Wall Street negra volta à tona com investigação em Oklahoma

Varia entre 40 e 300 a estimativa do número de mortos em massacre em bairro de Tulsa, em 1921

Danielle Brant
Nova York

Foram 18 horas, que começaram em 31 de maio e entraram por 1º de junho de 1921. A chamada Wall Street Negra, como era conhecida a comunidade de Greenwood, em Tulsa, Oklahoma, virou pó, depois de ser queimada por uma multidão de brancos enraivecidos –ou inconformados com o sucesso do local, dependendo da versão contada.

Quase um século depois, o episódio volta aos holofotes. Em outubro, o prefeito de Tulsa, o republicano G.T. Bynum, decidiu reabrir uma investigação sobre covas coletivas de negros mortos no massacre.

“Devemos à comunidade saber se há covas coletivas em nossa cidade. Devemos às vítimas e aos membros de suas famílias.”

Homem observa escombros na comunidade negra de Greenwood, em Tulsa (EUA), em 1921; local foi alvo de revolta de brancos, que queimaram casas e destruíram tudo o que viam pela frente - Oklahoma Historical Society/Getty Images

Nesta quinta (23), o primeiro encontro do comitê encarregado de discutir os procedimentos a serem adotados teve que ser adiado por causa das condições climáticas em Tulsa. O grupo deve marcar nova data para iniciar os trabalhos.

A ascensão e destruição de Greenwood resume a história de segregação racial nos EUA, marcada por linchamentos de negros e pela proibição de que frequentassem os mesmos ambientes que os brancos. Na comunidade de Tulsa, as duas coisas ocorreram.

Na cidade, no final do século 19 e início do 20, a descoberta de poços de petróleo fez jorrar dinheiro na economia local. Isso teve um efeito secundário: enriqueceu, por tabela, Greenwood, majoritariamente habitada por negros.

A comunidade foi criada em 1906, quando O.W. Gurley, um empreendedor negro que ganhou dinheiro especulando com terras, abriu negócios no lugar e atraiu outros afro-americanos.

Eles começaram a trabalhar para famílias e empresários brancos em Tulsa. Com o boom do petróleo, passaram a gastar o dinheiro que recebiam nos hotéis, cinema, médicos, restaurantes e lojas de Greenwood. Tulsa ficou conhecida como o lugar em que negros podiam se dar bem.

Até certo ponto, ressalva Scott Ellsworth, professor da Universidade de Michigan e autor do livro “Death in a Promised Land” (“Morte em uma terra prometida”), sobre a revolta de 1921.

“Os brancos em Tulsa eram muito mais ricos que os negros em Greenwood. Não havia riqueza entre os negros igual à dos brancos. Mas alguns trabalhadores brancos não tinham carros, e os negros tinham, o que era motivo de controvérsia na época.”

Um caso típico de ciúmes e inveja, afirma Hannibal Johnson, autor de “Black Wall Street - From Riot to Renaissance in Tulsa’s Historic Greenwood District” (“Wall Street Negra – Da revolta ao renascimento no distrito histórico de Greenwood, em Tulsa”).

“Os brancos, na época, achavam os negros sub-humanos. Ter uma comunidade em que os negros tinham boas casas, pianos e roupas caras não era aceitável. Era uma ameaça direta à ideia de que eles eram sub-humanos”, afirma.

Essa concepção permeou muitos dos linchamentos de negros, principalmente após a emancipação dos escravos, em 1863. Pairava um ambiente de justiçamento. 

Em 1920, Roy Belton, um branco de 18 anos, foi preso, acusado de sequestrar e matar um homem. Ele foi retirado da cadeia e linchado pela população branca.

A revolta na Wall Street Negra tem uma origem parecida. Dick Rowland, um jovem negro, foi acusado por Sarah Page, uma jovem branca que trabalhava como ascensorista de um prédio, de tentar atacá-la —ela não prestou queixa.

Rowland foi preso. No dia seguinte, há relatos de que o jornal local teria feito um editorial dizendo que “um negro será linchado hoje à noite”.

Para evitar que isso ocorresse, moradores de Greenwood foram até a cadeia tentar proteger Rowland. Mas um grupo bem maior de brancos também foi ao local para agredi-lo. Alguns seriam membros da Ku Klux Klan, organização supremacista branca.

O resultado foi uma revolta em que os brancos invadiram o distrito, queimaram casas, lojas, hotéis e tudo o que viam à frente. Mais de 10 mil negros ficaram desabrigados. O número de mortos varia de 40 a 300, porque vários corpos teriam sido enterrados nas covas coletivas que o prefeito de Tulsa quer investigar agora.

Na época, as seguradoras se recusaram a cobrir os prejuízos dos negros, estimados em US$ 2,5 milhões. Uma investigação local determinou que eles eram responsáveis pela revolta. Nenhum branco foi punido pelo episódio.

Dick Rowland sobreviveu e, mais tarde, se mudou para Kansas, assim como Sarah Page.

Apesar da devastação, a comunidade conseguiu se reerguer em 1925, conta Mechelle Brown, coordenadora no centro cultural de Greenwood. O fim das políticas de segregação racial, nos anos 1960, determinou um novo declínio para a comunidade.

“Os negros passaram a gastar em outras comunidades, porque queriam exercitar seu direito.”

Ela vê com preocupação a amplificação de vozes supremacistas. “Acreditamos que o racismo esteja piorando. Essas pessoas foram empoderadas por um presidente [Donald Trump] que usa essa retórica.”

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