Livro desafia previsões e vê cenário róseo depois do 'brexit'

Para autor, saída da União Europeia vai ajudar Reino Unido a retomar vocação à grandeza

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Paris

Desde que 52% dos eleitores britânicos decidiram em 2016 a favor do “brexit”, a separação do Reino Unido da União Europeia, tudo parece fora de prumo nas ilhas.

A libra se desvalorizou entre 15% e 20% diante do dólar e do euro, e o crescimento econômico foi murchando – 2,3% em 2015, possivelmente 1,3% neste ano.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, reúne-se com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, para discutir acordo do brexit
A primeira-ministra britânica, Theresa May, reúne-se com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, para discutir acordo do brexit - Yves Herman/REUTERS

Na política, um primeiro-ministro caiu, outra está na corda bamba, gabinetes se desmancharam ao sabor de atritos internos, e a agenda do governo se viu parasitada por dois anos e meio pela discussão infinitesimal dos termos do divórcio com a Europa.

Mas há quem veja na terra arrasada um campo fértil para a retomada da suposta vocação britânica à grandeza. Um desses otimistas é o jornalista belga Marc Roche, radicado do outro lado da Mancha há mais de 30 anos, que sistematizou seu entusiasmo nas mais de 200 páginas do recém-lançado ensaio “Le brexit va réussir” (o brexit vai dar certo, ed. Albin Michel).

Ex-correspondente londrino do francês Le Monde e até há pouco “remainer (nome dos que votaram pela permanência na UE) de coração”, ele diz ter se tornado “brexiter (partidário da saída) de razão”.

“Fiquei impressionado com a má-fé de franceses, belgas e europeus, para quem não haveria salvação fora da União Europeia”, afirma. “Isso não condizia com a constatação de que a economia do Reino Unido ia bem, ainda que um pouco menos do que antes, de que o desemprego estava num patamar baixíssimo e de que as finanças públicas se recuperavam”, diz.

Outro fator que o levou a mudar de lado foi o que ele enxerga como uma aproximação europeia do abismo.

Na raiz dessa vulnerabilidade estariam a ausência de reformas, o gigantismo do bloco (28 países, em breve 27) e a inércia associada a isso, além da dificuldade de chegar a soluções para o desafio migratório.
A argumentação detalhada, entretanto, não bastou para convencer (e converter) amigos e parentes. “Me chamaram de traidor, herege”, exagera.


O Reino Unido se tornou Estado-membro da então Comunidade Econômica Europeia em 1973, vendo no “pool” continental (àquela época muito mais restrito) um colete salva-vidas para uma fase doméstica de vacas magras que combinava greves, estatizações e baixa produtividade.

A parceria, note-se, nunca abalou a altivez dos ilhéus, vistos com frequência na Europa como arrogantes e reféns de uma nostalgia do grande império que sua pátria havia sido por séculos.

“Foi uma adesão a contragosto, pois os rebaixava à condição de reles país dentro de um grupo amplo de nações”, observa o repórter, hoje também cidadão britânico.


Ele rechaça a sugestão de que um ressentimento europeu em relação à “ingratidão” representada pela despedida do Reino Unido poderia ter contaminado as negociações bilaterais sobre o “brexit”, cujos termos finais serão submetidos neste domingo (25) ao crivo de líderes europeus, antes de passar sob a lupa dos Parlamentos britânico e Europeu.

“A perspectiva embutida nesse raciocínio precisa ser invertida. Lembremos que vieram daqui contribuições cruciais à União Europeia, como todo o sistema jurídico, a noção de mercado comum, os contornos da política externa e a ideia de ampliar o grupo a leste [em 2004, juntaram-se ao bloco dez países, dentre os quais Polônia, Hungria e República Tcheca].”

A separação ocorre em 29 de março de 2019, mas quase tudo fica como está ao menos até o fim de 2020 – é a chamada fase de transição.
 

Roche dedica um capítulo do livro à repercussão do “brexit” no mercado financeiro. A City londrina é um dos maiores entroncamentos mundiais de bancos de investimento e corretoras de valores.

A própria administração do distrito reconheceu que o divórcio anglo-europeu deve levar ao fechamento de 5.000 postos, na previsão conservadora. Em paralelo, várias instituições anunciaram a transferência (parcial ou total) de operações para outras praças.

Mas o autor acha que, livre das amarras regulatórias e da fiscalização da UE, a City vai prosperar mais.
“Algumas centenas ou milhares de postos de trabalho não representam nada para quem gera 1 milhão de empregos diretos e 3 milhões de indiretos. Você acha que um banqueiro do JP Morgan vai trocar Londres por Frankfurt, uma cidade provinciana cuja língua ele não fala, ou mesmo Paris, sem tradição ou massa crítica em serviços financeiros?”

Onde o “brexit” certamente terá efeito deletério, ao menos no curto prazo, é no enfrentamento da desigualdade social, pondera Roche. “Os britânicos são darwinistas, aceitaram a lei do mais forte. Os pobres daqui sempre foram maltratados e ficarão mais pobres no imediato pós-‘brexit’. Depois, porém, acho que muitos investimentos estrangeiros possibilitados por essa saída vão se direcionar a áreas desfavorecidas, que votaram maciçamente no ‘leave’ (sair).”

Marc Roche é mesmo um otimista.
 

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