Ato em memória das vítimas da ditadura chilena termina com 23 presos

Mais de 4.000 manifestantes pediram avanços nas investigações de violações de direitos humanos

Santiago

Milhares saíram às ruas em Santiago neste domingo (8) num ato em memória das vítimas da ditadura militar comandada por Augusto Pinochet, dias antes do aniversário de 46 anos do golpe de Estado que levou o ditador ao poder no Chile. 

Policiais tentaram conter a multidão usando gás lacrimogêneo e canhões de água, mas sofreram resistência dos manifestantes, que, encapuzados, enfrentaram os agentes com pedras e bastões.

Autoridades informaram que 23 pessoas foram detidas, entre elas, três menores de idade.

Manifestante atira pedra em policiais durante marcha em memória aos 46 anos do golpe de Estado de 1973 que deu início à ditadura de Augusto Pinochet no Chile
Manifestante atira pedra em policiais durante marcha em memória aos 46 anos do golpe de Estado de 1973 que deu início à ditadura de Augusto Pinochet no Chile - Carlos Vera/Reuters

O confronto ocorreu na entrada do cemitério de Santiago, onde há um memorial em homenagem às mais de 3.000 vítimas da ditadura chilena (1973-1990), incluindo mortos e desaparecidos.

Segundo a polícia, 4.000 pessoas participaram da marcha. Os manifestantes levavam cartazes com fotos de familiares que foram executados ou que desapareceram durante o regime, além de cravos vermelhos.

Sob o lema "por verdade e Justiça", vários grupos se reuniram para exigir o avanço das investigações de violações de direitos humanos. Dos quase 1.200 desaparecidos, cerca de cem foram localizados. 

Ativistas da organização chilena de defesa dos direitos humanos "Pessoas presas e desaparecidas" carregam retratos de vítimas da ditadura militar chilena (1973-1990) durante ato neste domingo (8)
Ativistas da organização chilena de defesa dos direitos humanos "Pessoas presas e desaparecidas" carregam retratos de vítimas da ditadura militar chilena (1973-1990) durante ato neste domingo (8) - Martin Bernetti/AFP

"Marchamos com a convicção de que ainda não há verdade nem Justiça no Chile", disse Marco Barraza, membro do Partido Comunista chileno.

Muitos dos corpos dos chilenos que desapareceram durante a ditadura de Pinochet foram lançados ao mar ou explodidos com dinamites —táticas para apagar evidências dos crimes. 

Críticas de Bolsonaro

Na última quarta (4), o presidente brasileiro Jair Bolsonaro atacou o pai da ex-mandatária chilena Michelle Bachelet, atualmente alta comissária da ONU para Direitos Humanos.

A crítica veio após Bachelet dizer em entrevista coletiva que o Brasil sofre uma "redução do espaço democrático", especialmente com ataques contra defensores do meio ambiente e dos direitos humanos. 

"[Bachelet] Se esquece de que seu país só não é uma Cuba graças aos que tiveram a coragem de dar um basta à esquerda em 1973, entre esses comunistas o seu pai brigadeiro à época", ​escreveu o presidente em uma rede social. 

Alberto Bachelet, pai de Michelle, era general de brigada da Força Aérea e se opôs ao golpe militar dado por Augusto Pinochet em setembro de 1973. Ele foi preso e torturado pelo regime e morreu sob custódia, em fevereiro de 1974. 

A ex-presidente chilena também foi presa e torturada por agentes de Pinochet em 1975.

A fala de Bolsonaro foi criticada pelo atual presidente do Chile, Sebastián Piñera, um dos principais aliados do brasileiro na região.

"Não compartilho em absoluto à menção feita pelo presidente Bolsonaro por respeito a uma ex-presidente do Chile e, especialmente, em um tema tão doloroso como a morte de seu pai", disse.

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