.5

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Patrick McGee Hannah Murphy
São Francisco (Califórnia) | Financial Times

Usuários de iPhones do mundo todo começarão a receber uma série de mensagens desconhecidas depois que baixarem a última atualização do software da Apple: eles querem ser rastreados?

Dez meses depois que a Apple prometeu "funções de privacidade reforçadas" para os iPhones, as mudanças finalmente chegaram com o iOS 14.5, apesar de fortes protestos de rivais da empresa e queixas antitruste na França e na Alemanha.

Na primeira vez que os usuários abrirem cada aplicativo depois da atualização, verão uma simples pergunta: "Permite que este aplicativo rastreie sua atividade em apps e sites de outras companhias?"

Haverá duas respostas possíveis: "Pedir que o app não rastreie" ou "Permitir". Os desenvolvedores de apps terão certo espaço para defender a tese a favor do rastreamento, mas diante de uma escolha tão radical a maioria dos usuários possivelmente dirá não.

O presidente-executivo da Apple, Tim Cook, apresentando o iPhone em evento na Califórnia (EUA) - Stephen Lam - 7.abr.21/Reuters


O que exatamente é rastreado? Até hoje, os apps puderam coletar, e compartilhar com terceiros como corretores de dados, todo tipo de informação pessoal sobre você, incluindo sua localização, que outros apps você usa, quando entrou no aplicativo, uma versão criptografada de seu endereço de e-mail, seu número de telefone e um número único que identifica seu iPhone, conhecido como IDFA (sigla em inglês de Identificador para Anunciantes).

Segundo a Fun Corp, empresa desenvolvedora de apps, "centenas de trilhões de ações e eventos de usuários" são rastreados todos os dias. Um redator do jornal Washington Post descobriu que 5.400 rastreadores coletaram dados de seu telefone em apenas uma semana. Muitos apps enviam dados para diversos parceiros, incluindo Facebook e Google.

Enquanto os usuários de iPhones se movem pelos apps e navegam na Internet, deixam rastros de dados a cada vez, incluindo uma cópia de seu IDFA, permitindo que a indústria de publicidade online forme um perfil de seu comportamento, que os anunciantes usam para lhes apresentar anúncios supostamente relevantes.

O que acontece quando eu me recuso a ser rastreado? A Apple quer que todos os apps obtenham um consentimento explícito para esse comportamento. Se os usuários optarem por não permitir na primeira vez que receberem a notificação de um app, este será barrado para sempre de acessar seu IDFA. E a Apple espera que os apps não compartilhem outros dados, como números de telefone ou e-mails.

Vou parar de receber anúncios? Não, você receberá o mesmo número de anúncios, mas eles não serão personalizados. A indústria de publicidade acha que o texto da primeira notificação não explica adequadamente o valor do rastreamento. Os usuários ainda receberão anúncios, mas ao cortar o fluxo de dados eles serão menos relevantes e os apps poderão cobrar menos do anunciante. Resumindo, o modelo de negócios baseado em publicidade do qual dependia um grande número de apps gratuitos está recebendo um duro golpe.

E o que as empresas acham disso? A indústria de anúncios digitais vale mais de US$ 350 bilhões por ano, e muitos desenvolvedores de apps estão furiosos.

O Facebook, em particular, construiu um negócio de US$ 80 bilhões anuais compilando perfis de usuários e vendendo anúncios personalizados para eles. A companhia publicou anúncios de página inteira em vários jornais, incluindo o Financial Times, para dizer que as mudanças vão prejudicar pequenas empresas que não poderão alcançar seus clientes com a mesma facilidade.

Ela também afirmou que a Apple está usando sua "posição de domínio do mercado para dar preferência à sua própria coleta de dados, enquanto torna quase impossível que seus concorrentes usem os mesmos dados".

"Eles dizem que é sobre privacidade, mas é sobre lucros", disse o Facebook. "Não estão nos enganando."

Outras companhias, como Snap, Twitter e TikTok, também serão atingidas, e muitas que dependem de publicidade em celulares estão experimentando outras soluções, nos Estados Unidos e na China.

Mais recentemente, Mark Zuckerberg sugeriu que a mudança poderá beneficiar o Facebook, porém, se ela incentivar as companhias a mudar seus orçamentos da publicidade para o comércio direto. O Facebook investiu recentemente em ferramentas para permitir mais compras online em suas plataformas.

A grande exceção Uma companhia não vai perguntar se os usuários querem ser rastreados. O Google decidiu que simplesmente vai parar de usar o IDFA. Embora seja prejudicial para o Google perder o acesso aos dados de outros apps, ele já tem uma quantidade enorme de dados de seu próprio conjunto de apps com os quais pode contar.

Quando um usuário de iPhone usa Google Pesquisa, Maps, Chrome, Gmail ou YouTube, o Google ainda pode usar esses dados para formar perfis para publicidade, sem sofrer prejuízo com a mudança de política da Apple.

Qual a vantagem para a Apple?A Apple há muito tempo faz da privacidade um dos pontos de venda chaves do iPhone, para reforçar sua posição "premium" no mercado. Mas ela também deverá se beneficiar das mudanças de outras formas.

Sem poder vender dados que coletam para terceiros, os apps terão de cobrar dos consumidores para ter receitas. E a Apple cobra uma comissão de 15% a 30% sobre todas as compras e assinaturas de apps feitas em sua loja de apps.

Enquanto isso, a Apple também planeja expandir seu próprio negócio de publicidade "centrado na privacidade".

Eu tenho um telefone Android. Isso me impacta? Por enquanto, não. Mas o sistema operacional do Google provavelmente adotará o mesmo padrão de alguma forma. O Google já está no processo de construir publicidade "privacidade primeiro" para os computadores desktop. Parece provável que haverá uma mudança semelhante para apps de celulares.

Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves

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