Aclamada em lançamento de livro, Cristina Kirchner prega 'pacto entre argentinos'

Pesquisas apontam vantagem de senadora sobre atual presidente nas eleições de outubro

Sylvia Colombo
Buenos Aires

A chuva que castigou Buenos Aires durante toda a tarde não impediu que os militantes kirchneristas lotassem a Feira do Livro e a via em frente ao pavilhão no qual ocorre o evento, a avenida Sarmiento.

Com capas de chuva, apoiadores de Cristina Kirchner iam chegando, carregando bandeiras e lenços com sua imagem e frases como "vamos voltar" e "ela nunca mentiu para nós".

A senadora e ex-presidente Cristina Kirchner acena para apoiadores durante apresentação de seu livro, em Buenos Aires - Emiliano Lasalvia/AFP

Às 20h, pontualmente, a ex-presidente subiu ao palco da sala Jorge Luis Borges, a maior da feira, para apresentar "Sinceramente" (Penguin Random House), livro de memórias e sugestões políticas para a Argentina do futuro.

No auditório lotado, em que cabem mil pessoas, podia-se ver, entre elas, presidentes de associações de direitos humanos, como as Madres e as Avós da Praça de Maio, ex-ministros, políticos de esquerda, ex-juízes da Corte Suprema, atores, cineastas, escritores e cartunistas.

Para as 4.000 pessoas que viram a apresentação de dentro da feira, mas fora da sala, foi colocado um telão na praça central do evento. Outro telão também foi instalado na própria avenida Sarmiento, fechada desde o início do dia para receber a apresentação.

Antes de Cristina falar, o editor do livro, Juan Ignacio Boido, disse que a obra tinha vendido 20 mil cópias na primeira hora após chegar às livrarias, 60 mil no primeiro dia e que agora as vendas já atingiam 300 mil cópias.

Muito aplaudida e sob cantos de guerra do kirchnerismo cantados por apoiadores, Cristina esperou que a multidão se calasse para começar a falar.

Disse que não queria atacar nem criticar ninguém, mas que o país vive "um momento delicado em que é necessário um pacto entre todos os argentinos".

Apesar de não apresentar oficialmente sua candidatura, ela falou como se sua postulação para as eleições de outubro de 2019 já estivesse certa. O prazo para a inscrição final é 22 de junho. 

Nas pesquisas, Cristina leva vantagem em relação ao atual presidente, Mauricio Macri, de 5 a 9 pontos percentuais —mesmo investigada em sete casos de corrupção.​

Curiosamente, sugeriu que a Argentina seguisse o exemplo do norte-americano Donald Trump, devido a sua política protecionista.

Afirmou que era urgente "recuperar a força do mercado interno e proteger o trabalho", e sua fórmula para isso era uma frente de diálogo com os empresários do país "para a criação de empregos reais, não precarizados".

A fala de Cristina lembrou os pronunciamentos transmitidos em cadeia nacional, muito comuns no período em que foi presidente (2007-2015), combinando autorreferências com boa retórica. Mencionou seu marido, Néstor, morto em 2010, várias vezes.

Foi aplaudida e voltou a ouvir o cântico: "Néstor não morreu, Néstor vive no povo".

Em um dos momentos típicos de sua falta de modéstia, disse: "Esse livro não é a Bíblia, o Corão ou o Talmud, mas seguramente aportará elementos para o debate político num momento tão delicado da nossa história". 

A ex-presidente comparou a gravidade da situação atual com a "noite da ditadura", os tempos da hiperinflação dos anos 1980 e a crise político-econômica de 2001.

Ao final, defendeu-se do rótulo de "populista", dizendo que "muitos não entendem que a Argentina é um país com uma base social muito desigual". "Dizem que pensar nestes que estão em dificuldades seria populismo. Eu não me importo, não me soa pejorativo."

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