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Martin Sandbu

Nasce um novo consenso de Washington

A conversão do FMI e do Banco Mundial em apoio ao Estado ativista causaria vergonha no apóstolo Paulo

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Martin Sandbu

Comentarista de economia europeia do Financial Times

Financial Times

Qualquer pessoa que, como eu, era um estudante nos anos 1990, se lembrará de como as instituições de governança internacionais eram o alvo preferido das manifestações e protestos.

Uma imagem que me marcou é a de uma jovem carregando a figura de um duende com três cabeças, que representava (como ela disse ingenuamente à mídia) o FMI (Fundo Monetário Internacional), o Banco Mundial e a OMC (Organização Mundial do Comércio) assolando os pobres do mundo.

Eu me pergunto o que ela pensaria hoje. Quando se compara a previsão de políticas exposta recentemente nas reuniões do FMI e do Banco Mundial com o que atraiu a ira estudantil há um quarto de século, representa uma conversão que poderia causar vergonha no apóstolo Paulo de Tarso.

O Banco Mundial e o fundo foram escorchados nos anos 1980 e 1990 por fazer os pobres pagarem por atendimento de saúde básico ou presumir que as dívidas eram ruins para o crescimento. Isso foi muito tempo atrás.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na Casa Branca, em Washington, acompanhando de sua vice-presidente, Kamala Harris, e da secretária do Tesouro, Janet Yellen - Kevin Lamarque - 5.fev.21/Reuters

Aqui está o novo consenso de Washington:

Altos gastos em saúde pública. A probidade fiscal, por muito tempo a prescrição fundamental do FMI (a piada em inglês era que as iniciais IMF significavam "é basicamente fiscal"), não se refere mais a conter os gastos públicos, mas a obter valor pelo dinheiro --e gastar mais onde se encontrar valor.

Isso significa fazer o que for necessário para produzir e entregar vacinas globalmente. A publicação Fiscal Monitor, do FMI, avalia que colocar a pandemia sob controle em todo lugar "geraria mais de US$ 1 trilhão em receitas fiscais adicionais nas economias avançadas [cumulativamente] até 2025 e pouparia mais em medidas de apoio fiscal".

Em outras palavras, o que os governos gastam em vacinas pode se pagar muitas vezes. O fundo também defende fortemente os gastos em educação, para compensar o aprendizado perdido na pandemia e ajudar os trabalhadores a enfrentar as mudanças estruturais à frente.

Os economistas das instituições multilaterais às vezes parecem intensamente descontraídos sobre o enorme gasto deficitário nos países ricos. O FMI assume uma visão benigna do imenso pacote de resgate de US$ 1,9 trilhão do presidente Joe Biden.

Assim como outros formuladores de previsões, ele prevê que a renda nacional dos Estados Unidos no próximo ano será maior do que se esperava antes da pandemia. E vê o estímulo insuficiente à demanda como tendo custos permanentes: os países cujos governos gastarem menos dinheiro sofrerão mais "cicatrizes" que cortam o potencial produtivo em longo prazo.

Paralelamente a tudo isso, o FMI continua pregando prudência, mas com significado muito diferente de uma década atrás, quanto mais de uma geração atrás. De maneira surpreendente, o fundo aprova "contribuições à recuperação" —que outros poderiam chamar de sobretaxas temporárias de solidariedade— de indivíduos ricos e grandes lucros corporativos.

A mensagem do antigo quartel-general do "neoliberalismo" é que para tornar as finanças públicas sustentáveis os ricos e os que lucraram com a pandemia deveriam contribuir mais para a causa comum.

O FMI chegou a sugerir que os países ricos poderiam considerar impostos sobre a riqueza líquida, aparentemente canalizando os senadores americanos de esquerda Elizabeth Warren e Bernie Sanders.

As preocupações sobre desigualdade foram onipresentes nas últimas reuniões. A principal mudança de política que o FMI decidiu salientar foi "gerir recuperações diferentes" —entre países e entre grupos dentro de países— devido à pandemia e no novo normal conforme as economias se recuperarem dela.

Nos anos 1990, era um clichê que o consenso de Washington refletia as prioridades alinhadas de dois Washingtons: as instituições internacionais lá sediadas e o governo americano, com o último conduzindo o primeiro em grau significativo.

Esse alinhamento persiste. Pedidos multilaterais de retorno de um papel ativista do Estado se encaixam na ambição de Biden de imitar as reformas do New Deal de Franklin Roosevelt.

Mas é difícil afirmar hoje que o FMI e o Banco Mundial simplesmente repetem as preferências dos EUA, embora estar na mesma página que seu maior acionista torne a vida mais fácil. A mudança de pensamento na comunidade de políticas econômicas internacionais é anterior à do governo de Washington.

E o relacionamento pode fluir nos dois sentidos. A Casa Branca não segue instruções das instituições multilaterais localizadas alguns quarteirões a oeste.

Mas não é mau para Biden que os guardiões globais da ortodoxia econômica tenham endossado o mais radical programa dos EUA em várias gerações, especialmente quando alguns americanos estão se envolvendo em fogo amigo.

A política é a arte do possível —mas o que é possível muitas vezes é determinado pelo que é concebível. O novo consenso de Washington poderá se mostrar tão poderoso politicamente quanto o antigo.

Traduzido originalmente do inglês por Luiz Roberto M. Gonçalves

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