Em país rico, imigração eleva salário de menos qualificados, aponta estudo

Pesquisadores afirmam que governos erram ao culpar imigrantes por problemas de trabalhadores

Imigrantes viajam em caminhão por estrada de Tierra Blanca, no México, rumo aos EUA - Alexandre Meneghini - 27.jan.2019/Reuters
Ana Estela de Sousa Pinto
São Paulo

Governos de países desenvolvidos erram quando culpam a imigração por problemas no mercado de trabalho, afirma estudo feito pelo Banco Mundial e pela Universidade de Oxford a partir de novas bases de dados.

Segundo o estudo, divulgado neste mês pelo Banco Mundial, o efeito da imigração sobre os salários é menos significativo que o provocado por mudanças na idade e na formação dos trabalhadores (veja quadro).

Além de mais brando, o impacto da imigração foi o de elevar o salário dos menos qualificados e reduzir o dos mais escolarizados na OCDE (grupo de 36 países considerados mais desenvolvidos).

A conclusão aponta para uma inadequação do atual discurso político, afirma o estudo: “O envelhecimento tem sido objeto de preocupação, mas de nenhuma ação concreta, enquanto a falsa percepção sobre a imigração provoca o fechamento de fronteiras”.

Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha são alguns dos países que endureceram recentemente as regras para trabalhadores de outros países.

A alta nas parcelas tanto de idosos quanto de imigrantes tem se acelerado nas economias mais ricas. Os maiores de 65 anos já superam 25% da população ativa em países como Japão, Alemanha, Itália e Grécia.

Nos países mais desenvolvidos, o estoque de imigrantes foi de 8,7% da população em 2000 para 10,6% em 2010, segundo a ONU, e chegou a 11,6% em 2017 —são 146 milhões de imigrantes.

Os pesquisadores do Banco Mundial e de Oxford separaram os trabalhadores em oito categorias, para levantar a variação de seus estoques nos países: nativos e imigrantes foram divididos em mais novos (de 25 a 44 anos) e mais velhos (de 45 a 64), e cada um desses quatro grupos foi dividido entre mais qualificados (nível superior) e menos qualificados.

Para calcular o impacto de cada alteração, partiram de duas premissas: a de que mudanças na oferta e demanda influenciam os salários e a de que a substituição entre trabalhadores é imperfeita (o deslocamento de um nativo por um imigrante, ou de um mais novo por um mais velho, por exemplo, sofre restrições).

Embora concluam que as principais diferenças no salário venham de mudanças na idade e na estrutura de qualificação, o grau de imigração potencializa ou reduz esse impacto.

No grupo formado por Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, Canadá e Suíça, onde a política favorece a entrada de mais qualificados, a imigração acentuou o efeito do envelhecimento. 

Na Grã-Bretanha, por exemplo, o envelhecimento elevou o salário dos menos escolarizados em 4,7% e a imigração, em 4,9%.

Na maioria da Europa Ocidental, nos Estados Unidos e no Japão, a imigração tem impacto marginal. Nos EUA, o país com maior estoque de imigrantes de mundo, o envelhecimento aumentou o salário dos menos qualificados em 2,5%, e a imigração, em 1%.

Já nos países em que houve saída significativa de trabalhadores, como Irlanda e Leste Europeu, o efeito do envelhecimento foi mitigado pela emigração.

Na Polônia, a alta de trabalhadores mais velhos elevou o vencimento dos menos qualificados em 9%, e a imigração, em 0,2%.

A diferença de grau geralmente se explica pelas instituições locais (mecanismos de proteção, qualificação de mão de obra, regulamentação do mercado de trabalho), diz o pesquisador do Ipea especialista em imigração Leonardo Monasterio. 

Os pesquisadores do Banco Mundial e de Oxford reconhecem a importância tanto das instituições quanto de mudanças tecnológicas, mas optaram por usar apenas mudanças demográficas em seus cálculos, sem levar em conta esses fenômenos.

Como nos países estudados é forte a entrada de mais qualificados, o trabalho não aborda o impacto do imigrante de pouca qualificação. “Estudos recentes indicam que, nesse caso, o efeito é pequeno e de curto prazo”, diz Monasterio.

Se um jardineiro mexicano se muda para os EUA, por exemplo, pode deslocar um americano no início. Mas o fenômeno acaba levando o trabalhador nativo a se qualificar para obter uma nova função. 

“O ex-jardineiro americano vira o vendedor de equipamentos para o mexicano.”

Esse incentivo indireto à qualificação é um dos motivos pelos quais a imigração aumenta a produtividade no país que a recebe, independentemente de o trabalhador imigrante ser pouco instruído.

Outro exemplo de “transbordamento de produtividade” ocorre quando, por exemplo, um barbeiro imigrante mais hábil economiza tempo de um banqueiro, ou um pedreiro mais produtivo otimiza o trabalho de um engenheiro.

Ou, no sentido inverso, quando um pesquisador desenvolve nova tecnologia que beneficia todo o entorno.

Mais importante que discutir se a imigração tem impacto positivo ou negativo é debater sobre como a política pode levar a crescimento econômico para todos, afirma estudo do Center for Global Development, think-tank independente sediado nos EUA.

“São as escolhas políticas que potencializam os bônus da imigração ou reforçam prejuízos tanto para os nativos quando para os imigrantes”, escreve o economista americano Michael Andrew Clemens, em trabalho no qual sistematiza diferentes políticas.

O debate é importante porque a tendência do fluxo de pessoas é crescente. A população em idade ativa nos países mais pobres deve praticamente dobrar até 2040, segundo o centro de estudos, o que significa mais 330 milhões de trabalhadores em 20 anos. Nos países de renda média, esse crescimento deve ser de 625 milhões.

“Com políticas produtivas, um aumento da imigração pode gerar ganhos triplos: mais oportunidades e benefícios tanto para os países de destino quanto para os de origem, além dos próprios migrantes”, escreve Clemens.

Entre os ganhos, ele elenca a remessa de dinheiro para países mais pobres, a transferência de conhecimento e tecnologia e o fato de que “imigrantes costumam ser empreendedores, investidores e inovadores, o que multiplica seu impacto econômico”.

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