Descrição de chapéu Venezuela Governo Trump

Em visita ao Rio, secretário de Trump elogia postura do Brasil diante da Venezuela

Após apreensão, comitiva de James Mattis encarou como 'boas-vindas' tiros em favela na segunda (13)

O secretário de Defesa dos EUA, James Mattis (de terno), durante sua visita ao Monumento aos Pracinhas, no aterro do Flamengo, no Rio
O secretário de Defesa dos EUA, James Mattis (de terno), durante visita ao Monumento aos Pracinhas, no aterro do Flamengo, no Rio - Sergio Moraes/Reuters
Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

Em visita ao Rio de Janeiro, o secretário de Defesa dos EUA, James Mattis, elogiou a atuação do Brasil diante da crise da Venezuela.

Segundo Mattis, Washington está ciente das dificuldades econômicas e políticas atravessadas pelo Brasil, mas elogia, por exemplo, a abertura das fronteiras para refugiados do país vizinho e o repúdio às ações do ditador Nicolás Maduro.

Mattis afirmou que a Venezuela tem um "regime opressivo" que lança mão de ações desestabilizantes na região.

"Vemos as ações desestabilizantes da Venezuela e elogiamos a atuação do Brasil", disse. 

Mattis deu palestra para cerca de 270 jovens oficiais das Forças Armadas na Escola Superior de Guerra, na Urca, zona sul do Rio.

A visita é parte dos compromissos do secretário pela América Latina, que incluiu reunião em Brasília com o ministro da Defesa, Joaquim Silva e Luna, e com o ministro de Relações Exteriores, Aloysio Nunes, na segunda-feira (13). A viagem prevê ainda visitas à Argentina e ao Chile.

O secretário já havia manifestado na reunião em Brasília que esperava que o Brasil liderasse os esforços para a solução da crise na Venezuela. Durante sua palestra no Rio, Mattis reforçou que os EUA veem o Brasil como importante líder da América Latina.

Mattis explicou que é responsável por assessorar o presidente americano, Donald Trump, sobre o uso da força nas relações internacionais, e que é chamado quando a diplomacia falha.

Segundo ele, seu dever é aumentar a letalidade dos soldados americanos a ponto de seus inimigos se virem compelidos a buscar sempre a diplomacia ao invés da força. "Meu real trabalho é tentar manter a paz por mais um dia, uma semana ou um mês", disse.

O secretário não deu grandes detalhes sobre o objetivo da visita ao Brasil. Segundo ele, a ideia seria fortalecer a "parceria estratégica" com o Brasil na região, além de promover trocas de conhecimento entre as escolas de guerra dos dois países.

Acredita-se que será discutida a possível compra da Embraer pela americana Boeing, além da possibilidade de uso pelos EUA da base de lançamento de mísseis da Força Aérea Brasileira em Alcântara, no Maranhão.

Devido a questões legais, Mattis evitou fazer comentários específicos sobre a possibilidade de compra da Embraer pela Boeing. Ele disse, porém, que vê com bons olhos sempre que os EUA fazem uso de tecnologias estrangeiras de defesa.

"Queremos fazer o máximo com nosso equipamento, mas não temos problema em utilizar tecnologias de outros países."

Ele foi breve ao falar sobre a chamada força militar espacial lançada pelos EUA na semana passada.

Segundo Mattis, a criação da força é uma espécie de resposta às ações de China e Rússia no espaço. Ele lembrou que Pequim abateu recentemente um satélite com um míssil disparado de seu território, algo que Moscou já demonstrou ser capaz de fazer. Há temor de que satélites americanos possam vir a ser abatidos no futuro.

"Nossa intenção não é militarizar o espaço, mas não poderíamos observar ociosos os movimentos de outros países nesse sentido. Não queremos lutar a última guerra, mas seria pouco prudente se não pudéssemos nos defender."

O secretário chegou ao Rio na noite de segunda-feira. Durante a madrugada de terça, ocorreu intensa troca de tiros na favela do Chapéu Mangueira, no Leme, mesmo bairro em que Mattis e sua comitiva estavam hospedados.

De acordo com uma funcionária do consulado americano no Rio, a comitiva percebeu o barulho dos tiros ainda de madrugada, o que gerou certa tensão.

A funcionária, que pediu anonimato, disse que o primeiro momento foi de apreensão, mas que os tiros foram encarados num segundo momento como uma espécie de "boas-vindas do Rio à comitiva".

Folha tentou confirmar a informação com um funcionário do serviço secreto americano que acompanhou a comitiva nesta manhã, mas ele não respondeu aos questionamentos da reportagem.

Mattis é general aposentado do corpo de Fuzileiros Navais da Marinha americana. Como oficial, foi chefe do Comando Central das Forças Armadas dos EUA, tendo sido responsável pelas operações militares no Oriente Médio entre 2010 e 2013. 

Para o secretário, a luta contra o terrorismo internacional mudou nos últimos anos. Os EUA têm ensinado aos jovens soldados sobre a necessidade de se manter padrões éticos no campo de batalha. Ele afirmou que não é mais possível combater o inimigo sem levar em conta a população civil que vive nas regiões de conflito, e que é preciso respeitar a vida de mulheres e crianças nos locais de conflitos.

"Nós ensinamos aos soldados que se para matar um terrorista o soldado tenha que atirar em um mercado cheio de gente inocente, que ele não faça e cace-os depois. A estratégia tem que ter um toque humano para que o jovem soldado saiba o que fazer numa situação como essa."

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