Descrição de chapéu Venezuela

Centro de detenção de presos políticos em Caracas tem menores e falta de água

Internos enfrentam atrasos processuais e abuso de poder; ONU pede investigação de tortura

Grupo de ativistas carrega cartazes com fotos do ex-prefeito Daniel Ceballos, um dos presos políticos, batem palmas e gritos; das cinco pessoas que aparecem à frente na imagem, três delas usam camisetas com a imagem do ex-prefeito Leopoldo López com as cores da bandeira da Venezuela
Ativistas do Vontade Popular pedem libertação de presos políticos na sede do Sebin, o serviço de inteligência venezuelano, nesta quinta-feira (17) - Fernando Llano/Associated Press
FABIANO MAISONNAVE
Caracas

Com os olhos cansados, a advogada Gioconda Landaeta era uma das dezenas de parentes que se reuniram nesta quinta-feira (17) diante da prisão El Helicoide, onde presos políticos haviam se amotinado na véspera.

O local, sede do Sebin, o serviço de inteligência venezuelano, encerra a filha de Landaeta, Stephanie Salazar, e mais 53 presos políticos, segundo ONG Fórum Penal. Quatro deles são menores de idade.

No final da tarde, policiais entraram na ala masculina, onde se localizava o motim, segundo relatos dos próprios presos enviados por celular.

O procurador-geral, Tarek William Saab, afirmou que 72 presos comuns seriam transferidos para outros presídios.

A angústia de Landaeta, no entanto, continua. Na próxima segunda-feira (21), fará um ano que sua filha de 24 foi detida pelo Sebin.

"Eles a prenderam na minha casa. Derrubaram a porta porque ela se recusou a sair", relembra.

Landaeta afirma que Stephanie, também advogada, está encarcerada por fornecer material médico a manifestantes durante os protestos da oposição no ano passado, que deixaram ao menos 121 mortos.

Segundo o governo, ela pertencia a um grupo com o qual foram localizados máscaras, foguetes e uma escopeta.

Até agora, a advogada não se apresentou diante de um juiz —foram oito audiências adiadas, segundo a mãe.

Landaeta, que a visita quatro vezes por semana, diz que a filha divide a cela com mais 25 presas. "É um quadrinho com dois banheiros. É infra-humano."

Ela conta que Stephanie trabalhava como gerente em uma empresa de transporte urbano quando foi presa. "Ela disse que advogaria quando voltasse o Estado de Direito."

Mãe de outra presa, a dona de casa Natividad Villarroel segurava uma decisão judicial que concedia liberdade condicional a sua filha Geraldine Chacon, 24, a partir do dia 2 de abril. Até hoje, porém, ela continua presa.

Além da ausência do devido processo legal, os familiares reclamam das condições do presídio. Todos afirmam que têm de enviar água para os presos, já que o prédio vive em constante racionamento --problema que se alastra por várias partes da capital venezuelana.

Relatos de abuso de poder também são comuns. Chorando, a avó de um dos presos contou à reportagem que um guarda comeu diante dela a comida que havia levado para o neto.

Depois de informar o nome dele, ela pediu à reportagem que o riscasse da caderneta, com medo de represálias.

Um dos presos menores de idade é Betzaida Martínez, 17, detida em 13 de janeiro pelo Sebin quando saía de uma festa, segundo familiares.

Segundo a ONG Fórum Penal, ela já tem direito a liberdade sob fiança, mas continua presa e sem contato com familiares.

O detento mais conhecido é o líder opositor Leopoldo López, em prisão domiciliar. Ele está proibido de conceder entrevistas e de fazer pronunciamentos.

No Helicoide está Daniel Ceballos, prefeito cassado de San Cristóbal, capital do estado de Táchira e aparentemente o líder do motim iniciado na quarta-feira.

Por meio de um bilhete, os amotinados exigiram a libertação dos presos políticos e o devido processo legal. Eles afirmaram que, dos 265 presos no local, entre comuns e políticos, 103 tinham atraso processual de mais de dois anos e que todos necessitavam ajuda médica.

Em nota, o escritório de direitos humanos da ONU deplorou o espancamento do preso político Gregory Sanabria na quarta-feira (16) por presos comuns, o que desatou a rebelião.

"Exigimos o tratamento humano de todos os prisioneiros e exortamos a uma investigação sobre o uso da tortura e outros maus-tratos. Todos os presos políticos devem ser soltos", diz o comunicado, distribuído via rede social.

O governo venezuelano nega a existência de presos políticos e afirma que os militantes oposicionistas atuavam para derrubar o governo de Nicolás Maduro, com o apoio norte-americano.

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