Delivery impulsiona fabricantes de embalagens

Aumento na demanda por sacolas e caixas para comida é acompanhado por um novo rol de exigências dos restaurantes

São Paulo

Desde 2011, quando o iFood passou a operar na capital paulista, os fabricantes de embalagens para delivery não têm do que se queixar.

A popularização dos aplicativos de entrega fez com que a venda de recipientes descartáveis para comida aumentasse 30% desde então, segundo Fabio Marante, 47, fundador da Argos, empresa que representa 14 fabricantes de itens que vão de caixas a guardanapos.

Nada, porém, que se compare ao fenômeno registrado de março para cá. Só a Scuadra, que fabrica embalagens para alguns dos principais estabelecimentos da capital paulista, como Rubaiyat, Mocotó e Manioca, viu o faturamento mais do que dobrar.

Segundo Luiz Silveira, 52, que fundou a empresa em 2018, a produção pulou de 750 mil embalagens por mês para 1,7 milhão. O salto foi tamanho que o site da Scuadra exibe um aviso: o atendimento a novos clientes está temporariamente suspenso.

“Passamos a trabalhar 24 horas por dia, de domingo a domingo, e ainda assim precisamos recusar cerca de 80 clientes de todo o país. Deu dor no coração”, diz Silveira.

Luiz sentado nos degraus de uma escada com corredor amarelo, com caixas empilhadas à sua frente
O empresário Luiz Silveira, da Scuadra, que fabrica embalagens de delivery para restaurantes de São Paulo - Jardiel Carvalho/Folhapress

O aumento da demanda, segundo ele, veio acompanhado de um rol de novas exigências. Com 100% das vendas concentradas no delivery, restaurantes, cafés e lanchonetes passaram a dar mais importância para as embalagens.

Entre os diferenciais oferecidos pela Scuadra estão caixas de papelão impermeável que vão ao forno e tampas antivazamento —Silveira tem a patente da máquina seladora, que pode ser alugada ou cedida em comodato.

Tanta sofisticação tem custo alto. Cliente da empresa, Marcia Trevisani, 52, sócia do restaurante Ristorantino, entrega seus pratos —a porção individual de ravióli de mozzarela custa R$ 83— em caixas exclusivas que chegam a representar 13% do preço.

O investimento, diz Trevisani, compensa. “O impacto das embalagens foi além do esperado. As avaliações foram muito positivas”, conta.

A expansão do mercado não se limitou ao nicho de alto padrão. Marante, da Argos, que está comercializando 80 toneladas de embalagens por mês, relata que casas de pequeno porte também incrementaram os pedidos.

Uma de suas clientes é a chef Tássia Magalhães, sócia do restaurante Riso.e.ria e da rotisseria Unno Masseria, esta exclusiva para delivery.

Antes da pandemia, diz ela, os pratos, que custam R$ 35 em média, eram entregues em embalagens de bagaço de cana, que amoleciam com o calor dos caldos e molhos.

Quando a quarentena começou, ela correu para resolver o problema. “O Fabio me trouxe vários modelos, de diferentes materiais, e fiquei umas três semanas fazendo testes.”

O desafio, diz a chef, era também de ordem financeira. “Precisei negociar para conseguir embalagens que não custassem mais do que 10% do valor dos pratos. Além delas, é preciso contabilizar lacres, sacolas e a porcentagem cobrada pelos aplicativos.”

Além dos restaurantes, um novo perfil de cliente tem turbinado o faturamento dos fabricantes de embalagens: os microempreendedores individuais, que passaram a cozinhar em casa na pandemia.

Herdeira da NobelPack, fundada há 65 por seu avô, Eliane Adler, 54, fabricava sacolas de papel para grandes varejistas, como Cacau Show, Natura e Hering, mas as vendas caíram 50% assim que as lojas fecharam as portas.

A saída, ela conta, foi lançar sacos e sacolas simples para delivery, que custam a partir de R$ 0,32 cada um.

A divulgação, focada nas redes sociais, atingiu o alvo. “São basicamente microempreendedores, aquela dona de casa que passou a fazer tortas para entregar e ainda não tem volume para personalizar a embalagem”, conta Adler.

Ela não divulga o volume de vendas, mas explica que os itens têm sido responsáveis por manter o emprego dos 250 funcionários —tanto que a ampliação da linha está nos seus planos. “Acho que essa demanda veio para ficar.”

Para Ana Paula Tozzi, presidente da AGR Consultores, a pandemia criou uma oportunidade para os fabricantes.

“As embalagens deixaram de ser coadjuvantes, mas também impuseram um desafio enorme para o setor.”

Vender produtos eficientes e ser rigoroso no cumprimento nos prazos de entrega já não basta. Quem quiser manter o faturamento em alta, diz Tozzi, terá que ser criativo.

Ela cita como exemplo um serviço adicional oferecido pela Scuadra: a empresa produz lotes de embalagens personalizadas para cada cliente, o que reduz o custo, mas mantém os estoques na fábrica, já que parte dos restaurantes não tem espaço para armazenagem.

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