Mesmo entre amigos, acordo de sócios deve ser formalizado

Debater expectativas e papéis de cada um no negócio ajuda a evitar brigas

Marina Azaredo
São Paulo

Um erro comum entre empreendedores iniciantes custou a Ana Fontes, 52, duas amizades mantidas havia mais de 20 anos. 

Em 2008, ela e dois amigos resolveram empreender. O trio lançou uma plataforma de recomendações de lugares na internet. Na euforia inicial, ninguém lembrou de acertar qual seria o papel de cada um dentro do negócio e muito menos de fazer um contrato social registrando o acordo.

“As coisas não foram bem e começamos a ter dificuldades. Quando percebi, estávamos brigando por bobagens”, lembra Ana, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, que apoia empresárias.

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, na sede da empresa
Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, na sede da empresa - Karime Xavier/Folhapress

A situação azedou tanto que os três tiveram de buscar ajuda de um mediador para fazer as negociações na hora de desfazer a sociedade. “Foi um processo que durou seis meses, tudo porque não tínhamos estabelecido as regras do jogo. Perdemos dinheiro e perdemos a amizade.”

Foram alguns os erros cometidos nesse início. Para Ana, entre os fatores cruciais para o fracasso da empreitada estão a escolha dos sócios por amizade —e não por complementaridade de competências— e a falta de diálogo sobre expectativas e conflitos que poderiam vir a surgir.

Em uma pesquisa sobre a taxa de sobrevivência das empresas brasileiras realizada em 2016, o Sebrae identificou que 23,4% dos negócios não passam de dois anos de vida. Problemas de gestão e planejamento estão entre as principais causas desse fim precoce.

“O brasileiro tem medo de falar as coisas de forma direta e objetiva. No começo de um negócio ninguém quer debater os problemas que podem vir a surgir no futuro. Mas é extremamente importante que tudo esteja documentado desde o início, mesmo no caso de uma sociedade entre amigos”, afirma Ana.

O mesmo alerta faz Carlos Emanuel Teixeira Pires Bicheiro, consultor da Falconi, empresa especializada em aperfeiçoar sistemas de gestão. 

“Formalizar a relação permite que as questões de interesse dos sócios sejam definidas previamente e de forma objetiva, orientando a solução de possíveis divergências que podem ocorrer durante a vida da empresa. Dessa forma, conflitos são prevenidos.”

O ideal é que essa formalização seja registrada em cartório. Mas, no início, já ajuda fazer um documento escrito e assinado por todos, listando como será a divisão do capital, as regras para tomadas de decisão e as funções de cada um, para orientar os sócios.

Não é desaconselhável montar uma empresa com pessoas próximas, mas especialistas e consultores de negócios alertam que a relação de amizade não deve ser o único fator a ser considerado.

É preciso apostar em diferentes perfis profissionais. Foi o caso de Ariel Lambrecht, 34, e Renato Freitas, 33, amigos de faculdade responsáveis por duas startups de mobilidade urbana. Ao lado de um terceiro sócio, criaram a 99, posteriormente vendida. Hoje os dois estão por trás do Yellow, sistema de compartilhamento de bicicletas e patinetes, com mais um parceiro.

“Acredito que o segredo esteja na complementaridade e na confiança. Com isso, vem o respeito pelo conhecimento e pelas habilidades que cada um aporta”, afirma Ariel.

O professor do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV Marcus Salusse recomenda ainda formar parcerias em que fique bem claro quem terá o poder de decisão em cada assunto.

E sugere até mesmo um acordo de acionistas de 51%-49%. Assim, no caso de um impasse, o detentor da maior fatia terá preferência na decisão.

Nem todo empreendedor tem, afinal, a sorte de Altino Cristofoletti Junior, 59. Junto a um amigo de infância, o empresário fundou há 25 anos a Casa do Construtor, rede de franquias especializada na locação de máquinas e equipamentos de pequeno porte para a construção civil que atualmente conta com 260 lojas.

“Fomos definindo questões importantes como os papéis de cada sócio, o alinhamento de expectativas pessoais e profissionais e o acordo de acionistas ao longo do caminho”, conta ele. Os sócios assinaram o acordo apenas em 2013, com a participação de ambas as famílias. Questões como herança e sucessão foram contempladas. 

“Sempre tentamos entender o momento do outro, como problemas de saúde, familiares e de relacionamento. Tivemos sorte, mas percebemos que o acordo era importante até para o negócio não desandar na segunda geração”, explica.

O que levar em consideração ao escolher um parceiro

Alinhamento de valores e ética 
Tudo o que é importante para os sócios, que norteia as decisões, as escolhas e os comportamentos deve estar de acordo

Visão de longo prazo 
Os objetivos da empresa devem ser claros e compartilhados, para que as decisões sejam tomadas sem grandes divergências

Competência 
Os sócios precisam ter competências e habilidades complementares. É melhor buscar uma pessoa que tenha características e habilidades que você não tem

Experiência 
Os sócios devem ser capazes de trazer para o negócio sua experiência profissional e pessoal, o que já foi feito e vivido em outras situações

Boa convivência 
A afinidade entre os  sócios é fundamental para manter a saúde física e mental, e também para a longevidade do negócio

Fonte: Carlos Bicheiro, consultor em gestão empresarial

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