Descrição de chapéu The New York Times

Procurador que investigou Trump teme que suas conclusões tenham sido distorcidas

Presidente dos EUA foi investigado sob acusação de ter recebido ajuda da Rússia nas eleições de 2016

Washington | The New York Times

O procurador-especial Robert Mueller pressionou por duas vezes o secretário de Justiça dos Estados Unidos, William Barr, para que ele divulgasse mais conclusões da equipe investigativa de Mueller no final de março, citando uma lacuna entre a interpretação que Barr fez delas e seu relatório completo, segundo uma carta de Mueller divulgada na quarta-feira (1º).

Mueller e seus investigadores também pressionaram o Departamento de Justiça para incluir sumários de seu trabalho horas antes de Barr divulgar uma carta de quatro páginas escrita por ele em 24 de março, segundo o novo documento. A carta de Barr permitiu que o presidente Donald Trump afirmasse erroneamente que foi inocentado na investigação sobre a interferência da Rússia na eleição. 

O presidente dos EUA, Donald Trump, em discurso na Casa Branca - Joshua Roberts - 1.mai.2019/Reuters

A carta de Mueller revelou profunda preocupação sobre como Barr lidou com a divulgação inicial das conclusões do procurador-especial —o que segundo Mueller criou "confusão pública sobre aspectos críticos dos resultados de nossa investigação".

"Isto ameaça minar um dos principais objetivos do departamento ao indicar o procurador-especial: garantir a total confiança do público no resultado das investigações", escreveu Mueller. 

Membros de um painel do Senado pressionaram Barr na quarta-feira, pouco depois que a carta de Mueller foi publicada, a explicar suas decisões sobre a investigação da Rússia no último mês, e alguns legisladores democratas pediram sua renúncia.

A carta, cuja existência The New York Times e The Washington Post revelaram no final da terça-feira (30), é a primeira evidência pública da ampla preocupação de Mueller e sua equipe de que o secretário de Justiça tenha distorcido suas conclusões na primeira apresentação delas.

Também revelou um extenso vaivém entre o procurador-especial e Barr nos dias tensos depois que Mueller entregou um relatório de 448 páginas ao Departamento de Justiça apresentando as conclusões da investigação de 22 meses feita por seu gabinete.

Uma rixa entre os dois parece ter aumentado nestas semanas, com Barr contestando a análise jurídica do procurador-especial sobre como alguns atos do presidente podem ter representado obstrução criminosa da Justiça.

Nas horas que antecederam a divulgação do relatório de Mueller, Barr deu uma entrevista coletiva em que disse que parte do comportamento de Trump é compreensível, quando colocada "em contexto".

Durante um depoimento no Congresso no mês passado, Barr hesitou quando perguntado se acreditava que a investigação foi uma "caça às bruxas" --expressão muitas vezes repetida por Trump. Barr disse que "depende de onde você se situa".

O gabinete de Mueller informou primeiramente o Departamento de Justiça sobre suas preocupações em 25 de março, um dia depois que Barr divulgou sua carta inocentando o presidente, mas não quis divulgar as conclusões do procurador-especial juntamente com a carta.

Mueller acrescentou: "A carta sumário que o departamento enviou ao Congresso e divulgou ao público no fim da tarde de 24 de março não capta totalmente o contexto, a natureza e a substância do trabalho e das conclusões deste gabinete".

Mueller pediu que o Departamento de Justiça divulgasse os sumários das conclusões dele. "A divulgação neste momento aliviaria os mal-entendidos que surgiram e responderiam a perguntas do Congresso e do público sobre a natureza e o resultado de nossa investigação", escreveu Mueller. 

Barr declinou.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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