Para ter crédito, pequeno empresário deve provar que vai sobreviver à crise

Manter a contabilidade organizada é o primeiro passo para empreendedor negociar com instituições financeiras

São Paulo

Desde o começo da pandemia, pequenos empresários relatam problemas para conseguir empréstimos: apenas 22% deles tiveram sucesso na empreitada, de acordo com pesquisa do Sebrae feita entre os dias 27 e 31 de agosto com 7.586 pessoas.

Para aumentar as chances de obter dinheiro mesmo em um cenário incerto, o primeiro passo é ter a contabilidade organizada e reunir informações que demonstrem que sua empresa tem condições de atravessar a crise.

"Existe uma dificuldade histórica para pequenos acessarem crédito", diz Giovanni Beviláqua, analista de serviços financeiros do Sebrae.

"Muitas vezes esses estabelecimentos têm menor antecedente de relacionamento com instituições bancárias e uma baixa qualidade de dados. Isso contribui para uma percepção de maior risco", diz.

Entre os principais entraves enfrentados na quarentena está a negativação (inclusão do nome do devedor no cadastro de inadimplentes).

A certidão negativa para a empresa e seus sócios é solicitada na maior parte das operações desse tipo, por isso é preciso deixar a documentação em dia, diz o analista.

"As instituições financeiras mantiveram os mesmos critérios de antes da pandemia para fazer empréstimos durante o período emergencial", afirma Beviláqua.

O governo viabilizou iniciativas para destravar o crédito, como o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), que fornece garantias no caso de o empreendedor não saldar sua dívida. No início de setembro, porém, a segunda leva do programa, que disponibilizou R$ 12 bilhões, esgotou rapidamente entre os principais bancos.

Muitos empresários não conseguiram ser contemplados, a exemplo de Iraihana Leonardi, 33, dona do salão Venice Hair, nos arredores da avenida Paulista, em São Paulo.

"É preciso demonstrar o faturamento dos últimos meses, mas todo o controle do fluxo de caixa que eu tinha foi embora", diz. Além dos meses em que o salão passou fechado, ela conta que também pesou no processo o baixo movimento típico do início do ano.

Agora, três meses depois de retomar a atividade, Iraihana pretende fazer outra tentativa. A estratégia é apresentar a projeção de faturamento para o fim de ano, período de maior movimento, tendo como base os resultados obtidos desde a reabertura.

Para fornecer recursos, o banco faz uma análise do fluxo de caixa, que vai dizer se a realidade da companhia é compatível com o empréstimo, explica Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (Fundação Getulio Vargas). Além disso, o fluxo de caixa pode demonstrar a habilidade do dono em gerir seu negócio.

Se não for possível, o empresário deve demonstrar o que está fazendo para alcançar os resultados que espera.

Nesse cenário, segmentos menos afetados pela crise têm mais chances de negociar.

Mesmo que não sejam exigidos, outros elementos que comprovem que a empresa tem uma gestão financeira organizada também são bem-vindos e ajudam a reforçar a qualidade das informações apresentadas na negociação.

É o caso da demonstração de resultados, um informe que pode ser produzido por um contador e traz o saldo contábil da companhia em um determinado período.

Também é interessante ter à mão o planejamento de resultados atualizado, que mostra qual o objetivo da empresa e como ele será alcançado levando a atual situação em consideração, diz Dariane Fraga, professora do Proced (Programa de Capacitação da Empresa em Desenvolvimento) da FIA (Fundação Instituto de Administração).

Martin Kovensky


"Crédito é uma questão de confiança, então é importante organizar os próprios números, incluindo os que mostrem o desempenho no passado. Apure os dados e mantenha seu gerente atualizado", sugere Fraga.
Também é preciso saber a finalidade do dinheiro, já que o banco tem linhas específicas para cada situação, como capital de giro e investimento. E uma pode ser mais cara do que a outra, diz Fraga.

Outro gargalo comum são as garantias que o banco pede como contrapartida.

O empresário Renato Mathias Malheiros, 37, da Veromath, que faz aluguel de guindastes e caminhões em São Paulo, precisou apresentar mais veículos de sua frota do que o de costume, com a exigência adicional de serem modelos mais recentes, para conseguir um empréstimo de capital de giro no início da pandemia.

"Senti agora que o banco subiu a régua em relação ao que aceitava para realizar as transações", afirma.
Caso não consiga apresentar um bem real como garantia, o empresário tem alternativas como o Fampe (Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas), programa do Sebrae que funciona como um fiador ao empresário que atinge até 80% do financiamento bancário junto a instituições credenciadas, como a Caixa Econômica Federal.

Além disso, no fim da semana passada o governo liberou R$ 5 bilhões em empréstimos a microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte que serão garantidos por recebíveis de máquinas de cartões de crédito e débito.

Quando o empreendedor tem dificuldade em conseguir um empréstimo que o contemple, Gonzalez recomenda que ele esgote sua consulta a atores do mercado —que podem ser diferentes bancos, fintechs e cooperativas.

Para ele, algumas dessas instituições podem ter maneiras mais flexíveis de fazer análise de risco e de receber dados sobre os negócios.

"O crédito está ligado ao nível de informação que o tomador tem. Se a instituição conhece aquela companhia, vai se sentir mais à vontade em emprestar dinheiro, porque sabe que o negócio é promissor", afirma o especialista.

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