Doado pelos pais, brasileiro de 4 anos é detido na fronteira dos EUA

Pai da criança nega ter alugado o menino para evitar deportação imediata de outros imigrantes

Marina Dias
Washington

Miguel (nome fictício) tinha acabado de completar quatro anos quando iniciou sua jornada aos EUA. 

Saiu do Brasil em agosto para entrar no país via México —uma rota tão arriscada quanto conhecida pelos imigrantes sem documento. Quem o acompanhava, porém, não eram seus pais biológicos.

O casal que levava o garoto foi preso pelos agentes de imigração na fronteira com o Texas, enquanto Miguel seguiu para um abrigo em Chicago, onde está há mais de 50 dias.

Migrantes passam criança por cima de grade
Migrantes passam criança por cima de grade na fronteira com os Estados Unidos em Tijuana, no México; governo Trump endureceu política de separação de famílias sem documentos - Pedro Pardo - 25.nov.2018/AFP

Seus pais, Jussara Maria da Silva e Regiany Assis Costa, já estavam nos EUA e afirmam que entregaram o menino ao casal da travessia seis meses antes, ainda no Brasil.

Desempregado e sem dinheiro para criar seis filhos em Gonzaga, pequena cidade no interior de Minas Gerais, Costa diz que decidiu doar o caçula e tentar uma vida nova nos Estados Unidos.

Levou a mulher e uma das crianças em meados de junho, e as outras, relatou à Folha, tinham cruzado a fronteira um mês antes, com casais brasileiros que as devolveram quando a família chegou.

“Arrisquei minha vida e a dos meus filhos, mas é para dar um futuro melhor a eles. Não roubei, não matei. Se não der certo, volto ao Brasil.”

Os três viajaram até o México, hospedaram-se em um hotel na fronteira e, em seguida, entregaram-se à imigração. 

Juntos, ficaram detidos por quatro dias e, depois de liberados, foram para a Filadélfia. Lá, eles esperam o desfecho do pedido de asilo econômico para não serem mandados de volta ao Brasil.

A história é recorrente entre os que tentam entrar nos EUA sem documento. 

Adultos cruzam a fronteira com menores de idade e se entregam às autoridades migratórias, evitando a deportação imediata, já que as crianças não podem permanecer sozinhas durante os trâmites de repatriação.

Com habitual retórica anti-imigração ilegal, o presidente americano, Donald Trump, havia endurecido essas regras e implementado uma política de tolerância zero que separava as famílias na fronteira. 

Após a repercussão negativa, entretanto, o presidente precisou rever as medidas, impulsionando empreitadas como as de Costa.

Ele afirma que pegou um empréstimo para pagar as passagens de avião ao México e que a ideia de entrar nos EUA pelo esquema conhecido como “cai-cai” foi dele. “Eu pus isso na cabeça e vim.”

Com Miguel, porém, a situação fugiu do planejado, e o menino foi separado dos adultos que o acompanhavam.

“É isso que não entendo, ainda mais apresentando documentos originais”, afirma Costa em referência à doação do filho que diz ter sido registrada em cartório brasileiro. Advogados divergem sobre a legalidade desse tipo de acordo.

Ele diz que seu objetivo agora é esperar que os amigos sejam soltos e reaver Miguel —que ele ainda não encontrou desde a saída do Brasil.

Na semana passada, o Consulado do Brasil em Chicago pediu ajuda de grupos de brasileiros nos EUA para tentar encontrar os pais da criança.

Depois dos anúncios divulgados nas redes sociais, começaram a circular boatos de que Costa e a mulher estavam alugando seus filhos para facilitar a travessia de terceiros.

O pai de Miguel rechaça a acusação e afirma que não recebeu dinheiro dos casais que levaram suas crianças. Mas não explica a razão de ter não terem viajado todos juntos. 

Ele diz ainda que estava em contato com o abrigo antes de o consulado fazer o chamado. 

“Postaram na internet que eu tinha vendido meus filhos, mas eles estão todos comigo. Minha esposa está doente com isso, chora dia e noite.”

Procurado, o consulado brasileiro em Chicago afirma que houve “uma falha de comunicação” na divulgação da história de Miguel e que a família “já havia sido encontrada.”

Por email, o órgão informou que não pode fornecer detalhes da situação porque informações pessoais neste caso estão protegidas por sigilo.

Além de Miguel, os quatro filhos de Costa que cruzaram a fronteira estão com ele nos EUA. A mais velha, de 13 anos, mora em Minas com a avó.

Trabalhando de carpinteiro enquanto a mulher faz bicos como faxineira, Costa diz que vai usar a certidão de nascimento para provar a paternidade de Miguel, tirá-lo do abrigo e juntá-lo com os irmãos.

Questionado se vai arriscar o mesmo roteiro com a única filha que ficou no Brasil, desanima: “Depois que passamos por isso, não tem como.”

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