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Tarso Genro

Pessôa desembarca sem porto e sem bússola no RS

Ex-governador responde à coluna Gaúchos dizem não ao populismo, publicada no sábado (3) em Mercado

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Tarso Genro

Governador do Rio Grande do Sul (PT) de 2011 a 2014 e ex-ministro da Justiça do governo Lula

Muitos economistas e cientistas políticos, especialmente no Brasil, costumam analisar governos e governantes sem ter o conhecimento necessário sobre políticas de gestão. No sábado (3), neste espaço, Samuel Pessôa cometeu esse erro ao analisar a situação do Rio Grande do Sul.

Não estou dizendo que Pessôa é um “tipo” ignorante, pois ele é muito culto, como liberal. Porém, Pessôa jamais estará ao ponto do francês Thomas Piketty, que foi capaz de reformar suas análises e passar a ver o mundo e a economia de forma mais humana e generosa. Para ele, quem trata a gestão a partir das pessoas e dos números, não somente através dos números, é certamente “populista”.

No seu texto, Pessôa reproduziu cerca de meia dúzia de dogmas neoliberais, sempre indiferentes ao sofrimento alheio, pela pobreza e deserção social que esses dogmas sempre causaram. Mostrou também desconhecer o que representaram as gestões de Olívio Dutra (1999-2002) e a minha no Rio Grande do Sul, que sucederam e herdaram precisamente os problemas dos governos “liberais”, que ele defende de maneira tão sectária. O espaço não me permite alongar em dados, por isso me detenho em alguns números do meu governo.

Samuel, para defender as suas ideias com mais seriedade, deveria saber que o governo Leite sucedeu não o meu governo, mas o governo Sartori (2015-2018). E daí apontar alguns números.

Sartori foi o governador que entregou o estado ao seu sucessor, Eduardo Leite, em petição de miséria total, depois de ter feito a pior gestão financeira “neoliberal” da história gaúcha.

Mais desastrada do que a gestão Brito (1995-1998), que, por não cumprir acordos salariais com o magistério, fez explodir a dívida pública em precatórios, cujos efeitos são dramaticamente sentidos até hoje. Realmente, os liberais nos governos não ajudam as teses dos economistas neoliberais fora dos governos.

Samuel deveria saber que o governo Leite está usando R$ 3 bilhões do Fundo de Previdência dos Servidores, instituído no meu governo, para comprar vacinas e combater a pandemia, recursos transferidos em momento de crise para o Tesouro com apoio —neste particular— do meu partido (“populista” que é) para se contrapor à política genocida de Guedes e seus colegas.

Deveria saber também que o Tribunal de Contas do Estado aprovou com mérito as minhas contas, porque os recursos dos depósitos judiciais usados no meu governo foram orientados para gastos em saúde e educação, ao contrário do que ocorreu nos governos posteriores.

O PIB (Produto Interno Bruto) do Rio Grande do Sul cresceu, na minha gestão, acima do PIB nacional (10,8%, ante 9,7%); na Sala do Investidor, estrutura criada na minha gestão para atrair e estruturar investimentos privados, foram promovidos 420 projetos privados que totalizaram —entre ativos e concluídos— R$ 44,6 bilhões (com 59 mil empregos direitos); implementamos o Plano Safra Gaúcho, que articulou R$ 781 milhões em recursos orçamentários e R$ 8,1 bilhões do sistema financeiro estadual.

Quanto à dívida pública com a União, é simples: meu governo conseguiu —por lei— a mudança do seu indexador, retroativamente a janeiro de 2013, o que gerou já em 2017 um abatimento de aproximadamente R$ 5 bilhões da dívida total, projetados para mais de R$ 22 bilhões, se o estado não interrompesse o cumprimento das suas obrigações contratuais.

O maior equívoco no desembarque de Samuel Pessôa na política gaúcha, todavia, para propagar a candidatura de Eduardo Leite à Presidência da República —o que é direito seu—, é a sua acusação de que o “populismo gaúcho” está ancorado no peronismo e no populismo (batllismo?) uruguaio.

No particular, ele confessa que, não só para ele, o vocábulo “populista” é uma espécie de categoria da “ciência” política vulgar, que serve para atacar a democracia, usada por todos os analfabetos políticos que falam sobre o Rio Grande, mas que também é categoria que ajuda a esconder a brilhante influência positivista que fez o Rio Grande moderno.

Com Júlio de Castilhos, Borges, Assis Brasil, Getúlio, Pasqualini, Jango, Brizola, Jair Soares, Collares e Olívio, que fizeram desse estado, até há pouco, um exemplo de firmeza e tolerância na dialética democrática.

Com todo respeito, Samuel: você errou feio!

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