Novos hábitos dos consumidores norteiam transformações do setor de franquias

Marcas se adaptam rapidamente a demandas trazidas pela pandemia e aceleram retomada

São Paulo

A crise causada pelo coronavírus tem tirado o sono de muito empresário, mas algumas redes de franquia têm motivos para comemorar: são negócios que se beneficiaram das mudanças de hábitos provocadas pela pandemia.

É o caso da rede de escolas de idiomas CNA, que soma 400 mil alunos em 600 unidades e foi eleita franqueador do ano pela ABF (Associação Brasileira de Franchising).

De fevereiro para cá, 62 novas franquias foram vendidas, metade delas para empreendedores que já tinham escolas de outras bandeiras.

Homem de terno sentado á mesa do escritório olha para a câmera
Eduardo Murin, diretor de expansão da rede de escolas de idiomas CNA - Lucas Seixas/Folhapress

O investimento inicial varia de R$ 90 mil, no caso de escolas compactas para municípios com menos de 75 mil habitantes, a R$ 500 mil, para escolas de grande porte, a partir de 500 alunos.

Eduardo Murin, 46, diretor de expansão do CNA, atribui o bom resultado à rapidez com que a rede se adaptou ao novo modelo de aulas remotas.

Todo o portfólio de cursos de inglês e espanhol, dos infantis aos formatados para a terceira idade, foram transpostos para a plataforma CNA 360, que já existia e foi aperfeiçoada em tempo recorde.

Em apenas 15 dias, a rede adaptou os conteúdos para as novas tecnologias digitais, alterou os livros didáticos e os manuais de orientação para o corpo docente e ainda ampliou o time de professores online sem custo extra para os franqueados.

“Saímos na frente de outras marcas, o que nos deu mais tempo para fazer os ajustes necessários e competir em condições melhores. Isso foi fundamental para ampliar as vendas”, acredita Murin.

A rede agora está se preparando para o retorno gradual das aulas presenciais. Em cidades como Niterói (RJ) já está em vigor o formato intermediário —no máximo quatro alunos dentro de sala de aula, para garantir o espaçamento mínimo de dois metros, enquanto o restante da turma assiste à aula pelo computador, em tempo real.

“Acreditamos que pelo menos 30% dos alunos não vão querer voltar à sala de aula. Por isso estamos dispostos a manter o formato remoto. Ele não vai desaparecer após o fim da pandemia.”

Outra franquia que obteve bons resultados a despeito da crise foi a OdontoCompany, que mantém 832 clínicas odontológicas voltadas para a classe C em todo o Brasil.

Apesar do investimento inicial alto, a partir de R$ 250 mil, a rede não teve dificuldade para atrair empreendedores. Foram vendidas 174 franquias de março até agosto.

A estratégia, segundo o fundador da OdontoCompany, Paulo Zahr, 56, foi investir em produtos financeiros que permitissem que os clientes mantivessem os tratamentos, garantindo ao mesmo tempo a liquidez do franqueado.

Homem olha para a câmera através de vidro com desenho de dente estilizado
O presidente da OdontoCompany, Paulo Zahr, em uma das unidades da franquia - Zanone Fraissat/Folhapress

“O banco Santander desenhou um crediário exclusivo para nós, que pode ser aprovado no balcão, em apenas quatro minutos. O cliente paga o tratamento em 36 meses, com juros de 1,9% a 2,9% ao mês, dependendo da duração, mas o franqueado recebe o valor integral 24 horas depois”, afirma Zahr.

O financiamento, ele conta, tem ajudado a manter as agendas cheias mesmo com a queda do poder aquisitivo do público-alvo. Tanto que seus planos são ambiciosos.

“Até 2023, queremos chegar a 2.600 franquias. Seremos a maior rede odontológica do mundo em unidades.”

A busca por crédito também impulsionou o crescimento da rede de franquias CredFácil, cujo principal produto é o crédito consignado para aposentados e pensionistas.

O fundador André Oliveira, 41, notou que a crise trouxe um novo perfil de clientela e foi rápido para adaptar o modelo de atendimento.

“A pandemia fez com que filhos dos aposentados buscassem crédito através dos pais. Passamos a resolver tudo de maneira remota para que as operações fossem concluídas a distância. Enviamos um link para o cliente por SMS, que só precisa tirar uma selfie, fotografar os documentos e nos mandar um aceite digital”, explica.

A digitalização dos procedimentos aumentou a produtividade —cada vendedor consegue atender vários clientes simultaneamente, sem sair de casa— e também atraiu mais franqueados.

Em março, Oliveira lançou o formato de franquia em home office, com investimento inicial de R$ 14.990 e isenção de royalties, e tem vendido de 30 a 35 unidades por mês. Com 330 franquias atualmente, ele planeja chegar às 500 até o fim deste ano.

“Esse novo modelo de atendimento remoto, desenvolvido em função da crise, é definitivo. O franqueado fatura R$ 10 mil mensais até o fim do primeiro semestre e tem retorno do investimento em apenas três meses”, diz.

Segundo Tom Moreira Leite, vice-presidente da ABF, as novas demandas geradas pela crise têm proporcionado um crescimento acima da média para diversos setores.

Empresas de alimentação que dispõem de serviço de delivery, redes de educação que adotaram o ensino à distância, franquias de limpeza e manutenção, serviços de crédito ou relacionados à saúde estão se destacando.

Mas não basta fazer parte desses segmentos para surfar na onda, e a rapidez nas decisões, afirma Leite, não é o único fator determinante para o sucesso.

“As franquias que mais se destacaram foram justamente as que souberam aproveitar o sistema de colaboração. Ou seja, foram ágeis para adequar produtos e serviços e operar a transformação digital a partir dos inputs dos próprios franqueados. Essas vão sair da crise ainda mais fortes.”

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