Posse de novo presidente no Paraguai mantém hegemonia do Partido Colorado

Mario Abdo Benítez assume nesta quarta-feira levando ao poder ala mais tradicional da sigla

Observado por Castiglioni, Abdo coloca a mão no ombro de Evo, enquanto este estende a mão para o colega paraguaio
O presidente eleito do Paraguai, Mario Abdo Benítez (esq.), e seu chanceler, Luis Castiglioni, recebem o líder boliviano, Evo Morales (dir.), em Assunção - Jorge Saenz/Associated Press
Sylvia Colombo
Assunção

O novo presidente do Paraguai, Mario Abdo Benítez, 46, toma posse nesta quarta-feira (15) recuperando o poder para a ala tradicional do Partido Colorado. 

Apesar de o atual presidente, Horacio Cartes, ter a mesma filiação, ambos pertencem a distintas alas da legenda. Os chamados cartistas são novos colorados, em geral afiliados depois ou junto a Cartes. 

Já os da ala abdista são minoritários, mas representam a ala tradicional deste partido, de linha conservadora. O pai de Marito, como é chamado o novo presidente, foi secretário pessoal do ditador Alfredo Stroessner, que governou de 1954 a 1989.

No Senado, por exemplo, composto de 45 postos, 17 são de colorados cartistas e 15 de colorados abdistas.

Enquanto Cartes quis abraçar uma renovação liberal do partido, Abdo prefere um pacote de medidas de linha-dura na segurança e conservadora em direitos individuais.

Se Cartes tem alianças fortes com a maior parte do empresariado do país, Abdo guarda vínculo mais intenso com os representantes do agronegócio e da ala mais tradicional do sistema político. 

Cartes afirmou recentemente que tem intenções de continuar na política, ainda que apenas liderando de fora seu bloco no Parlamento. 

Ele havia tentado renunciar para assumir um cargo de senador regular, para o qual foi eleito, mas o Congresso não aceitou essa renúncia, e ele será um senador vitalício, título entregue a ex-presidentes, mas sem função política.

A polarização que vive o Paraguai neste momento é mais a do próprio partido do poder, do que uma divisão entre polos distintos, ainda que o candidato derrotado nas eleições, Efraín Alegre, alegue que houve fraude e até agora não aceitou os resultados. Alegre disputou por uma aliança que reunia o partido de esquerda Frente Guasú, liberais e outras associações menores.

Sobre as relações internacionais, Abdo declarou ser pró-Mercosul, mas herdará alguns problemas de Cartes com países da região. O principal deles é com a Argentina. 

Pouco antes de deixar o governo, Cartes comprometeu parte importante do que o Paraguai receberia por meio da hidroelétrica binacional de Yacyretá para pagar uma dívida de US$ 4 bilhões (R$ 15,5 bilhões) que tem com o vizinho.

Outra questão é a concessão de obras de infraestrutura a empresas estrangeiras e nacionais, sem licitação, e que não foram terminadas. Abdo prometeu legalizar esses processos, mas isso pode causar desgaste com esses grupos.

Com o Brasil, o principal problema é o do contrabando nas fronteiras. Apesar de ter anunciado medidas e feito espetáculos midiáticos das apreensões, Cartes administra as principais empresas de tabaco que são responsáveis pela produção de cigarros contrabandeados em grandes quantidades, em primeiro lugar para o Brasil, mas também para a Colômbia e para o México.

Bogotá ainda espera uma resposta da Justiça paraguaia sobre os vínculos das empresas de Cartes com o bando criminoso dos Urabeños, que faz a ponte no tráfico de cigarros ilegais paraguaios que chegam via território colombiano até o México e ao Caribe.

Do ponto de vista do comércio, o Brasil se beneficiou do sistema de "maquilas" implementado por Cartes, com redução de impostos para a transferência de indústrias brasileiras para cá, como a de brinquedos Estrela

Hoje o Brasil é o país que mais possui "maquilas" em território paraguaio, cerca de 80%, contra 7% das argentinas e o resto, dividido entre outros países. Abdo ainda não anunciou planos sobre o destino das indústrias.

O Brasil também é o principal parceiro comercial do Paraguai. No ano passado, o intercâmbio foi de US$ 3,78 bilhões (R$ 14 bilhões). Em 2018, até agora, já alcançou US$ 2,2 bilhões (R$ 8,5 bilhões), aumentando em 5,7% com relação ao mesmo período de 2017. Os investimentos diretos do Brasil no Paraguai estão em torno dos US$ 700 milhões (R$ 2,7 bilhões).

O Paraguai continua sendo um atraente destino para os brasileiros atrás de turismo de compras. Aqui se encontram aparelhos de informática, computação e telefonia celular originais aos mesmos preços do que nos EUA ou em seus países de fabricação.

A frequência de brasileiros a essas lojas, espalhadas pelas ruas do centro é intensa. A Folha entrou em algumas delas, na rua Estrella, na noite de segunda-feira (13) e o idioma que mais ouviu foi o português.

Na maioria das lojas, que estão localizadas em galerias ou em minishoppings, há pelo menos uma vendedora falando português, a maioria brasileiras.


Principais momentos entre Brasil e Paraguai 

Guerra do Paraguai
Disputa pelo controle do rio da Prata opõe entre 1864 e 1870 a aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai às tropas do ditador paraguaio Francisco Solano López; vitória brasileira deixa centenas de milhares de mortos e destrói país vizinho

Itaipu
O ditador paraguaio Alfredo Stroessner começa a negociar com a ditadura militar brasileira a construção da usina binacional nos anos 1960, mas acordo só é assinado em 1973 e prevê que o Paraguai venda energia excedente ao Brasil até 2023; inauguração é em 1984

Mercosul
Em 26 de março de 1991, os presidentes do Brasil (Fernando Collor de Mello) e do Paraguai (Andrés Rodriguez Pedrotti), além de Argentina e Uruguai, assinam em Assunção o tratado que cria o Mercado Comum do Sul

Renegociação
Após dez meses de negociação, os presidentes Lula e Fernando Lugo acordam aumento no valor pago pelo Brasil pela energia excedente de Itaipu 

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