Dinheiro, trolls e um líder de seita: como a Rússia interfere em eleições na África

Representantes do país atuaram para favorecer candidatos em Madagascar

MICHAEL SCHWIRTZ Gaelle Borgia
Antananarivo (Madagascar)

Dificilmente os russos passariam batidos. Eles apareceram de repente na capital do Madagascar no ano passado, carregando mochilas cheias de dinheiro e materiais de campanha decorados com o nome do presidente malgaxe.

Foi um dos esforços de interferência eleitoral mais descarados que a Rússia empreendeu até agora.

Trabalhando numa sede que montaram num hotel turístico, os russos publicaram um jornal próprio no idioma local e contrataram estudantes para escrever artigos bajuladores sobre o presidente, para ajudá-lo a ser reeleito para novo mandato. Contornando as leis eleitorais, compraram tempo de transmissão nos canais de TV e encheram o país de outdoors.

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Apoiadores de Andry Rajoelina durante comício em Antananarivo, em maio de 2019 - Finbarr O'Reilly/The New York Times

Eles pagaram jovens para comparecer a comícios e pagaram a jornalistas para cobrir os mesmos. Foram a escritórios de campanha, acompanhados por guarda-costas armados, para subornar candidatos rivais e convencê-los a desistir de suas candidaturas, para facilitar a trajetória do candidato de sua preferência.

As autoridades da comissão eleitoral de Madagascar se assustaram. “Todos lembramos o que os russos fizeram nos Estados Unidos durante a eleição”, explicou o vice-presidente da comissão, Thierry Rakotonarivo. “Ficamos realmente com medo.”

De todos os lugares onde a Rússia pode tentar influir ilegalmente sobre uma eleição presidencial, o Madagascar talvez seja um dos mais inesperados. Essa ilha-nação ao largo do sudoeste da África fica a milhares de quilômetros de Moscou e possui pouco valor estratégico evidente para o Kremlin ou para o equilíbrio do poder no mundo.

A operação foi aprovada pelo presidente Vladimir Putin e coordenada por algumas das mesmas figuras que comandaram a campanha de desinformação na eleição presidencial americana de 2016, segundo dezenas de entrevistas com funcionários governamentais do Madagascar, agentes locais contratados para participar da campanha russa e centenas de páginas de documentos internos produzidos pelos agentes russos.

A interferência em Madagascar começou poucas semanas depois de Putin ter um encontro com o presidente malgaxe, Hery Rajaonarimampianina, em Moscou no ano passado. Também participou desse encontro, que nunca foi divulgado publicamente, Yevgeny Prigozhin, um confidente de Putin que foi indiciado nos Estados Unidos por ter ajudado a orquestrar o esforço russo para manipular a eleição americana de 2016.

Putin vem negando repetidas vezes qualquer esforço oficial para interferir em eleições no exterior. Mas seu encontro com o presidente malgaxe, com Prigozhin a seu lado, aponta para seu envolvimento na interferência eleitoral russa mesmo no menor e mais remoto dos países.

A operação em Madagascar emulou a campanha dos EUA em alguns aspectos cruciais. Houve uma campanha de desinformação nas redes sociais e uma tentativa de fortalecer os chamados candidatos sabotadores. Os russos chegaram a recrutar o líder de uma seita apocalíptica, numa estratégia para dividir o voto oposicionista e acabar com suas chances de vitória.

Mas, enquanto os esforços russos nos EUA fizeram parte da campanha de Moscou para subverter a democracia no Ocidente e abalar os rivais geopolíticos de Putin, a empreitada em Madagascar parece ter tido uma finalidade muito mais simples: o lucro.

Antes da eleição, uma empresa russa que autoridades locais e diplomatas estrangeiros disseram ser controlada por Prigozhin adquiriu uma participação grande numa estatal que extrai cromo, mineral valorizado por ser usado na produção de aço inoxidável.

A aquisição desencadeou protestos de trabalhadores que se queixavam de salários atrasados, benefícios cancelados e ingerência estrangeira em um setor que no passado era fonte de orgulho nacional em Madagascar.

A iniciativa repetiu um padrão no qual a Rússia interfere em países africanos para tentar influir sobre sua política de modo a obter ganhos materiais. Na República Centro-Africana, um ex-oficial de inteligência russo é o assessor chefe de segurança do presidente nacional, enquanto empresas ligadas a Prigozhin se espalharam pelo país, comprando diamantes de maneiras legais e ilegais. As informações são de funcionários governamentais, chefes de milícias que atuam no comércio ilegal de diamantes e documentos de registro que revelam a crescente pegada militar e comercial de Prigozhin.

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Os operadores russos Andrei Kramar (2º da esq. p/a dir.), Roman Pozdnyakov (de termo preto) e Vladimir Boyarishchev (de bolsa lateral), em foto sem data - Pastor Andre Christian Dieudonne Mailhol via The New York Times

Mas as investidas russas no exterior têm tido várias falhas. Apesar de todos seus esforços, a operação em Madagascar fracassou inicialmente graças a uma incompetência espantosa e à corrupção que enfraquece a imagem da Rússia como manipuladora política magistral.

Os materiais de campanha estavam cheios de erros gramaticais. Canetas esferográficas que seriam distribuídas como brindes a eleitores traziam o nome do presidente Rajaonarimampianina grafado incorretamente. Alguns dos agentes russos parecem ter prejudicado a campanha para conseguir ganhos pessoais, superfaturando os custos de publicação do jornal para poderem embolsar a diferença.

Uma pessoa que trabalhou para a campanha descreveu pacotes de ouro e pedras preciosas empilhados sobre a cama do quarto de hotel de um agente russo –outro sinal de que os encarregados da missão em muitos casos estavam mais de olho no lucro que nos resultados políticos.

Outro problema do esforço foi que os russos escolheram o candidato errado. Quando ficou claro que Rajaonarimampianina tinha poucas esperanças de ganhar, mesmo com a ajuda deles, os agentes russos mudaram rapidamente de alvo. Abandonaram o presidente e transferiram seu apoio ao candidato Andry Rajoelina, que acabou sendo o vencedor.

A manobra funcionou. Depois de os russos terem mudado o rumo de sua campanha e passado a ajudar Rajoelina –seu adversário anterior— a vencer a eleição, a empresa de Prigozhin pôde negociar com o novo governo para conservar o controle da operação de extração de cromo, apesar dos protestos dos trabalhadores, e os agentes políticos de Prigozhin continuam ativos na capital de Madagascar até hoje.
 

“Tudo é possível na política”

Tudo começou com uma reunião secreta.

A imprensa descreveu a viagem de três dias que Rajaonarimampianina fez a Moscou em março de 2018 como nada fora do comum: o presidente assistiu a um fórum de investidores, se reuniu com um representante do Ministério do Exterior e recebeu um diploma honorário de uma universidade local.

Mas em dado momento seus planos fugiram do itinerário divulgado.

Escapando do pool de jornalistas sem ser visto, o presidente foi ao Kremlin. Ali, na sala de trabalho particular do presidente russo, ele encontrou Putin e Prigozhin para uma reunião que não durou mais que 30 minutos.

Numa entrevista, Rajaonarimampianina explicou que Prigozhin organizou o encontro e até o esperou no aeroporto de Moscou. Mas ele insistiu que a eleição presidencial em seu país não foi discutida no encontro.

Outros têm uma recordação diferente do que aconteceu. O ex-ministro da Agricultura Harison Randriarimanana, que acompanhou o presidente a Moscou, disse que após a reunião com Putin seu chefe anunciou orgulhosamente que Putin concordara em ajudá-lo com sua campanha de reeleição.

Semanas mais tarde, moradores da capital de Madagascar, Antananarivo, se espantaram com o súbito aparecimento de agentes russos na cidade.

A operação aconteceu ao lado de uma investida agressiva do Kremlin para reativar relações com vários países africanos. A África representou um campo de batalha ideológico importante para Moscou durante a Guerra Fria, e Putin vê a África como uma frente importante para combater a influência global do Ocidente.

Em outubro, Putin recebeu mais de 40 chefes de estado africanos, incluindo o de Madagascar, numa cúpula em Sochi. O objetivo foi exibir a estatura crescente da Rússia na região e apresentar seu país como parceiro para os países africanos, preferível ao Ocidente.

Antes da cúpula, Putin declarou: “Vemos que vários governos ocidentais recorreram à pressão e chantagem dos governos de países africanos soberanos. Já a nossa agenda africana tem caráter positivo, aspiracional.”

Nos últimos anos vários líderes africanos visitaram o Kremlin em busca de acordos lucrativos com as gigantescas estatais russas, incluindo acordos para a compra de armas.

A Rússia não se equipara em termos de dólares com a China ou os Estados Unidos, que têm dezenas de bilhões de dólares em investimentos econômicos no continente. Mas Moscou desenvolveu um kit de ferramentas útil para alguns líderes em busca de uma vantagem política, e é aqui que Prigozhin entra em ação.

Depois de ser indiciado por interferência na eleição americana de 2016, Prigozhin passou a percorrer o mundo oferecendo seus serviços. Ele encontrou um mercado altamente receptivo na África. De acordo com analistas, ele e seus agentes atuaram e estão atuando em quase 12 países africanos.

Rajaonarimampianina descreveu seu encontro com Putin como algo comum para um político de sua estatura. Durante seu mandato ele já tivera encontros com os líderes da China e Índia e fizera duas visitas à Casa Branca.

Diferentemente desses encontros, porém, a reunião com Putin e Prigozhin foi mantida em segredo.
Rajaonarimampianina insistiu que não recebeu “um centavo sequer dos russos” para sua campanha, mas não excluiu a possibilidade de o Kremlin tê-lo ajudado sem que ele tivesse conhecimento do fato. “Tudo é possível na política”, ele disse.

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O presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, fala com repórteres após votar em Antananarivo, em maio - Finbarr O'Reilly/The New York Times

Ele vacilou um pouco quando lhe foi mostrada uma carta com sua assinatura endereçada a um agente político russo chamado Oleg Vasilyevich Zakhariyash. Na carta, o presidente pede a ajuda do russo “para resistir a tentativas de instituições internacionais de interferir” na eleição em Madagascar. De fato, diplomatas ocidentais tinham receado que o presidente estivesse querendo adiar a eleição.

Rajaonarimampianina confirmou que a assinatura na carta é dele e admitiu ter encontrado Zakhariyash em Madagascar, mas disse que não se recordava de haver escrito a carta.

Zakhariyash, who não respondeu a vários pedidos de declarações, foi citado subsequentemente pela Riafan, órgão noticioso russo ligado a firmas pertencentes a Prigozhin, como tendo culpado os Estados Unidos, Reino Unido e França por interferir nas eleições em Madagascar.

Moradores locais contratados pela operação russa em Madagascar descreveram Zakhariyash como “o chefe”. Em uma das planilhas internas da unidade russa, ele foi identificado como “chefe do departamento”. Zakhariyash é também um dos dois autores de um relatório confidencial detalhando planos para a campanha em Madagascar, incluindo a criação de uma “fábrica de trolls” para voltar suas atenções às redes sociais, numa repetição das táticas que Prighozhin é acusado de ter empregado nos Estados Unidos.

Os documentos, somados a mensagens de texto e e-mails trocados entre agentes russos, foram obtidos e analisados pelo Dossier Center, organização investigativa sediada em Londres e fundada pelo ex-bilionário petrolífero Mikhail Khodorkovsky, inimigo de longa data de Putin. Através de entrevistas com autoridades, candidatos e agentes locais em Madagascar, o New York Times confirmou de modo independente boa parte das informações constantes dos documentos, que, segundo o Dossier Center, foram fornecidos por informantes que trabalham dentro da organização de Prigozhin.
 

“Um país poderoso veio para minha casa”

Quase duas décadas atrás, o pastor André Christian Dieudonné Mailhol, fundador da Igreja do Apocalipse, disse que recebeu uma mensagem de Deus dizendo que um dia ele seria presidente do Madagascar.

Mas ele não previu que 18 anos mais tarde três russos apareceriam à sua porta, como os três reis magos, oferecendo ajuda para fazer aquela profecia virar realidade.

Mailhol explicou aos russos o plano que Deus tinha para ele, e os três lhe ofereceram dinheiro vivo, prometendo financiar sua campanha completamente.

Os três nunca chegaram a explicar exatamente quem eram, disse o pastor, apenas lhe revelaram seus primeiros nomes --Andrei, Vladimir e Roman--, sem dizer o que queriam em troca. E Mailhol não perguntou.

“Pensei: um país poderoso veio à minha casa e ofereceu me ajudar. Para quê eu os incomodaria com perguntas como ‘quem são vocês? O que vocês querem aqui?’”, recordou o pastor, 59 anos.

“Nenhum outro país estrangeiro veio me oferecer ajuda. Eles foram os únicos, por isso eu não quis pedir muita coisa.”

Mailhol contou que sua equipe russa redigiu alguns de seus discursos e pagou por cartazes de campanha e anúncios na televisão. Em uma planilha interna o “Grupo do Pastor” é identificado como sendo composto por Andrei Kramar, Vladimir Boyarishchev e Roman Pozdnyakov.

Quando lhes foram mostradas fotos dos homens encontradas no Facebook, Mailhol e seus assistentes confirmaram que foram os mesmos que trabalham em sua campanha.

Quando a eleição se aproximou, os russos ficaram nervosos e frustrados. Mas eles também estavam fazendo alguns alarmes dispararem.

Um artigo de opinião publicado num jornal local avisou que, depois de interferir nos Estados Unidos, a Rússia estava querendo fazer o mesmo em Madagascar.

“A Rússia quer aproveitar sua experiência impressionante com desestabilização”, intervindo em Madagascar, dizia o artigo. “Se os russos conseguirem seu intento, a vodca vai fluir como se fosse água.”

As relações com os vários candidatos que os russos estavam apoiando começaram a azedar. Em setembro os russos desistiram de ajudar o presidente Rajaonarimampianina, concluindo que ele era impopular e não venceria a eleição.

Rajaonarimampianina disse que tomou conhecimento de que os russos estavam apoiando outros candidatos e ficou indignado quando lhe contaram que eles haviam concluído que ele seria derrotado.

“Como eles podem saber que eu vou perder a eleição?”, perguntou.

Rajaonarimampianina recebeu menos de 9% dos votos no primeiro turno, ficando no terceiro lugar distante.

Os russos transferiram seu apoio para Rajoelina, jovem ex-prefeito que foi o presidente interino de Madagascar após um golpe de Estado em 2009.

O pastor Mailhol contou que na últimas semanas da campanha a equipe de russos lhe pediu para abandonar a corrida e apoiar Rajoelina. Ele recusou.

Os membros do chamado Grupo do Pastor --Kramar, Pozdnyakov e Boyarishchev— foram presos e deportados no ano passado depois de organizar um protesto diante da embaixada francesa. Partiram sem pagar tudo o que deviam a seus contratados locais.

Como foi o caso na eleição americana, não está claro se os russos conspiraram diretamente com o candidato que acabou vencendo, Rajoelina, ou se apenas operaram uma campanha paralela para apoiá-lo.

Antes de mudar de lado, os russos tinham contratado malgaxes para escrever artigos desancando Rajoelina, segundo uma das pessoas que trabalhou para eles.

Falando anonimamente por medo de represálias, a pessoa disse: “Me pediram para escrever coisas negativas sobre Andry Rajoelina –para dizer que ele vendeu nossas terras aos chineses. Mas no segundo turno da eleição me pediram para escrever coisas positivas sobre Rajoelina.”

Rajoelina se negou a dar declarações sobre o assunto, mas um funcionário de sua campanha disse que sua equipe sabia de pagamentos feitos por russos a outros candidatos.

No final, os russos conservaram o que queriam –o controle sobre a exploração do cromo. Hoje eles mantêm uma equipe de 30 funcionários no país. O contrato lhes garante uma participação de 70% no empreendimento, disse Nirina Rakotomanantsoa, diretor gerente da empresa malgaxe que é dona da participação remanescente.

“O contrato já foi assinado”, ele disse. “Ainda bem que os russos estão aqui.”

Tradução de Clara Allain 

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