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Década inaugura clube do trilhão das gigantes de tecnologia

Valor de mercado da Apple cresce mais de 670 vezes no período e supera em 61% PIB do Brasil; petroleiras perdem liderança

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São Paulo

A década que se encerra em 2020 consagrou as big techs. As empresas de tecnologia alcançaram um patamar inédito desde a criação das Bolsas, o patamar dos trilhões em valor de mercado.

A Apple se valorizou 672 vezes no período e saiu de segunda colocada para o topo na lista das mais valiosas do índice S&P 500, que reúne as principais empresas da Bolsa de Nova York e da Nasdaq.

A empresa termina este ano (dados até terça-feira, 29) valendo US$ 2,29 trilhões (o equivalente a R$ 11,9 trilhões, ou 61% a mais que o PIB brasileiro de 2019).

Neste mesmo 2020, ela ultrapassou a petroleira Saudi Aramco, uma trilionária da velha economia que tem valor de mercado de US$ 1,87 trilhão (R$ 9,7 trilhões).

Logo da Apple em shopping de Bangkok, capital da Tailândia
Logo da Apple em shopping de Bangkok, capital da Tailândia; empresa vale mais de US$ 2 trilhões - Mladen ANTONOV / AFP

"Estamos no segundo ciclo de tecnologia", diz Ruy Alves, gestor da Kinea, plataforma de gestão de investimentos ligada ao Itaú. "O primeiro veio antes do ciclo devido e criou a bolha ponto com, pois, naquela época, o mundo não estava tecnologicamente preparado."

A bolha ponto com estourou depois de, em março de 2000, o índice Nasdaq atingir um recorde de 5.132,52 pontos com a valorização das empresas de tecnologia, na carona no avanço da internet. Em abril, o índice caiu 35%, para 3.321,29 pontos. Em outubro de 2002, o índice retrocedera 78,4%, para 1.108,49 pontos.

Considerando a inflação, o índice só se recuperou em agosto de 2017, mais de 17 anos depois do pico.
"Não tínhamos os meios, a tecnologia para permitir essa revolução", diz Alvez. "Você não tinha internet rápida, smartphone."

O fato: as empresas de tecnologia não entregaram a lucratividade projetada pelas altas expectativas do mercado na época. Quando a realidade se impôs, as ações despencaram. Muitas quebraram.
As sobreviventes ascenderam. Cinco delas ocupam o posto de empresas mais valiosas dos EUA: Apple, Microsoft, Amazon, Google e Facebook.

Nesses dez anos, a Alphabet, dona do Google, é um importante destaque em valorização. Quando a década estava começando, valia US$ 191 bilhões (R$ 991 bilhões). Agora, seu valor de mercado já passa de US$ 1 trilhão (R$ 5,19 trilhões). É a quarta companhia americana mais valiosa.

Segundo a Guide Investimentos, o Google detém 86% de participação no mercado global de meios de pesquisa e 85% do seu faturamento com base em anúncios.

"Destacada por sua vasta base de dados, o Google consegue mapear os diferentes usuários de seus serviços e então converter suas informações e preferências em anúncios eficientes que sejam interessantes a cada perfil específico", diz a corretora em relatório.

Uma das vedetes do momento é a Tesla. Neste ano, as ações dispararam 737,7%, e a empresa entrou para o S&P 500. Ela cria, desenvolve, fabrica e vende veículos elétricos e produtos de armazenamento de energia, um ramo que gera grandes expectativas em investidores que apostam em meios de transporte sustentáveis.

Apesar de ter um valor de mercado (US$ 631 bilhões, equivalente a R$ 3,3 trilhões) muito acima do que a montadora entrega atualmente, neste ano, o lucro cresceu e surpreendeu o mercado.

A Guide vê a companhia como altamente inovadora, "com capacidade de superar os atuais veículos a combustão" e "margens elevadas mesmo com a quantidade de veículos produzidos ainda bem abaixo das outras montadoras".

Em relatório, a corretora também afirma que o status premium da marca pode continuar a alavancar as vendas nos próximos trimestres, "semelhante ao efeito da Apple no mercado de smartphones".

Enquanto isso, as empresas de petróleo perderam a liderança ao longo da década no ranking de mais valiosas.

A ExxonMobil era a número um dessa lista em 2010, com US$ 370 bilhões (R$ 1,9 trilhão) em valor de mercado. Hoje, ela vale US$ 176 bilhões (R$ 913,26 bilhões), sendo a 47ª mais valiosa do S&P 500. A Chevron, por sua vez, que era a oitava mais valiosa, passou de US$ 184 bilhões (R$ 954,77 bilhões) para US$ 163 bilhões (R$ 845,80 bilhões), caindo para a 53ª posição.

Em parte, o valor das empresas reflete as mudanças no mercado de óleo e gás. Há dez anos, o barril de petróleo estava cotado acima US$ 90. Hoje, vale pouco mais de US$ 50. Entre muitos fatores, a desvalorização decorre do aumento na oferta, especialmente via petróleo de xisto, mas também da busca por alternativas mais sustentáveis e consideradas ambientalmente corretas, como o uso do etanol e do carro elétrico.

Houve também quem se mantivesse no topo nestes dez anos. Na avaliação dos analistas, os resistentes se destacam pela qualidade da gestão e pela capacidade de preservar a liderança nos mercados em que atuam. São elas Berkshire Hathaway, de Warren Buffett, e Walmart.

"O Walmart é a empresa com a maior receita do mundo e que tem ganhado participação de mercado em ecommerce", afirma Alves.

Outra companhia que teve expressiva valorização na década --com perspectivas futuras tão boas quanto as vistas no passado-- é a Johnson & Johnson. Ela agora produz uma das vacinas contra a Covid-19. Para os analistas, a empresa se destaca justamente pela capacidade de gerar inovação na biotecnologia, com várias patentes já registradas, e potencial de crescimento na tecnologia hospitalar.

"Hoje ideias valem mais que bens materiais", afirma Alves. "A Moderna tem cerca de metade da capitalização da Vale porque vai permitir que a sociedade saia de volta à rua com uma tecnologia inovadora."

A Moderna tem valor de mercado de US$ 44 bilhões (R$ 228 bilhões), e a Vale, de R$ 460 bilhões.

A Bolsa brasileira não apresentou a mesma dinâmica nesses dez anos. Segundo analistas, ela reflete a economia com baixa diversidade que caracteriza o Brasil no período.

Enquanto as Bolsas dos EUA refletem uma revolução tecnológica, o mercado local mostra uma economia baseada em matérias-primas, com a dominância dos grandes bancos no setor financeiro.

"Nossa Bolsa é muito concentrada", diz Michel Viriato, professor de finanças do Insper e colunista da Folha. "O Brasil não tem investimento em pesquisa, desenvolvimento de empreendedores ou Vale do Silício, então é difícil acontecer o que acontece lá fora."

Segundo ele, a falta de investimentos em empresas no Brasil é fruto dos juros altos que predominaram nesta década, o que incentivou o investimento em renda fixa em detrimento de projetos mais arriscados, como startups.

"O Brasil é um dos piores países no que se refere a regras para ter e fazer negócios", afirma o docente. "Se não der certo, o empreendedor se ferra, com um monte de passivo, pois a legislação para fechar empresa é terrível."

Na comparação com 2010, as empresas mais valiosas do Ibovespa em 2020 são praticamente as mesmas. As novidades são Magazine Luiza, Weg e B3.

Nesse meio-tempo, a Magazine Luiza promoveu uma intensa mudança interna, integrando as vendas físicas e online e conquistando uma importante fatia no ecommerce brasileiro, o que impulsionou sua valorização de 109% em 2020, quando o varejo online explodiu com a pandemia.

"É provável que a Magalu continue ganhando participação de mercado nos próximos anos, apoiada por vantagens competitivas importantes, como o desenvolvimento robusto de tecnologia e serviços de construção e recursos de pagamento" diz Pedro Fagundes, analista da XP Investimentos em relatório.
Fagundes projeta que a empresa vá ter 23,7% de participação de mercado entre 2020 e 2025. No ano passado, a sua fatia era de 15%.

Assim como a Magalu, a Weg é uma empresa considerada sólida e bem gerida, com uma trajetória emblemática no mercado local e internacional. Em plena pandemia, foi beneficiada pela valorização do dólar e por exportar muito para a China. Destaca-se também pela busca por fontes de energia limpa.

Para Luís Sales, analista da Guide, a Weg se fortalece com o mix de produtos diversificado e tem alto potencial de crescimento no segmento de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.

A OGX, por sua vez, teve o caminho contrário. A empresa de petróleo e gás de Eike Batista era a oitava companhia mais valiosa do Brasil em 2010, com R$ 65 bilhões em valor de mercado. Quando a exploração de seus campos de petróleo se mostrou mais difícil do que o vendido pela empresa, a desvalorização foi rápida e piorou com a prisão de seu fundador. Hoje, rebatizada com o nome de Dommo Enegia, vale R$ 435 milhões.

Chama a atenção o fato de que a própria Bolsa brasileira encerra a década como um caso de sucesso em termos de valorização. A B3, que opera a Bolsa de Valores de São Paulo, integrando BM&F Bovespa e Cetip, se beneficiou do desenvolvimento do mercado de capitais no Brasil.

Como a Bolsas regionais foram sendo fechadas, hoje ela atua sem concorrência como central depositária e de negociação e liquidação de ativos. Em 2002, incorporou a Bolsa do Rio, a segunda maior do país na época.

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