Assessor do presidente usa lema da ditadura espanhola para saudar Carlos Bolsonaro

Filipe Martins, auxiliar para assuntos internacionais, mencionou slogan franquista ao responder vereador

Brasília

O assessor especial da Presid√™ncia para assuntos internacionais, Filipe Martins, usou um lema associado √† ditadura da Espanha de Francisco Franco (1939-1975) em uma publica√ß√£o nas redes sociais. 

Ao responder nesta quarta-feira (11) uma mensagem de feliz aniversário do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), um dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, Martins concluiu seu texto com o lema "¡ya hemos pasao!" (nós já passamos!, em português).

"Valeu, irm√£o! √Č uma honra fazer parte deste momento e lutar ao lado de gente que est√° disposta a morrer pelo nosso pa√≠s e a sacrificar tudo em nome do que √© justo e bom. Que a esc√≥ria continue se mordendo de raiva. ¬°Ya hemos pasao!", publicou o assessor. 

O presidente dos EUA, Donald Trump, à esq., cumprimenta Filipe Martins, assessor de assuntos internacionais do presidente Jair Bolsonaro, no Salão Oval
O presidente dos EUA, Donald Trump, à esq., cumprimenta Filipe Martins, assessor de assuntos internacionais do presidente Jair Bolsonaro, no Salão Oval - Casa Branca - 30.ago.19/Divulgação

"¬°Ya hemos pasao!" √© uma express√£o fortemente ligada ao franquismo, regime autorit√°rio de direita que se instalou no pa√≠s ib√©rico ap√≥s o fim da Guerra Civil Espanhola (1936-39).

Procurado, o Palácio do Planalto disse que não se manifestaria sobre a publicação do assessor especial. Martins não retornou o contato feito pela Folha

Segundo Enrique Moradiellos, catedr√°tico de hist√≥ria contempor√Ęnea da Universidade de Extremadura (Espanha), o lema citado pelo assessor se transformou em uma esp√©cie de resposta oficial dos aliados de Franco ao "¬°no pasar√°n!" (n√£o passar√£o!, em portugu√™s), mais famoso grito de guerra do grupo derrotado. 

"O '¬°No pasar√°n!' surgiu em novembro de 1936, quando come√ßa o cerco franquista a Madri. O governo republicano se transfere para Val√™ncia no come√ßo do m√™s, e Madri fica sob controle de uma junta presidida por militares leais, com o apoio do PCE [Partido Comunista Espanhol] e anarquistas", explica.

"Da√≠ surge o lema mobilizador para combater o pessimismo derrotista. '¬°No pasar√°n!' √© uma tradu√ß√£o da frase em franc√™s que pronunciou o [general] Philippe P√©tain na defesa de Verdun em 1914", afirma. 

Com a vit√≥ria de Franco, "¬°ya hemos pasao!" se transformou em uma provoca√ß√£o √†queles que foram derrotados. "√Č uma das frases feitas do l√©xico franquista da p√≥s-guerra mais difundidas e conhecidas. Com um toque nada sutil de humilha√ß√£o e repres√°lia", diz Moradiellos. 

 

O seu uso foi t√£o difundido √† √©poca que virou m√ļsica. Em 1939, a cantora Celia G√°mez lan√ßou a m√ļsica "¬°Ya hemos pasao!", que naquele ano se converteu em uma das mais populares do pa√≠s. 

A letra afirma que os marxistas diziam e gritavam pelas ruas "n√£o passar√£o!". "N√≥s j√° passamos! / E n√≥s estamos nas cavas / N√≥s j√° passamos! / Com alma e cora√ß√£o / N√≥s j√° passamos! / E estamos esperando para ver descer o bast√£o do governo / N√≥s j√° passamos!", responde a cantora. 

A Guerra Civil Espanhola e a ditadura franquista que a sucedeu s√£o consideradas os eventos mais traum√°ticos da hist√≥ria contempor√Ęnea da Espanha.

De acordo com Moradiellos, al√©m dos cerca de 300 mil mortos em combates e as outras centenas de milhares de v√≠timas que morreram de fome, frio e doen√ßa em decorr√™ncia da guerra, houve ainda um imenso n√ļmero de mortes causadas por repress√£o pol√≠tica. 

A estimativa, diz o professor, √© que o grupo de Franco tenha matado cerca de 100 mil pessoas durante a guerra, al√©m de outras 30 mil no p√≥s-guerra. 

As cifras indicam ainda que cerca de 60 mil pessoas foram mortas pelos republicanos, também devido a represália política.

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