Descrição de chapéu The New York Times

Ratos dominam Nova York há 355 anos; um balde misterioso poderá detê-los?

Recipiente com solução avinagrada foi solução apresentada para combater infestação

Nova York | The New York Times

Armadilhas. Veneno. Controle de natalidade. Gelo seco. E agora o que as autoridades municipais apresentam como uma solução de alta tecnologia: afogamento.

Nova York tenta erradicar sua população de ratos há 355 anos, e continua tentando.

Na quinta-feira (5), a mais recente tática do esforço de Sísifo foi revelada, com grande alarde, por Eric Adams, presidente do bairro do Brooklyn.

Autoridades apresentam o plano-piloto para livrar o Brooklyn da infestação de ratos
Autoridades apresentam o plano-piloto para livrar o Brooklyn da infestação de ratos - Angela Weiss /AFP

Era, na verdade, um balde que atrairia os roedores e os lançaria para a morte em uma misteriosa preparação avinagrada.

A poção tóxica, de acordo com seu fabricante, Rat Trap Inc., impede que eles apodreçam rapidamente e emitam mau cheiro.

Uma dúzia de repórteres estavam reunidos em torno de Adams quando ele exibiu alegremente uma lata de plástico contendo bolhas de rato flutuando em um ensopado cinza; era um espetáculo medonho, e o odor revirou o estômago.

"Às vezes você precisa ver pessoalmente para ter o efeito de choque", disse Adams.

"O senhor fala sério?", disse um dos repórteres presentes, enquanto outro desviava o rosto. "Isso é nojento."

O programa piloto já atingiu um obstáculo. O gabinete de Adams inicialmente colocou cinco caixas no Brooklyn Borough Hall e arredores, mas uma foi desativada por um rato muito grande.

"Ele era tão grande que quebrou o mecanismo da mola na caixa e não funcionou mais", disse Jonah Allon, porta-voz de Adams.

Adams disse que quer instalar as novas armadilhas, que custam entre US$ 300 e US$ 400 (cerca de R$ 1.400), em vários outros locais do Brooklyn.

Se for bem-sucedido, ele disse que procurará expandir a metodologia por toda a cidade.

Embora a "Guerra aos Ratos" de Nova York seja tão antiga quanto a própria cidade, os métodos estão sempre mudando.

Em 1865, um repórter exasperado do The New York Times escreveu que "as armadilhas não servem para nada" e que a solução seria "contratar um flautista para encantar a praga e levá-la à destruição".

Mais recentemente, depois que o governo Giuliani intensificou a campanha antirratos —usando três tipos de veneno—, um exterminador em Manhattan e Brooklyn disse ao Times que a população de roedores foi "astronômica nos últimos dois anos" e acrescentou: "Eles estão mais saudáveis que nunca. Você os vê inchados, gordos ou grávidas".

Houve uma tentativa de controle da natalidade de ratos, testada pela primeira vez em 2011 e lançada pelo Departamento de Saúde como um programa piloto em 2017, que ainda é usado em partes da cidade.

Em seguida, o Departamento de Transporte Metropolitano executou um teste de US$ 1 milhão em seis meses da "isca para gerenciamento de fertilidade" no metrô em 2013, e disse em 2017 que expandiria para outras estações após "resultados promissores".

Mas especialistas em controle de roedores e pragas disseram que o plano pode ter atrasado um pouco a reprodução, mas não teve um efeito quantificável.

Em 2017, o governo De Blasio ofereceu um plano de US$ 32 milhões, parte do qual envolvia matar ratos enchendo suas tocas com gelo seco, método aprovado pela Agência de Proteção Ambiental.

Em um parque em Chinatown, encher tocas com gelo seco resultou na morte de 1.200 ratos —sufocados pela liberação de dióxido de carbono— e na redução das tocas de 60 para 2, disseram autoridades.

Esse plano geralmente é eficaz, disse Jason Munshi-South, professor de biologia na Universidade Fordham que estudou os ratos de Nova York.

Mas exige muito trabalho e energia; alguém precisa enfiar o gelo seco em milhares de tocas e depois monitorar os ninhos.

Caixas em que serão coletados ratos, parte de um novo programa para combater a infestação em Nova York
Caixas em que serão coletados ratos, parte de um novo programa para combater a infestação em Nova York - Angela Weiss /AFP

Ao revelar sua nova armadilha para ratos, Adams —que realizou a chamada Cúpula dos Ratos no ano passado— entrou em uma disputa com o plano de De Blasio de 2017, que incluía o uso de sacos de lixo repelentes a ratos, com cheiro de hortelã, o que, segundo muitos relatos, parece não funcionar.

Ele mostrou um vídeo de roedores entrando num dos sacos.

"Nada disso tem resultados visíveis", disse Munshi-South, que teria visto ratos se alimentando de sacos Mint-X.

"A experiência cotidiana das pessoas na cidade é que os ratos são um problema, e está piorando."

Munshi-South descreveu a solução de Adams como um "tanque em um parque de diversões onde o rato cai e se afoga". Ainda assim, ele acrescentou: "É benéfico porque não espalha veneno".

Mas ele disse que isso acabará sendo inútil até que Nova York resolva questões subjacentes, como a coleta de lixo inadequada.

Mesmo que 90% dos ratos da cidade fossem mortos, os sobreviventes poderiam se reproduzir mais rapidamente devido à menor concorrência por comida, disse.

Adams disse que os moradores humanos da cidade são responsáveis por reduzir a população de ratos em Nova York.

"Os nova-iorquinos precisam entender que têm um papel em combater isso", disse.

"Não acredito que construímos uma cultura correta de descarte do nosso lixo. As pessoas não fizeram a conexão entre o que seus vizinhos fazem com o lixo e como isso alimenta o problema."

Um comunicado de imprensa do evento disse que Adams "mostraria 90 ratos capturados durante o novo programa piloto", mas na verdade havia apenas 20 na nova armadilha.

Os avistamentos de ratos relatados à linha direta 311 da Prefeitura aumentaram quase 38%, para 17.353 no ano passado contra 12.617 em 2014, segundo uma análise dos dados por OpenTheBooks.com, grupo sem fins lucrativos de vigilância, e o Times.

No mesmo período, o número de vezes que as inspeções de saúde da cidade encontraram sinais de ratos ativos quase dobrou.

Enquanto os ratos de Nova York aumentaram em número e tamanho físico, o mesmo aconteceu com o controle de pragas.

"É nojento, mas está ajudando as pessoas", disse Peter Golia, que dirige a Rat Trap Distribution, enquanto segurava no alto um saco com carcaças de rato.

"Se você colocar um rato morto em um lixo com veneno, ele se degrada no chão e contamina o solo."

Ainda assim, ele foi cauteloso com a receita exata da armadilha para matar roedores, chamando-a de "uma solução totalmente natural".

"É uma solução à base de álcool, óleo e vinagre", disse vagamente, acrescentando: "É orgânico!".

"Você poderia beber isso e provavelmente não iria morrer", disse. "Bem, talvez ficasse um pouco doente."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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