Descrição de chapéu Governo Trump

Paralisação parcial do governo coroa semana de crises para Trump

Renúncia de secretário e retirada de tropas somam-se a fracassos na negociação do orçamento

Trump é aplaudido por republicanos ao afirmar que não iria responder a perguntas sobre a possível paralisação do governo - Joshua Roberts/Reuters
Danielle Brant
Nova York

Sem alcançar um acordo no Congresso, a administração Donald Trump enfrenta, a partir deste sábado (22), sua terceira paralisação parcial, que fechará um quarto do governo federal, colocará 380 mil empregados em férias coletivas e fará outros 420 mil trabalharem sem receber.

O Congresso tinha até 0h deste sábado (3h em Brasília) para passar leis de gastos para sete agências ou aprovar uma medida provisória de gastos que poderia adiar o apagão.

Senadores republicanos e democratas se reuniram desde o meio-dia desta sexta (21), mas não chegaram nem sequer a iniciar a votação da lei. Por volta das 20h locais (23h em Brasília), o Senado encerrou a sessão sem votar. Os senadores devem se reunir novamente neste sábado.

A paralisação coroa uma semana marcada por fortes turbulências na Casa Branca. O presidente enfrentou a saída do secretário de Defesa, que renunciou por discordar da retirada de soldados da Síria e potencialmente do Afeganistão.

Também viu ex-aliados sinalizarem cooperação com a investigação sobre interferência russa nas eleições de 2016.

No front econômico, as notícias também não foram boas. A última leitura do PIB (Produto Interno Bruto) mostrou que os EUA cresceram 3,4% no terceiro trimestre, ante 4,2% nos três meses anteriores. E o Banco Central americano, contrariando desejo de Trump, subiu os juros pela quarta vez no ano, mergulhando o mercado acionário do país em caos.

O embate que levou os EUA à paralisação parcial do governo teve como estopim o financiamento ao muro que o republicano quer construir na fronteira com o México. Ao longo da semana, Trump sinalizou que não respaldaria nenhuma lei para evitar o apagão parcial do governo que não contemplasse recursos para a obra. Na quarta (19), o Senado passou uma proposta que não incluía o financiamento. O americano disse que não assinaria a medida.

Na quinta (20), a Câmara dos Deputados aprovou uma outra lei que previa US$ 5 bilhões (R$ 19,2 bilhões) para o muro. No Senado, porém, a base de Trump não tem votos suficientes para aprová-la.

Ao longo desta sexta, havia pouca esperança de que a proposta fosse votada. E essa esperança foi pelo ralo depois que o senador John Cornyn, assistente do líder da maioria republicana no Senado, afirmou que não haveria votação na noite desta sexta.

Pouco antes de o prazo expirar, o diretor de Orçamento da Casa Branca, Mick Mulvaney –que será chefe de gabinete interino de Trump a partir de 2019--, enviou memorando no qual instruía as agências a executar os planos para uma paralisação ordenada.

Ele disse esperar que “esse lapso nas dotações” seja por um curto período.

O apagão atinge 25% do governo —o restante já está financiado até setembro de 2019. Departamentos importantes seriam afetados, como o de Segurança Doméstica, o de Justiça, o de Interior, o de Estado e o de Habitação e Desenvolvimento Urbano.

A possibilidade de parte do governo ficar sem financiamento não sensibilizou o republicano. Nesta sexta, Trump tentou jogar a culpa sobre os democratas.

“Agora depende dos democratas se nós teremos ou não uma paralisação nesta noite”, afirmou, na Casa Branca, antes de encontrar senadores republicanos que reiteraram que o governo não tinha votos para sustentar a posição do presidente. “Eu espero que não, mas nós estamos totalmente preparados para uma paralisação muito longa.”

Menos de três horas antes de o prazo terminar, ele escreveu em uma rede social: “Nosso grande país precisa ter segurança na fronteira.”

Não é o primeiro apagão do governo Trump, que já enfrentou impasses semelhantes em janeiro e fevereiro deste ano.

A queda de braço dá um vislumbre do que deve ser a disputa de poder a partir de 3 de janeiro, quando os democratas assumem o controle da Câmara dos Deputados —os republicanos mantiveram o comando do Senado nas eleições legislativas de novembro.

Jim Mattis, secretário de Defesa, durante cerimônia no Pentágono, em Washington - Susan Walsh - 21.set.2018/Associated Press

A semana foi recheada de notícias negativas para o presidente. Na quinta-feira, o secretário de Defesa, Jim Mattis, anunciou que deixará o cargo no final de fevereiro por considerar que suas visões não estão “alinhadas” com as de Trump. O anúncio ocorreu um dia depois de os EUA anunciarem a retirada dos cerca de 2.000 soldados americanos da Síria, em decisão que teria contado com a objeção de Mattis e de outras autoridades de segurança.

O presidente americano também estaria planejando a saída de 7.000 soldados no Afeganistão nos próximos meses, metade do efetivo americano no país.

Mattis era visto como uma figura estável em meio a uma Casa Branca, muitas vezes, caótica. Especialistas se preocupam com o nome que será escolhido para substitui-lo, considerando que alguns candidatos criticaram, nesta semana, a decisão do presidente de retirar as tropas da Síria.

A paralisação parcial do governo também não deve afastar uma das principais dores de cabeça de Trump: a investigação do procurador especial Robert Mueller sobre se houve ou não conspiração entre a campanha do republicano com a Rússia para interferir nas eleições de 2016.

O escritório de Mueller é financiado com uma dotação permanente e indefinida, e não será afetado pelo eventual apagão no governo, segundo um porta-voz.

No momento, Mueller conta com a cooperação de alguns ex-aliados de Trump, entre eles o ex-advogado do presidente, Michael Cohen, e o ex-assessor de Segurança Nacional Michael Flynn.

O primeiro diz ter feito pagamentos para silenciar duas mulheres que alegam ter tido um caso com o presidente, em violação a leis de financiamento de campanha eleitoral.

Michael Flynn deixa corte em Washington após adiamento de sentença - Saul Loeb/AFP

Já Flynn teria mentido ao FBI (polícia federal americana) e prestado falso testemunho. Ele foi forçado a renunciar ao cargo em fevereiro de 2017 —24 dias após assumir—, acusado pela Casa Branca de enganar autoridades, incluindo o vice-presidente Mike Pence, sobre o contato que tinha com o embaixador russo em Washington, Sergei Kislyak.

Pela colaboração, a procuradoria havia pedido que ele não passasse tempo na prisão. Nesta semana, porém, um juiz praticamente enterrou essa possibilidade, em audiência na qual acusou Flynn de vender os EUA para estrangeiros.

Em outra derrota para o governo, a Suprema Corte bloqueou nesta sexta-feira uma ordem da Casa Branca que proibia que imigrantes que entrassem ilegalmente no país pela fronteira com o México requisitassem asilo.


Crise enfrentadas por Trump nesta semana

A retirada das tropas da Síria...
Trump anunciou na quarta (19) a retirada dos 2.000 soldados americanos na Síria. A medida enfrenta oposição no Pentágono, que teme o fortalecimento do Estado Islâmico no país árabe, além de ver como uma traição aos aliados curdos que combateram ao lado dos EUA

...e do Afeganistão
Trump planeja ainda retirar cerca de 7.000 soldados americanos que estão no Afeganistão nos próximos meses. O número equivale à metade dos militares americanos no país, e seria o primeiro passo para encerrar o envolvimento dos Estados Unidos em um conflito que já dura 17 anos

A renúncia de Mattis
O secretário de Defesa americano, Jim Mattis, apresentou sua renúncia na quinta (20), afirmando que suas visões não estão alinhadas com as de Trump. Ele era tido como uma das poucas vozes cautelosas na Casa Branca

A paralisação do governo
Trump admitiu nesta sexta-feira (21) que é pouco provável que o Senado americano aprove a lei orçamentária que prevê US$ 5 bilhões em financiamento para o muro que ele quer construir na fronteira com o México. A medida passou pela Câmara na quinta. O presidente ameaça não assinar o orçamento e causar uma paralisação de parte do governo a partir da 0h deste sábado (22)

A deportação dos imigrantes
O governo Trump anunciou na quinta que os imigrantes que entrarem no país ilegalmente em busca de asilo serão enviados ao México, onde deverão aguardar enquanto seu caso é processado. A Suprema Corte, porém, manteve o veto que impede a medida de ser aplicada, em uma derrota para o governo

O aumento dos juros
Trump até tentou pressionar o Fed (Banco Central dos EUA) contra o aumento das taxas de juros, mas a entidade elevou a taxa para o intervalo de 2,25% a 2,5% ao ano e já alertou que dois novos aumentos virão em 2019
 
O fim da Fundação Trump
O republicano concordou em dissolver sua fundação de caridade em meio a um processo que afirma que a organização era usada para benefício político e pessoal do presidente, segundo a Procuradoria de Nova York na terça-feira (18); ele nega irregularidades
 
O caso Flynn
O juiz Emmet Sullivan disse na audiência de sentença de Michael Flynn na terça que o ex-assessor de Segurança Nacional de Trump “vendeu seu país” ao trabalhar para favorecer interesses do governo turco nos EUA; o anúncio da sentença foi adiado, mas a tendência é Flynn ser condenado
 

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