Descrição de chapéu Venezuela

Êxodo da Venezuela se distingue de outros da região por volume e rapidez

América Latina é marcada por diásporas; raramente tantos saíram de uma vez

Sylvia Colombo
Buenos Aires

Abandonada por cerca de 5% de sua população desde 2014, a Venezuela se tornou um caso singular entre as tantas diásporas que a América Latina conheceu por causa da rapidez e do volume de seu êxodo

Esses fluxos são difíceis de comparar entre si, pois há diferenças de duração e motivação —houve êxodos políticos, econômicos, por cauda da fome e da violência. Em alguns casos, mais de um desses elementos se combinaram.

O maior entrave, contudo, são as distintas metodologias —e, muitas vezes, a falta de estatísticas completas, dado que parte desses movimentos ocorreram fora dos radares oficiais, clandestinamente.
Ainda assim, com os números que conhecemos, é possível retratar a diáspora venezuelana como uma das mais graves já ocorridas na região.

Segundo o cientista político Juan Tokatlian, “o caso venezuelano é sui generis por estar ocorrendo em grande volume, num curto espaço de tempo e por ser provocado pela implosão econômica do país”. 
“Estão literalmente fugindo de uma situação social insuportável, da deterioração das condições de vida de maneira rápida e fulminante”, diz o acadêmico do Instituto Di Tella. 

Outro aspecto que ele aponta é a falta de preparo dos países da região para acolher os venezuelanos que chegam.

“Se comparamos com os êxodos da América Central ou do México rumo aos EUA devido a suas guerras civis ou por razões econômicas nos anos 1970, a situação era outra. Nos anos Jimmy Carter (1977-81), os EUA os acolheram de braços abertos, mas essa situação foi mudando. Também no caso dos que fugiram da repressão das ditaduras do Cone Sul, nos anos 1970, havia boa recepção, por vontade política e situação econômica mais próspera, por parte dos países europeus.”

Agora, os venezuelanos estão chegando a países da região “despreparados para receber esse volume de gente e num momento de grandes incertezas econômicas”.

Ainda que notável, a diáspora venezuelana —2,3 milhões de migrantes desde 2014— é uma de várias a marcar a história latino-americana. 

Entre elas se destaca a dos centro-americanos do Triângulo do Norte (Guatemala, El Salvador e Honduras) que seguiram rumo aos EUA em distintos momentos. Primeiro, nos anos 1970 e 1980, sob as consequências das guerras civis nas economias locais. Hoje, o enfrentamento entre as “maras” (gangues) criou uma nova onda de imigração para o norte entre as populações desses países. 

De 2007 a 2015, o contingente de migrantes da região instalado nos EUA aumentou em 25%, chegando a 4,6 milhões de pessoas expulsas de seus países pela violência, a extorsão, o medo do recrutamento de seus filhos por gangues e a deterioração econômica.

Apesar de não haver contabilidade oficial recente, o número de centro-americanos que cruzam a fronteira vem caindo ante o rigor da política imigratória de Donald Trump. 

Para o jornalista salvadorenho Óscar Martínez, autor de livros sobre o tema que lhe renderam o prêmio Moors Cabot de jornalismo, “o problema das ‘maras’ foi causado em parte pelos EUA, ao deportarem tantos centro-americanos de volta a seus países nos anos 1990, quando as economias ainda não tinham se recuperado da guerra civil”. 

O rumo norte também foi adotado pelos mexicanos, a partir dos anos 1960, por razões sobretudo econômicas.

De 1965 a 2015, mais de 16 milhões de mexicanos (de uma população hoje em 127 milhões) chegaram aos EUA. 

Desde a implementação do Nafta (Tratado de Livre Comércio da América do Norte) em 1994, a relativa melhora econômica do México fez o fluxo migratório baixar, a ponto de, em 2007, ser superada pelos retornos de mexicanos ao país. Hoje os mexicanos nos EUA são 11,7 milhões.

Vizinha à Venezuela, a Colômbia também viu seu longo histórico de violência alimentar as migrações da região. 

De 1964 —quando surgiram as guerrilhas Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e ELN (Exército de Libertação Nacional)— e passando pelo período sangrento dos cartéis de Medellín e de Cali —principalmente nos anos 1980— até 2013, saíram do país por causa da violência e da deterioração econômica 4,7 milhões de colombianos.

A particularidade colombiana é que a diáspora interna foi ainda maior: apesar da pacificação relativa do país e a melhoria de seus índices econômicos, ainda há 7,3 milhões de deslocados internamente, 1 de cada 7 colombianos e um recorde segundo a ONU.

Essa população tem origem pobre e abandonou locais de conflito, no interior, por causa dos embates entre guerrilhas, paramilitares e Exército.

Mesmo com o acordo de paz assinado com as Farc em 2016, a situação não se normalizou.
A redução recorde de homicídios em 2017, apesar de boa notícia, não significa que o país tenha recuperado a paz. Ainda há conflito entre as guerrilhas que restaram, as chamadas “bacrim” (facções criminosas), e as Forças Armadas. 

Homem de boné carrega um bebê distanciando-se de um ônibus amarelo
Venezuelano chega com seu bebê a acampamento criado por compatriotas em um terminal de ônibus em Bogotá - Raul Arboleda-11.set.18/AFP

Em visita recente à cidade fronteiriça de Cúcuta, onde chega grande parte dos venezuelanos que fogem a pé para a Colômbia, a reportagem ouviu relatos de habitantes mais velhos da cidade que se lembram de quando o fluxo principal da ponte Simón Bolívar era ao contrário, de colombianos fugindo para a Venezuela.

A diáspora cubana, iniciada após a Revolução de 1959, também levou muitos a deixarem a ilha. Estima-se que 1,2 milhão de cubanos teria rumado aos EUA (equivalente a 10% da população atual), impelidos sobretudo pela discordância política com o regime castrista ou pela perseguição por ele.

Por fim, ainda se está por ver o que ocorrerá com aqueles que estão fugindo da Nicarágua do ditador Daniel Ortega.

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