Descrição de chapéu Financial Times

Mulheres contornam censura na China com '#MiTu'

Usuárias da internet usam homófonos do #MeToo, como coelhinho com arroz, e emojis para denunciar assédio

O abade Xuecheng, do templo Longquan, perto de Pequim, é um dos acusados de abuso na China; ele nega - Chinatopix - 3.jul.15/Associated Press
Pequim | Financial Times

Enquanto o movimento “#MeToo” ganha força na China, indivíduos e plataformas de mídia estão forçando os limites do que é permitido na internet rigidamente controlada do país, descobrindo maneiras de contornar a censura para permitir que os ativistas mobilizem apoio.

Nas últimas duas semanas, dezenas de pessoas foram à plataforma de rede social chinesa Weibo, semelhante ao Twitter, para publicar histórias de assédio sexual cometido por importantes intelectuais e líderes de ONGs de Pequim.

Nenhuma autoridade foi acusada publicamente, mas os reguladores adotaram uma abordagem cautelosa, como fazem com todos os incidentes públicos que possam provocar expressões maciças de descontentamento.

Em julho, dois monges publicaram um documento de 95 páginas acusando de abuso sexual o presidente da Associação Budista da China, Shi Xuecheng, abade do mosteiro de Longquan, perto de Pequim. 

Em poucos dias o caso atraiu tanta atenção que “abuso sexual” se tornou uma correção sugerida pela principal ferramenta de buscas, Baidu, nas pesquisas sobre “mosteiro Longquan”.

Em nota, o abade disse que as denúncias eram falsas e continham evidências forjadas.

“As autoridades sabem desde o início que o movimento tem tons de antiautoritarismo e temem que as denúncias se estendam a oficiais”, disse Wu Qiang, ex-professor da Universidade Tsinghua. “Canais privados de comunicação podem ser explosivos ao disseminar informações rapidamente.” 

A censura intermitente da hashtag MeToo e suas variantes no Weibo deu origem a várias alternativas --mais destacadamente “#MiTu”, ou “coelhinho de arroz” em mandarim. Os usuários agora estão experimentando o emoji de uma tigela de arroz e um coelho, assim como vários outros homófonos de “me too”, juntamente com suas traduções em outras línguas. 

No mês passado, uma estagiária anônima postou no Weibo o relato de que foi sexualmente atacada por uma personalidade da TV estatal. 

A postagem foi rapidamente censurada, mas muitos outros relatos a salvaram, ao republicar uma foto do post.

Embora seja fácil para os algoritmos de computador procurarem texto, é mais difícil buscar e identificar o que é transmitido em imagens, especialmente se as pessoas que as repassam adicionarem manchas na imagem ou a distorcerem.

“O governo está permitindo que as pessoas liberem a pressão de maneira controlada”, disse Lotus Ruan, um pesquisador no Laboratório do Cidadão na Universidade de Toronto (Canadá). Mas “há um limite de até onde as discussões públicas podem ir.”

“São questões como o #MeToo que dificultam as coisas para as autoridades”, disse Charlie Smith, da GreatFire.org, grupo que monitora a censura. “Independentemente do assunto, quando um limite é cruzado, a censura automática entra em ação. Mas eles realmente correm o risco de irritar o público”, disse. 

No passado, as autoridades também recuaram depois de ver um aumento da raiva contra a censura --mas esse é um equilíbrio difícil, disse Smith. “Em certo momento, as autoridades vão calcular mal e um desses temas ganhará ímpeto.”

As plataformas de mídia também se arriscaram à censura para captar a atenção popular concentrada nas denúncias de assédio sexual. 

A start-up Meiri Renwu usou sua conta pública no WeChat para solicitar aos leitores narrativas abuso. “Em menos de 24 horas recebemos mais de 1.700 histórias de assédio sexual”, dizia o título. O artigo foi censurado pouco depois.

A principal plataforma de blogs da China, Douban, enviou uma notificação a alguns usuários dizendo “#MeToo: contem suas histórias, oponham-se ao assédio sexual”. Em um dia, #MeToo ficou na lista de assuntos mais lidos, mas foi rotulado de “atualmente sob investigação”, e posts relacionados não puderam mais ser pesquisados. 

“O custo de ser censurado não é alto demais, e, pelo contrário, publicar uma história de #MeToo, que é um assunto que importa muito às pessoas, é bom para reforçar os acessos e a marca da conta”, disse um profissional de mídia de uma grande plataforma de internet chinesa. 

Houve uma onda de fechamentos de contas no app de rede social chinês WeChat nos últimos meses, incluindo a conhecida conta Feminist Voices (vozes feministas).

Um escritório local da Administração do Ciberespaço da China disse que 720 mil contas foram fechadas por plataformas de internet no segundo trimestre do ano. 

Enquanto isso, grupos feministas têm organizado reuniões pelo WeChat. Em poucos dias, mais de 200 ativistas aderiram a um grupo criado após as acusações de assédio sexual contra professores, em janeiro. 

“Não esqueçam de tirar fotos de tela” é uma diretriz em um grupo feminista no WeChat. As participantes lembram umas às outras de “postar fotos de tela assim como links” —a censura acontece tão depressa que um artigo pode ser retirado durante uma conversa sobre ele.

“WeChat é uma faca de dois gumes”, disse o dissidente político Hu Jia, explicando que permite que as pessoas e os movimentos políticos se organizem, mas também que as autoridades as rastreiem. 
 

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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