Celulares dão força a novo mercado de audiolivros no Brasil

Empresas que investem no nicho crescem, mas custo de gravação, de R$ 10 mil por obra, é entrave

São Paulo

​Ainda pequeno, o mercado de livros narrados começa a crescer no Brasil com a chegada de gigantes do setor. Em julho do ano passado, o Google Play lançou seu serviço de audiolivros no país. Já a Amazon prepara há pelo menos dois anos a entrada da sua plataforma, o Audible.

A Ubook e a Tocalivros, startups nacionais que investem nesse nicho desde 2014, veem a vinda dessas empresas como uma oportunidade de expansão, não como ameaça.

“Precisamos de marcas com relevância para nos ajudar a construir esse segmento no Brasil”, afirma Flávio Osso, 39, diretor-executivo da Ubook. “As editoras estão vendo que, se o Google entrou nesse mercado, é porque ele existe e funciona”, diz Ricardo Camps, 30, sócio da Tocalivros. 

As duas startups, aliás, já trabalham em parceria com o Google Play, disponibilizando suas obras na plataforma.

 
Marcelo e Ricardo podem ser vistos por uma janela dentro de um estúdio de gravação. Do lado de fora, o escritório, com pessoas no computador
Ricardo e Marcelo Camps, fudadores da Tocalivros, na sede da empresa, em São Paulo - Gabriel Cabral

Nos Estados Unidos, o segmento de audiolivros é um dos que mais crescem no mercado editorial. Em 2017, seu faturamento chegou a US$ 2,5 bilhões (R$ 9,4 bilhões), um aumento de quase 23% em comparação a 2016, de acordo com os dados mais recentes da associação do setor (Audio Publishers Association).

A explicação para o rápido crescimento nos últimos anos não está no formato em si, que não é nenhuma novidade.

Já em 1878, Thomas Edison (1847-1931) apostava que seu invento, o fonógrafo —primeiro aparelho capaz de gravar e reproduzir sons—, seria usado para que pessoas cegas ou até mesmo muito atarefadas pudessem escutar livros.

Muitas obras foram narradas em fitas cassete e CDs, mas, além do alto custo de produção e distribuição, essas plataformas não vingaram em razão da falta de praticidade na “leitura” —com exceção da Bíblia narrada por Cid Moreira, que vendeu mais de 50 milhões de CDs.

Foram os smartphones que impulsionaram de vez o mercado de audiolivros. Hoje, é possível ouvir obras inteiras dirigindo até o trabalho, lavando a louça ou correndo na esteira. E isso beneficia principalmente aqueles que gostariam de ler, mas não têm tempo.

“Eu só conseguia ler um livro por ano. Então, comecei a pegar gosto por escutá-los. Em dois anos, já tinha ouvido uns 40 títulos em inglês, alemão e francês”, diz Ricardo Camps.

A partir da própria experiência, o administrador se deu conta de que faltava no Brasil uma plataforma online que oferecesse audiolivros em português. Sem nunca ter atuado no mercado editorial, fundou em 2014 a Tocalivros com o irmão, o engenheiro de produção Marcelo Camps, 33.

Em parceria com as editoras, a empresa produz de 10 a 15 audiolivros por mês e os disponibiliza em seu aplicativo —que começou com 70 títulos e, hoje, tem mais de 1.500. 

Os usuários podem comprar as obras de forma avulsa ou por meio de assinaturas. O plano mais contratado é o ilimitado, pelo qual é possível acessar todo o acervo por R$ 19,90 ao mês.

O maior desafio é conseguir ampliar o catálogo oferecido aos cerca de 3.000 assinantes. O entrave são os altos custos de produção —em torno de R$ 10 mil por audiolivro.

Um título demora, em média, dois meses para ficar pronto e envolve profissionais de narração, edição, revisão, mixagem e masterização. “É uma criação inteira, não é só colocar um narrador no estúdio”, diz Ricardo.

Escolhido de acordo com a obra, o locutor conta com uma direção artística, importante para que a leitura não fique monótona. Além disso, o profissional grava três horas por dia, para não forçar a voz.

“É um investimento grande, por isso as editoras estão levando mais tempo para construir um catálogo de audiolivros”, afirma Marcos da Veiga Pereira, presidente do Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) e sócio da editora Sextante.

“A crise das livrarias tem um impacto grande nisso, porque diminui bastante o caixa das empresas. No momento em que precisávamos investir em uma nova área, temos uma limitação”, completa.

Ele se refere às dificuldades enfrentadas pelas redes de livrarias Saraiva e Cultura, responsáveis por 40% do faturamento das principais editoras do país. No ano passado, as duas empresas entraram em recuperação judicial.

Flávio Osso posa para foto, de camisa branca e calça jeans, apoiado em uma grade de uma varanda. Ao fundo, árvores e morros
Flávio Osso, diretor-executivo da Ubook - Divulgação

Mas Flávio Osso, da Ubook, reforça que a crise também mostrou às editoras a necessidade de buscar fontes alternativas de receita. “Elas estão abrindo a mente para ver que o livro digital não representa uma competição. Pelo contrário, ele reforça e ajuda na venda do físico”, diz.

Hoje, a Ubook se apresenta como o maior aplicativo de audiolivros por streaming da América Latina. Seu modelo de assinatura é inspirado no da Netflix: os usuários pagam um valor mensal (R$ 29,90) e têm acesso a todo conteúdo da plataforma —que, além de livros falados, tem ebooks. A startup também investe em produções originais.

Há ainda um outro plano em que o assinante paga a mensalidade de R$ 49,90 e recebe um livro físico por mês em casa. 

Com 3,5 mil títulos em português e 12 mil em outras 18 línguas, a empresa começou a expandir suas operações para outros países em 2018. Hoje, atua no México, na Colômbia, no Chile e na Espanha. Até o fim de março, a previsão é que a plataforma esteja em 18 países.

Até o momento, o Ubook já recebeu cerca de R$ 8 milhões de aportes de investidores. O mais recente, em 2017, foi de 3,2 milhões, do fundo de investimentos Cypress M3. Em 2015, a startup já havia recebido recursos do fundo Koolen & Partners, liderado pelo holandês Kees Koolen, ex-presidente da Booking.com. 

Com sete estúdios próprios, a empresa produz entre 50 e 60 audiolivros por mês. Segundo Flávio, a plataforma tem 6 milhões de usuários, número que inclui assinantes e pessoas que estão cadastradas, mas que não necessariamente usam o serviço.

A Ubook não revela faturamento, mas Flávio diz que está no patamar de oito dígitos.

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