Descrição de chapéu Venezuela

Governo 'desconvida' embaixadora de Guaidó para evitar tensão com Maduro

Decisão de não credenciar María Tereza Belandria responde a pressão da ala militar

Ricardo Della Coletta Gustavo Uribe
Brasília

Pressionado pela ala militar do governo, o Itamaraty desconvidou a representante no Brasil do autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, para a cerimônia de entrega de cartas credenciais ao presidente Jair Bolsonaro na próxima semana. 

Na terça-feira (4/6), Bolsonaro deve recepcionar no Palácio do Planalto os novos embaixadores de sete países: México, Colômbia, Paraguai, Arábia Saudita, Peru, Guiné e Indonésia. 

María Teresa Belandria, indicada pelo opositor Juan Guaidó para representar a Venezuela no Brasil - Ueslei Marcelino - 11.fev/Reuters

Segundo uma circular diplomática à qual a Folha teve acesso, María Teresa Belandria, indicada em fevereiro para atuar como embaixadora de Guaidó no Brasil, também havia sido convidada a entregar suas credenciais a Bolsonaro.

O Brasil, assim como outros 50 países, reconhece Guaidó como presidente interino da Venezuela.

No entanto, ela acabou excluída do evento por pressão da ala militar do governo. 

Na tradição diplomática, a apresentação das credenciais ao chefe de Estado marca oficialmente o início da missão de um embaixador como representante do seu país em uma nação estrangeira. 

Os militares avaliaram que a participação na cerimônia de uma liderança da oposição ao regime chavista seria uma "provocação desnecessária" ao ditador Nicolás Maduro, justamente no momento em que os generais conseguiram reduzir a tensão entre os dois países.

A fronteira entre as cidades de Pacaraima (em Roraima) e Santa Elena de Uairén (na Venezuela), que ficou fechada por quase três meses, foi reaberta no início de maio. 

O governo também retomou nas últimas semanas as negociações com emissários de Maduro para que a Venezuela volte a vender energia elétrica para Roraima, o único estado brasileiro que depende da importação de eletricidade. 

Além das questões práticas, há um cálculo político por trás do veto a Belandria. 

Os militares avaliam que o levante liderado por Guaidó em 30 de abril não foi bem-sucedido e enfraqueceu sua posição

Embora os conselheiros militares de Bolsonaro desejem uma mudança de governo na Venezuela, eles consideram que, ao menos no curto prazo, o mais provável é que Maduro continue no poder. 

Sendo assim, dizem, o país precisa preservar alguma interlocução com os chavistas. 

Maduro mantém um representante em Brasília, o diplomata Freddy Efrain.

Nesse cenário, igualar Belandria aos demais embaixadores acreditados poderia prejudicar o esforço feito pelo Palácio do Planalto nos últimos meses para reduzir a tensão com o país vizinho.

Segundo relatos feitos à Folha, a área de inteligência do Planalto avaliou que havia o risco de que a formalização do reconhecimento diplomático da indicada de Guaidó levasse a um novo fechamento da fronteira com a Venezuela.

Nas palavras de um assessor presidencial, não cabe fazer esse tipo de sinalização neste momento, ainda mais diante do enfraquecimento do líder opositor.

A opinião sobre a posição delicada em que se encontra Guaidó foi vocalizada, em 30 de abril, pelo ministro do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), general Augusto Heleno. 

À época, Heleno disse que o apoio das Forças Armadas venezuelanas ao presidente autoproclamado não alcança “os altos escalões” e que “não há uma expectativa de solução no curto prazo." 

Procurado, o Ministério das Relações Exteriores não comentou o desconvite a Belandria.

A representante de Guaidó, por sua vez, disse que o tema é “protocolar”. 

“Será agendada uma nova oportunidade para a Venezuela. O apoio do Brasil continua sendo sólido, forte e decidido. É um tema meramente protocolar”, disse Belandria. 

A ação dos militares para barrar a representante de Guaidó deixa novamente em evidência a disputa entre os generais do governo Bolsonaro e o chanceler Ernesto Araújo.

Os militares desaprovaram, desde o início do mandato, a forma como Araújo conduziu a resposta do Brasil à crise na Venezuela.

Para eles, o ministro alinhou o Brasil a uma estratégia, liderada pelos Estados Unidos, excessivamente agressiva contra Maduro, que goste o Brasil ou não ainda controla o território venezuelano. 

Desde o fim de fevereiro os militares atuam para limitar a influência de Araújo nas principais decisões que envolvem o país vizinho.

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