Líder de Hong Kong se desculpa e adia indefinidamente projeto de lei de extradição

Manifestação prevista para o domingo pedirá que projeto seja permanentemente derrubado

Hong Kong | Reuters e AFP

Dizendo-se arrependida e reconhecendo erros de seu governo, a chefe executiva de Hong Kong, Carrie Lam, adiou indefinidamente neste sábado (15) um projeto de lei que autoriza extradições para a China continental. 

“Após deliberações internas nos últimos dois dias, o governo decidiu suspender o procedimento de alteração legislativa, reativar nossa comunicação com todos os setores da sociedade, trabalhar mais e ouvir as diferentes visões da sociedade”, disse Lam.

“O conselho vai parar de trabalhar no projeto até que tenhamos completado nossas explicações e ouvido as opiniões. Não pretendemos estabelecer um prazo para esse trabalho”, acrescentou.

A diretora executiva de Hong Kong, Carrie Lam, fala durante uma coletiva de imprensa na sede do governo em Hong Kong neste sábado (15)
A diretora executiva de Hong Kong, Carrie Lam, fala durante uma coletiva de imprensa na sede do governo em Hong Kong neste sábado (15) - AFP

Segundo Lam, a lei de extradição é necessária para resolver vácuos legais e evitar que Hong Kong se torne um refúgio para criminosos.

Mas ela admitiu que o governo subestimou a reação da opinião pública.

“Sinto-me profundamente arrependida e lamento que as deficiências do nosso trabalho e outros fatores tenham despertado controvérsias e conflitos substanciais na sociedade após o período relativamente calmo dos últimos dois anos.”

Questionada sobre se renunciaria, Lam evitou responder diretamente, mas pediu à população que dê ao governo “uma nova chance”. 

Em nota, o Ministério das Relações Exteriores da China disse apoiar a decisão de Hong Kong e a qualificou como uma tentativa de “escutar mais” as opiniões sobre o projeto de lei e de “reestabelecer a calma” no território.

O governo britânico parabenizou sua ex-colônia pela decisão. “Muito bem, governo de Hong Kong, por ter dado atenção aos bravos cidadãos que defenderam seus direitos humanos”, afirmou o chanceler britânico, Jeremy Hunt. 

Na terça (11) após milhares de manifestantes saírem às ruas em Hong Kong para protestar, o Parlamento local anunciou que adiaria o debate marcado o dia seguinte. 

Nesse dia, confrontos violentos foram registrados quando a polícia tentava impedir que os manifestantes, reunidos pacificamente, entrassem no Parlamento local —que tem maioria pró-Pequim. As forças de segurança dispararam balas de borracha e gás lacrimogêneo, e quem protestava jogou de volta garrafas plásticas.

Os manifestantes também usaram guarda-chuvas, tanto para se proteger quanto em uma referência ao “Movimento dos Guarda-Chuvas”, mobilização que, em 2014, exigia que a eleição do chefe executivo de Hong Kong acontecesse por eleição direta. Pequim não deixou a alteração passar.

No domingo (9), a ex-colônia britânica já havia sido palco do maior protesto ocorrido desde sua transferência para a China em 1997. De acordo com os organizadores, mais de um milhão de pessoas foram às ruas pedir ao Parlamento de Hong Kong que desistisse do projeto.

Outra manifestação marcada para este domingo (16) pelos organizadores da marcha. Além de pedir que o projeto seja completamente derrubado eles também querem que a polícia seja responsabilizada pela repressão aos últimos protestos.

“Temos de dizer ao governo que o povo de Hong Kong persistirá e manterá seus protestos até que o Executivo retire o projeto de lei”, disse Jimmy Sham, da Frente Civil de Direitos Humanos.

O texto da proposta provocou críticas de países ocidentais, bem como o clamor de alguns em Hong Kong, que temem julgamentos politizados na China e afirmam acreditar que essa reforma prejudicará a imagem internacional e a atratividade financeira do território semiautônomo.

A oposição ao projeto reuniu organizações jurídicas, advogados, empresários, câmaras de comércio, jornalistas e diplomatas estrangeiros. Estariam sujeitos à lei os sete milhões de habitantes de Hong Kong, além de estrangeiros e chineses que moram lá. 

Em virtude do princípio “um país, dois sistemas”, a ex-colônia britânica goza de liberdades políticas e econômicas desconhecidas na China.

Mas nos últimos anos, o desaparecimento de vários editores e de um milionário chinês crítico de Pequim causou preocupação em Hong Kong. Eles então reapareceram na China, onde enfrentam acusações judiciais.

De acordo com o South China Morning Post, Lam realizou na noite de sexta uma reunião de emergência com seus conselheiros, enquanto as autoridades chinesas também se reuniram na cidade vizinha de Shenzhen para buscar uma saída para a crise. 

“Não deveríamos tranquilizar os cidadãos? Acho que adiar um pouco [o projeto de lei] não é uma coisa ruim”, afirmou Ann Chiang, uma parlamentar pró-Pequim.

Mas outros parlamentares ligados à China aconselharam Lam a não ceder aos manifestantes, para evitar que “Hong Kong se tornasse ingovernável”.

Para o governo chinês, preocupado com a desaceleração de sua economia em razão das tensões comerciais com os EUA, as manifestações na antiga colônia não são bem-vindas, ainda mais a poucos meses do aniversário de 70 anos da fundação da China comunista.

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