Após 20 anos, diretor de Columbine ainda recita nomes das vítimas do massacre

'Essas pessoas me acompanham desde aquele dia', diz Frank DeAngelis, hoje aposentado

Keith Coffman
Arvada (Colorado)

Todos os dias pela manhã nas duas últimas décadas, Frank DeAngelis vem recitando em voz alta os nomes das 13 pessoas assassinadas na escola secundária Columbine, da qual era diretor na época do massacre de 1999 que assinalou o início da era moderna das chacinas em escolas.

“Todo dia quando acordo pela manhã, a primeira coisa que faço é recitar os nomes. Depois vou à minha sala de trabalho e rezo”, diz DeAngelis, 64. “Essas pessoas me acompanham desde aquele dia e vão continuar a me acompanhar pelo resto de minha vida na comunidade de Columbine.”

frank sentado em poltrona em frente a microfone
Frank DeAngelis, diretor da escola Columbine à época do massacre de 1999, em conferência - Rick Wilking/Reuters

No dia 20 de abril de 1999, dois alunos fortemente armados invadiram o colégio Columbine, na zona suburbana de Denver, matando 12 colegas de classe e um professor e então se suicidando. O massacre foi, na época, a chacina mais mortal em uma escola na história dos EUA.

Este sábado (20) será o vigésimo aniversário da tragédia de Columbine, e DeAngelis, que se aposentou como diretor cinco anos atrás, vai discursar em alguns dos eventos solenes marcados para honrar as vítimas cujas vidas foram ceifadas.

Para ele, os detalhes daquele dia nunca serão esquecidos. Quando ele estava conduzindo 20 alunos para um lugar de segurança depois de os disparos começarem, DeAngelis deu de cara com um dos atiradores, que disparou contra ele mas errou o alvo.

“Vi um rapaz armado vindo na minha direção”, ele contou. “Tudo parecia estar ocorrendo em câmera lenta. Mas me recordo vividamente do som dos tiros quebrando as vidraças atrás de mim.”

Nos dias e semanas que se seguiram ao massacre, DeAngelis tornou-se o rosto da escola, dando incontáveis entrevistas em que relatou a chacina pavorosa e todo o sofrimento que desencadeou.

Mas alguns dos momentos mais difíceis ainda estavam por vir. Ele liderou alunos, professores e pais durante os dias sombrios depois da chacina e nos acontecimentos dilacerantes de meses e anos mais tarde.

Seis meses após o massacre, a mãe de uma aluna que ficou paralítica depois de ser atingida por disparos cometeu suicídio publicamente. Pouco mais de um ano após a tragédia, um estudante de Columbine que viu o professor Dave Sanders sendo morto na saraivada inicial de tiros na escola se enforcou.

“Eu entrei para um clube do qual ninguém quer ser sócio”, disse DeAngelis. “E entendi que minha vida havia mudado para sempre.”

Ele procurou ajuda profissional para superar seus sentimentos de dor, tristeza e culpa e recorreu a sua fé católica para encontrar força para compartilhar suas experiências com outras escolas e comunidades que passaram por massacres, desde Virginia Tech e Sandy Hook até a Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, Flórida, palco de assassinatos em 2018.

DeAngelis, que foi professor e instrutor de atletismo antes de tornar-se diretor e aposentar-se após 35 anos de trabalho na escola Columbine, publicou recentemente um livro intitulado “They Call Me 'Mr. De': The Story of Columbine’s Heart, Resilience, and Recovery” (me chamam de Mr. De: a história do coração, da resiliência e da recuperação de Columbine). Toda a receita das vendas do livro é encaminhada para organizações beneficentes.

O livro relata sua jornada por terapia e o processo de se recuperar do trauma. Ele espera que isso possa ajudar em alguma medida pessoas que passaram por tragédias semelhantes.

“Não apenas em comunidades como estas, mas pessoas que passaram por tempos de dificuldade em suas vidas”, ele explicou. “Columbine virou um símbolo de esperança.”

Tradução de Clara Allain

Reuters
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