Descrição de chapéu Financial Times

Nova divisão no brexit está levando o Reino Unido para segunda votação sobre o tema

Novo plebiscito pode ser única saída para resolver o impasse sobre a saída da União Europeia

Londres | Financial Times

Há uma nova divisão na política britânica. A desavença principal pode não mais ser entre “remainers” (favoráveis à permanência do Reino Unido na União Europeia) e “leavers” (os que defendem a saída do país da UE, o brexit).

A divisão principal hoje é entre puristas e pragmáticos; entre aqueles que acreditam que o brexit vai mudar tudo e os que ainda querem fazer as coisas voltarem à normalidade anterior; os que ainda creem que há alguma maneira de consertar o brexit e os que não querem que essa solução seja encontrada.

De um lado temos os líderes dos dois principais partidos políticos; ambos estão combatendo seus próprios membros e parlamentares para tentar montar um acordo que possibilite o brexit, baseados na ideia equivocada de que isso lhes permitirá trabalhar sobre outras questões.

Nigel Farage, líder do partido Brexit, durante entrevista em Londres - Toby Melville - 7.mai.2019/Reuters

Do outro lado estão dois campos opostos e cada vez mais confiantes: os “brexiters” que querem uma saída total da UE e os “remainers” que buscam um segundo plebiscito e lutam contra um acordo negociado.

Infelizmente para os dois principais partidos políticos, os puristas estão em ascensão. Isso pode criar uma coalizão surpreendente, embora temporária, de interesses entre os dois campos, visando bloquear um acordo negociado. Isso também aumenta as chances de o Reino Unido estar se dirigindo a um segundo plebiscito.

Nada ilustra essa nova divisão tão bem quanto a resposta imediata dos dois partidos principais aos resultados das eleições locais da semana passada, em que os dois partidos juntos receberam apenas 56% dos votos.

A derrota cabal dos conservadores já era prevista havia muito tempo. Mas o Partido Trabalhista também perdeu terreno, aparentemente devido aos seus esforços para ser a favor dos dois lados na questão do brexit. As eleições locais são há muito tempo um processo em que a vitória de um significa a derrocada do outro. Se o governo se sai mal, o principal partido oposicionista se sai bem. Essas são as regras do jogo, conforme todas as partes as entendiam previamente.

Assim, o instinto imediato da primeira-ministra Theresa May e também do líder trabalhista Jeremy Corbyn foi essencialmente perguntar como poderiam implementar o brexit e fazer a política britânica voltar a funcionar segundo as regras normais. Os resultados das eleições locais criaram uma urgência em torno das discussões entre os dois partidos para encontrar um acordo. Um participante conservador explicou:

“Os dois lados sabem mais ou menos qual será o acordo possível. Resta a saber se o Partido Trabalhista acha que interessa a ele fechar esse acordo.”

Agora, uma liderança trabalhista que é a favor do brexit e está preocupada com seus eleitores “leavers” tem esse incentivo. Pois, se os resultados das eleições locais foram ruins, as eleições que se aproximam para o Parlamento Europeu certamente serão piores.

Os dois grandes partidos verão sua parcela somada dos votos cair muito abaixo de 50%, possivelmente para algo em torno de 35%. Com o Partido Brexit, de Nigel Farage, recebendo cerca de 30% das intenções de voto em pesquisas, e os votos somados dos partidos declaradamente “remainers” Democrata Liberal (o grande vencedor das eleições locais), Change UK, Verde e o Partido Nacionalista Escocês chegando a aproximadamente o mesmo nível, os votos podem se dividir em três, com "leavers" e "remainers" intransigentes recebendo dois terços dos votos e os dois principais partidos ficando com o último terço.

Isso quer dizer que esforços antes sensatos para chegar a um acordo agora parecem constituir uma tentativa duvidosa. Os partidos grandes estariam implementando um brexit ao qual mais de 60% dos eleitores se opõem. Ignorar esse fato vai acelerar a fratura de seus partidos.

Onde antes a estratégia do brexit era unir um campo de puristas e conciliadores contra a linha dura do lado oposto (primeiro os "remainers", depois os defensores de um brexit “duro”), hoje são os pragmáticos que estão na defensiva.

Como tão frequentemente acontece, questões binárias emotivas acabam afastando as pessoas do campo intermediário. Mesmo que conservadores e trabalhistas de fato acordem um plano, que seria baseado numa união alfandegária permanente com a UE, os puristas no Parlamento podem se unir para derrotá-lo. Os "remainers" vão se opor a qualquer acordo que não seja validado por um plebiscito, e os "brexiters" intransigentes se opõem a qualquer acordo.

Mas o alinhamento final depende de os "brexiters" puristas reconhecerem que não vão poder concretizar o brexit que desejam sem levá-lo de volta à população para receber seu aval. Os "remainers" há muito tempo enxergam um segundo plebiscito como sua melhor chance. Os "leavers" vêm relutando, compreensivelmente, em colocar sua vitória em risco. Mas uma vitória nas eleições ao Parlamento Europeu talvez os persuada a repensar sua posição.

O Parlamento atual não vai permitir que o Reino Unido saia da UE sem um acordo; logo, os puristas precisam que os eleitores forcem os deputados a repensar suas posições. É pouco provável que uma eleição resulte em uma maioria mais intransigente a favor do brexit. Mas uma segunda vitória dos "leavers", sem qualquer acordo em vista, forçaria o Parlamento a tomar posição. Além disso, pouparia um novo líder conservador de uma eleição antecipada que poderá fazer dele o premiê que passou menos tempo no cargo na história do país.

O esvaziamento do terreno intermediário está fazendo com que um novo plebiscito passe a ser a única saída viável para os puristas dos dois campos. A intransigência de cada um dos lados vai forçar o brexit a ser submetido novamente à aprovação dos eleitores. A única questão a ser discutida é o mecanismo a ser usado.

Existe outro problema que se coloca para os dois grandes partidos, incidentalmente. Esta é apenas a primeira fase do processo. Não será o fim do brexit como questão política. O brexit não vai deixar de ser uma linha divisória da política britânica. Não existe solução para o brexit e não haverá retorno rápido à normalidade política.

Tradução de Clara Allain

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