Franquias dão sinais de recuperação e devem sair fortalecidas da crise

Marcas dos setores de construção, saúde e limpeza estão entre as que mais cresceram nos últimos meses

Andrea Vialli
São Paulo

Após sofrer quase 50% de queda nas vendas nos primeiros meses da pandemia, as redes de franquias do país têm, aos poucos, conseguido se recuperar.

Em julho, a redução média do faturamento foi de 7,2% em comparação ao mesmo período de 2019, queda bem inferior às de junho (30,1%), maio (41%) e abril (48,2%).

Embora haja segmentos que ainda apresentam quedas expressivas —caso da alimentação, com redução de 27%, e da moda, com 47%—, outros setores registram alta no faturamento pela primeira vez desde o mês de março.

O ramo de casa e construção cresceu 36% em julho, em comparação com o mesmo período do ano passado, e serviços e negócios, que inclui desde seguradoras e locação de purificadores até gestão de ativos financeiros, teve alta de 9%.

"Os segmentos que apresentaram melhores resultados são os que estão conectados às demandas do consumidor que ficou mais em casa, fez pequenas reformas e trabalhou em home office durante a quarentena", diz André Friedheim, presidente da ABF (Associação Brasileira de Franchising), que compilou os números junto com a empresa de pesquisas AGP.

Fatores como a reabertura do comércio, a volta de parte dos trabalhadores aos escritórios, o aumento da confiança do consumidor e os programas de renda emergencial também surtiram efeito no desempenho das franquias.

"De um lado, o quadro macroeconômico melhorou. De outro, as redes e os franqueados buscaram negociar custos e se inserir mais no mundo digital, o que ajudou a recuperar as vendas em diferentes segmentos", diz Friedheim. ​

De acordo com ele, houve um esforço das franquias desde março em intensificar o suporte aos franqueados, reconquistar a confiança do consumidor e buscar alternativas de negócio.

O fortalecimento dos canais de vendas digitais também explica a retomada de fôlego das redes. Quase 70% delas trabalham hoje com ecommerce, enquanto há um ano esse número era de 61,1%.

Entre os franqueados, esse número deu um salto, passando de 51,9% em 2019 para 91,6% em 2020.

Outros canais de relacionamento com o consumidor foram incorporados ao dia a dia das marcas, como parceria com aplicativos de entrega e atendimento via WhatsApp.

Há ainda segmentos que tiveram perdas menores e têm boas perspectivas de retomada para os próximos meses, como o de saúde, beleza e bem-estar, que caiu 2% na comparação com julho de 2019, e o de limpeza e conservação, que teve redução de 6%.

A reabertura dos salões de beleza e clínicas de estética e a demanda crescente por serviços de sanitização e desinfecção de ambientes tornam essas áreas promissoras.

Ensino a distância, limpeza doméstica, lavanderia e alimentação com entrega via aplicativo também estão entre as áreas com maior potencial de recuperação.

Com experiência de 25 anos no gerenciamento de negócios, o consultor Paulo Ancona, fundador da Ancona Consultoria, observa que a pandemia serviu para dar um choque de gestão na área.

"Depois do apavoramento dos primeiros meses, uma pequena parte encerrou as atividades, mas a maioria conseguiu se adaptar, reduzir custos, inovar e se relacionar de uma forma diferente com o cliente", afirma.

Segundo a ABF, a taxa de encerramentos definitivos chegou a 2%, e a de repasse, a 3% em julho de 2020.

Outro fator importante para conter os prejuízos das redes e dos franqueados, segundo o consultor, foi a velocidade na tomada de decisões. "As empresas acharam soluções para o período em que o comércio estava fechado, investindo em delivery e drive thrus nos shoppings, por exemplo."

Um dos setores mais prejudicados pela pandemia, o varejo de moda sofreu porque março é o mês de lançamento de produtos de outono e inverno no hemisfério Sul, e as vendas para esta estação ocorreriam até junho, com a rede de abastecimento pronta para atender o consumidor —período que coincidiu com a quarentena.

Passado o susto inicial, porém, o segmento conseguiu evitar perdas maiores ao começar a atender por canais múltiplos —o chamado omnichannel, no qual o consumidor transita por diferentes plataformas, físicas e digitais.

A tendência foi acelerada pela pandemia e veio para ficar, segundo os especialistas. "A pluralidade e a criatividade para gerar modelos de negócio em canais múltiplos vai dar bons frutos para o varejo de moda e pode aumentar a eficiência de aproveitamento dos estoques, algo crucial nesse setor", diz Marília Carvalhinha, coordenadora da pós-graduação em negócios de varejo de moda da FAAP.

De acordo com a professora, a retomada das franquias do segmento é mais lenta porque o modelo de negócio tende a ser engessado, com os empreendedores atrelados às estratégias da marca.

O que seria uma vantagem desse formato, que é receber os modelos de operação e a expertise de seus franqueadores, se tornou uma desvantagem em um momento de incertezas, no qual é preciso ter mobilidade estratégica para sobreviver, diz Marília.

Para a ABF, a recuperação das franquias aos níveis pré-pandemia deverá ocorrer só no ano que vem. Mas o último trimestre de 2020, com datas como Dia das Crianças e Natal, deve garantir pelo menos 80% do faturamento obtido no mesmo período de 2019.

"A agenda da sobrevivência passou, e as redes já conseguem olhar para os próximos meses sem tantos sobressaltos. No final, as franquias saem fortalecidas da crise", diz Marcia Pires, sócia da consultoria Profranquia & Negócios.

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