Descrição de chapéu Venezuela

Sanções dos EUA devem piorar crise, mas podem tornar Maduro vítima

Para analistas, regime depende da receita da exportação de petróleo, bloqueada por Washington

Posto de gasolina da estatal PDVSA em Caracas - Luis Robayo/AFP
Danielle Brant
Nova York

As sanções recém-impostas pelos Estados Unidos à petrolífera PDVSA comprometem uma das principais fontes de receita do regime de Nicolás Maduro e devem agravar a crise do país, mas podem ser usadas pelo ditador para responsabilizar Washington pela situação venezuelana, na avaliação de analistas.

Na segunda (28), o governo americano determinou o bloqueio de US$ 7 bilhões (R$ 26 bilhões) em ativos da PDVSA e estabeleceu que quaisquer pagamentos por petróleo pela estatal venezuelana aos EUA devem ir para uma conta bancária inacessível a Maduro.

O dinheiro só seria liberado quando o opositor Juan Guaidó, líder da Assembleia Nacional venezuelana que se declarou presidente encarregado, assumisse o poder ou após a realização de novas eleições.

O primeiro impacto direto da medida será sobre a receita obtida pelo regime para se financiar, avalia, em relatório, a casa de análises Capital Economics. Os EUA respondem por cerca de 50% da receita total da Venezuela com a exportação de petróleo, estima.

A conta exclui o petróleo venezuelano embarcado para a China (que serve para pagar empréstimos de Pequim) e para o Caribe (em troca de apoio político em organismos como ONU e OEA), que não incluem troca de dinheiro.

Sem essa fonte de receita, avalia a Capital Economics, a crise econômica vai se aprofundar. “O US$ 1 bilhão por mês de impacto em receita de exportação equivale à conta de importação mensal total da Venezuela”, diz o texto. 

“Com isso, se tudo continuar igual, a perda das exportações vai exigir uma contração ainda maior das importações. E isso vai aumentar a escassez de produtos e a hiperinflação.”

Mesmo que a Venezuela tente diversificar seus parceiros comerciais, embarcando mais petróleo para outros países, ainda encontraria dificuldade em substituir integralmente as perdas com a receita das exportações para os EUA.

“Com muitos países não mais reconhecendo Maduro como presidente, é improvável que eles minem os esforços das sanções dos EUA aceitando petróleo venezuelano”, complementa o texto, que sugere que a Índia pode ser uma exceção.

No entanto, para compensar a perda com a importação americana, a Venezuela teria que triplicar a venda de petróleo para a Índia, de US$ 5 bilhões a US$ 15 bilhões ao ano  —e a substituição é algo que pode demorar. Para sobreviver nesse meio tempo e evitar um colapso, Maduro teria que recorrer a empréstimos da China e da Rússia.

Para os EUA, o impacto maior seria sobre as refinarias americanas, que compram petróleo venezuelano. O governo de Donald Trump entrou em contato com elas para estimar o efeito potencial das sanções sobre suas contas, e considera recorrer à reserva de emergência. 

Na avaliação da Capital Economics, as sanções devem levar a uma mudança política na Venezuela. Mas outros especialistas não têm essa certeza.

Silvia Pedraza, professora de sociologia da Universidade de Michigan, é uma das que duvida da eficácia das sanções contra Maduro.

“Em Cuba, nunca funcionou. O país só empobreceu e as pessoas se ajustaram a isso ou tentaram sair do país”, diz. “Os EUA se comportaram dessa maneira e ajudaram a consolidar o poder cubano.” Para funcionar, as sanções deveriam ser curtas e incisivas. “Caso contrário, você só piora a situação.”

E uma intervenção militar também poderia ter o efeito colateral adverso de fortalecer Maduro, complementa. Trump já disse mais de uma vez que “todas as opções estão sobre a mesa” no caso da Venezuela, o que alguns especialistas entenderam como um indicativo de ação militar.

“Se Trump tentar fazer isso unilateralmente, em vez de ajudar Maduro a sair, pode fortalecê-lo. Maduro recentemente advertiu os EUA, e ele espera uma intervenção para poder culpar os EUA por todos os problemas. Então os EUA não deveriam fazer isso”, afirma Pedraza.

É a mesma leitura de David Smilde, professor de relações humanas na Universidade Tulane. “Maduro vai usar isso por muito tempo, a ideia de que os EUA estão por trás da crise venezuelana.”

As sanções, nesse sentido, podem ajudar a atrair solidariedade para o regime venezuelano. “A China poderia vir com um resgate para a Venezuela. Ao tentar minar Maduro, os Estados Unidos podem consolidar a popularidade de 20% dele e gerar solidariedade em outros países.”

O ditador venezuelano, por sua vez, aproveitaria os holofotes. “Viraria uma batalha entre Venezuela e EUA, em vez de entre Maduro e a população venezuelana”, afirma. Smilde considera uma eventual intervenção militar na Venezuela “um grande erro”.

“É preocupante e recuaria a uma época diferente na América Latina”, completa, em referência às intervenções militares na região apoiadas por Washington no passado. 

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