Caminhada religiosa desafia caos e reúne milhões no Iraque

Sagrada para muçulmanos xiitas, peregrinação de Arbain ocorre apesar de protestos no país

Karen Marón
Najaf (Iraque)

Para os milhões de crentes no mundo, ele foi descrito como o caminho do amor, uma das vias que levam a Deus. Um trajeto de 100 km que, todo ano, recebe uma caminhada com 20 milhões de pessoas, entre elas peregrinos de mais de 60 países. 

Considerada uma das maiores reuniões públicas do mundo, a chamada caminhada de Arbain, entre as cidades de Bagdá e Karbala, no Iraque, é uma data sagrada para os muçulmanos xiitas. 

Neste ano, a celebração desafiou a convulsão e os protestos contra corrupção e desigualdade em que o Iraque está submerso e que já deixaram mais de 260 mortos e milhares de feridos desde 1º de outubro.

A peregrinação é sempre feita 40 dias após a data sagrada de Ashura. Os dois eventos marcam, para os xiitas, o martírio de Hussein, neto do profeta Maomé, em Karbala. Ao se recusar a jurar lealdade ao califa Yazid, ele foi morto no século 7º ao lado de sua família e de seus seguidores.

A batalha é um dos divisores no islã. Os xiitas esperavam que os descendentes de Maomé liderassem a comunidade, mas foram derrotados pelos sunitas. Hussein e seu irmão, Hassan, são símbolos dessa luta.

Durante a celebração, um trecho de 80 quilômetros da estrada reformada após o fim da ditadura de Saddam Hussein (1979-2003), entre as cidades de Najaf e Karbala, converte-se numa espécie de maior hotel do mundo.

Em 1977, o ditador iraquiano proibiu essa manifestação cultural e religiosa, mas peregrinos continuaram a percorrer o caminho, escondidos entre as fazendas e florestas da região.

Durante duas noites, a reportagem da Folha fez o trajeto de ida e volta para Karbala. No caminho, visitou uma série de “mauquebs”. 

São instalações que oferecem comida e refúgio aos peregrinos. Os postos promovem eventos e palestras, além de atendimento médico e assistência psicológica e espiritual —tudo gratuito. 

No “mauqueb” da Universidade Internacional de Kufa, por exemplo, estão profissionais de diferentes disciplinas, como medicina, direito, biologia, física, química e filosofia. “Este ‘mauqueb’ começou com três mesas de chá no meio do deserto e hoje é um posto do qual participam estudantes e profissionais de diferentes países”, relata Mohamem Jalede, um dos responsáveis pela organização. 

Segundo ele, o trabalho do grupo se intensificou desde o início da guerra contra o Estado Islâmico. Eles se instalaram em Bagdá, Faluja, Ramadi e Ambar, oferecendo atendimento médico, alimentação e campanhas de apoio a órfãos dos combatentes que lutaram contra os terroristas.

Quilômetros à frente, a reportagem encontrou o maior de todos os “mauquebs”, batizado com o nome de Khimat Abdullah Al Radia, o filho de Hussein morto em Karbala aos seis meses de idade.

A organização fica em uma grande área, em um prédio moderno de três andares e com tendas com ar-condicionado. O investimento é milionário, mas o dono do local se mantém anônimo. 

Mais de 3 milhões de pessoas passaram por esse “mauqueb”, onde trabalharam 250 voluntários e 200 toneladas de comida foram consumidas em 15 dias.

muçulmanos marcham
Muçulmanos xiitas marcham de Bagdá para Karbala  - Ameer Al Mohammedaw - 16.out.19/DPA

Uma semana antes do Arbain, autoridades iranianas anunciaram o fechamento do posto de fronteira de Josraví por quatro dias devido aos protestos e pediram que peregrinos adiassem as viagens. 

Mas o fervor dos fiéis superou as ameaças de atentados e as explosões sociais, mesmo porque no caminho também se levantaram as vozes dos manifestantes que protestam contra a situação econômica frágil do Iraque. 

Milhares de iraquianos gritaram palavras de ordem contra a corrupção, em consonância com o pedido do influente líder xiita Moqtada Sadr para continuar com o movimento de manifestações marcado por centenas de mortos.

Em meio aos peregrinos trajados de roupas pretas em sinal de luto pelo imã Hussein, milhares de seguidores de Sadr desfilaram usando túnicas brancas aos gritos de “não à corrupção” e “sim à reforma”.

Neste ano, uma missão do Vaticano fez a peregrinação. O grupo, liderado pelo arcebispo Liberio Andreatta, incluía autoridades cristãs iraquianas que percorreram um trecho de um quilômetro do caminho. 

Andreatta declarou que, para um cristão, ir ao Iraque representa um retorno às raízes e que visitar Karbala é encontrar gente “muito acolhedora com os peregrinos católicos”.

O arcebispo disse que se sentiu seguro. “Pela primeira vez depois de duas guerras terríveis e do colapso do regime de Saddam ouvi falar de uma reconciliação nacional entre os diversos grupos étnicos do país, especialmente sunitas e xiitas”, disse ele. “Os peregrinos talvez sejamos a cola.”

Tradução de Clara Allain

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