Para mais famoso ativista em Hong Kong, êxito em eleições foi 'vitória de fachada'

Joshua Wong diz à Folha que Brasil deveria parar de fornecer gás lacrimogêneo para repressão a protestos

Hong Kong

Para o mais famoso ativista pró-democracia de Hong Kong, Joshua Wong, os quase seis meses de protestos que culminaram com a vitória da oposição nas eleições locais do território foram “apenas o fim do começo”.

Wong falou à Folha enquanto se preparava para subir ao palco do primeiro grande comício da oposição após o triunfo de domingo passado (24).

A definição sobre o momento político de Hong Kong ele emprestou do premiê Winston Churchill (1874-1965), que em 1942 disse o mesmo após os britânicos derrotarem os nazistas em El Alamein (Egito).

No evento, o feriado americano do Dia de Ação de Graças serviu de pano de fundo ao agradecimento a Donald Trump e ao Congresso dos EUA pela lei prevendo sanções contra autoridades envolvidas na repressão aos atos.

O principal líder dos protestos em Hong Kong, Joshua Wong
O principal líder dos protestos em Hong Kong, Joshua Wong - Igor Gielow / Folhapress

“Outros países precisam aprovar leis como essa. Precisamos isolar Pequim. O Brasil pode parar de vender gás lacrimogêneo, por exemplo”, disse Wong.

Um dos textos sancionados por Trump proíbe a venda de armas de contenção de massa à cidade autônoma chinesa.

O Brasil está presente com tecnologias não letais como o gás e balas de borracha em Hong Kong há anos, com armamento vendido pela empresa fluminense Condor.

A companhia, que é monopolista em casa e uma das dez do tipo no mundo, não se pronuncia sobre seus negócios.

As sanções americanas podem ser diretamente contra ativos de alvos no exterior ou secundárias, afetando quem faz negócios com eles.

Além disso, há a previsão de revisão anual do status econômico privilegiado de Hong Kong nos EUA, o que pode afastar investidores da cidade.

Wong é realista sobre a eleição para conselheiros locais do domingo. “Foi uma vitória de Pirro.”

Novamente recorrendo à história, ele se refere à vitória em batalha que exaure as forças do vencedor a ponto de impossibilitar ganhar a guerra —como aconteceu no século 3 a.C. com o rei grego Pirro de Épiro, em sua campanha contra os romanos.

“Nossa vitória foi só uma fachada. O campo pró-Pequim capturou 40% dos votos, apesar de toda a agitação dos meses. Isso mostra que ele são substanciais, e que não podemos desprezar uma minoria tão grande”, disse.

Ele foi o único oposicionista barrado de concorrer no pleito, em que 17 dos 18 conselhos locais foram conquistados pelos pró-democracia. “Foi perseguição”, disse.

Todo candidato precisa rejeitar pleitos secessionistas, e ele apenas disse que não apoiava a independência porque a China ameaçou matar todos os que fizessem isso —em 13 de outubro, o líder Xi Jinping falou que só sobraria a rebeldes “corpos esmagados e ossos estraçalhados”.

Questionado sobre a declaração, ele só diz que “quer uma Hong Kong autônoma e democrática”, com sorriso no rosto.

Wong impressiona por sua pouca idade, 23 anos, e pelo fato de que já estava na rua em 2014, quando emergiu como principal liderança do Movimento dos Guarda-Chuvas, que retirou seu nome pela introdução do artefato para a proteção dos manifestantes contra jatos de água e spray de pimenta.

Franzino e com feição de adolescente, ele é seguido por uma corte de apoiadores de perfil muito semelhante. Todos ligados a aplicativos de mensagens e guardando segredo de suas identidades e financiadores.

“Minha idade não importa nada perto dos garotos de 15 anos que enfrentaram munição real na rua aqui em Hong Kong. É um preço barato o que eu pago”, disse Wong, numa resposta que parecia bem decorada.

Ele passou seis meses preso em 2017, após seu grupo, o Demosisto, ter participado de uma invasão à sede do governo de Hong Kong. Neste ano, foi proibido de viajar para o exterior.

A estrutura relativamente profissional do evento, que uniu milhares de pessoas, sugere apoio de algum dos empresários de origem honconguesa que moram nos EUA e querem reduzir o poder chinês sobre o território.

Mas é uma incógnita. Uma das apoiadoras de Wong, que se identifica como Theresa, só fala que “os movimentos” bancam tudo.

Oficialmente, a organização é da Delegação de Assuntos Internacionais das Instituições de Ensino Superior de Hong Kong.

O jovem político disse não se sentir constrangido de estrelar uma manifestação em que Trump, de quem não parece gostar muito, é tratado como herói.

“O que importa é que há um consenso bipartidário sobre o tema no Congresso”, afirmou sobre o Ato de Democracia e Direitos Humanos de Hong Kong, que o presidente americano sancionou até porque o apoio bicameral ao projeto o obrigava a isso.

Vestindo calça e camisa jeans aberta sobre uma camiseta listrada, Wong se solta mais no palco. Seu discurso é todo em cantonês, a língua local, pontuado por frases em inglês.

É reverenciado nos menos de dez minutos de fala, após a qual desaparece da forma como chegou: discretamente, sumindo no canto da praça Edinburgh no qual só há seus apoiadores próximos.

Para ele, enquanto a lei eleitoral da região não for alterada, nada mudará. “A discussão toda se muda rapidamente para esse tema agora. "

No ano que vem haverá eleição para o Conselho Legislativo, o Parlamento. Lá, 35 dos 70 nomes são eleitos diretamente, mas os outros são escolhidos por 28 setores profissionais —os “distritos funcionais”, como a associação do comércio, dos engenheiros e outros.

Pequim influencia diretamente esse voto indireto, e Wong acredita que é possível, por meio de pressão nas ruas, mudar isso até setembro de 2020.

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