Descrição de chapéu Eleições 2018

No alvo de Bolsonaro, Itamaraty espera uma transição turbulenta

Na gestão Temer, dois tucanos, José Serra e Aloysio Nunes, comandaram a pasta

Igor Gielow
São Paulo

Único órgão de Estado citado nominalmente por Jair Bolsonaro em seu pronunciamento após a vitória no segundo turno no domingo (28), o Itamaraty se prepara para uma transição que promete criar polêmicas.

“Libertaremos o Brasil e o Itamaraty das relações internacionais com viés ideológico a que foram submetidos nos últimos anos”, disse Bolsonaro. Na mesma noite, o ministro anunciado da área econômica, Paulo Guedes, afirmou que o Mercosul não será prioridade do novo governo.

Tudo isso era conhecido. O agora presidente eleito criticou diversas vezes a promoção de políticas chamadas Sul-Sul, ou seja, com países fora do eixo EUA-União Europeia.

Ela foi bastante marcada na gestão de Celso Amorim no Itamaraty (2003-10), que trazia em seu DNA o não-alinhamento de Ernesto Geisel (1974-79) e identificação política com o PT do “Nosso Guia”, como ele chamava o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Nos anos Amorim, foi formada uma geração de diplomatas associada a esse ideário. Com a chegada de Dilma Rousseff (PT) ao poder, em 2011, foi ensaiada uma reaproximação com os países ricos.

Sob Michel Temer (MDB), a partir de 2016, o desengajamento das políticas petistas foi iniciado e dois políticos tucanos ocuparam a pasta, José Serra e o atual chanceler, Aloysio Nunes Ferreira.

As equipes construídas sob eles são consideradas por observadores como mais equilibradas do ponto de vista político e de experiência.

Bolsonaro promete que “recuperaremos o respeito internacional”. Naturalmente, diplomatas associados a gestões anteriores já são vistos com seus cargos ameaçados.

Entre eles estão estrelas como o embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral (que foi ministro de FHC), os ex-chanceleres de Dilma Mauro Vieira (ONU), Luiz Alberto Figueiredo (Portugal) e Antonio Patriota (Itália), além do ex-secretário-geral Sérgio Danese (Argentina).

Se a gestão atual já rejeitava o ativismo à esquerda dos anos Amorim, ainda não emergiram os nomes que possam encarnar o bolsonarismo nas relações exteriores.

Segundo um outro embaixador importante, há um certo constrangimento devido à péssima imagem externa projetada pela mídia internacional do novo presidente.

Isso, claro, irá mudar com a proximidade da posse, não menos porque o ministério é um órgão de Estado clássico.

Mas não há candidatos óbvios, por ora, para o cargo de ministro —que pode acabar sendo dado a uma pessoa de fora da hierarquia, como é hoje.

Muito da visão de política externa de Bolsonaro é moldada por nomes como o do general da reserva Augusto Heleno, que foi comandante no Haiti e que está indicado para o Ministério da Defesa.

Acadêmicos como Marcos Troyjo, da Universidade de Columbia e colunista da Folha, contribuíram com o programa do candidato na área.

Dentro do Itamaraty, um dos raros bolsonaristas explícitos é o diretor do Departamento de Estados Unidos e Canadá, Ernesto Araújo.

Mas ele nunca ocupou uma embaixada, algo que equivaleria a tornar comandante do Exército um general de patente inferior a quatro estrelas —ou seja, impensável para a praxe da corporação.

Ajustes de política externa à realidade política são naturais. O Mercosul, por exemplo, é avaliado no Itamaraty como um projeto político bem-sucedido, mas uma dor de cabeça econômica.

Assim, frases incendiárias como a de Paulo Guedes caem mal, mas refletem o pensamento de muitos na estrutura do ministério quando colocadas de forma ponderada.

O mesmo ocorre com a defendida aproximação maior dos EUA, como contraponto ao excessivo peso da China na balança comercial brasileira.

A relação com a Venezuela será delicada. Bolsonaro abomina a ditadura de Nicolás Maduro, mas o fato é que há milhares de refugiados daquele país entrando no Brasil, como parte de uma crise humanitária sem precedentes.

Assim, uma ruptura pura e simples não tem condições de ocorrer. Mesmo com outros regimes esquerdistas da região, como Cuba e Bolívia, o esfriamento das relações é o mais previsível.

Mais polêmica será a adesão à ideia de dar mais peso à relação com Israel, em detrimento à histórica neutralidade brasileira no conflito com os palestinos.

Não foi casualidade que Trump e o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, estejam entre os primeiros líderes a congratular o brasileiro.

Bolsonaro já disse que não reconhecia a Palestina como nação, o que o Brasil fez em dezembro de 2010, e que poderá mover a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém —assim como seu modelo, Donald Trump, fez.

A realidade aqui deverá falar mais alto, já que isso poderia trazer retaliação de países muçulmanos para onde 45% da exportação de frango e 40% da de carne bovina do Brasil se dirige, por exemplo.

Também são esperadas reações dos diplomatas mais jovens formados sob Amorim, muitos ocupando postos criados na era Lula em países que poderiam se alinhar ao Brasil em votações de organismos multilaterais.

Assim como a narrativa de que Dilma sofreu um golpe no impeachment ganhou amplificação nesse meio, as críticas à imagem de Bolsonaro também estão no radar.

Enquanto tudo isso se desenrola, subsecretários-gerais do Itamaraty já começaram a se reunir para discutir a transição de governo sob todos esses aspectos.

Os encontros começaram nesta segunda (29) e é esperada a interlocução com o time que tocará o processo pelo lado de Bolsonaro.

Erramos: o texto foi alterado

O Brasil reconheceu o Estado palestino em 2010, e não 2011. O texto foi corrigido.

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