Argentina viola direito internacional ao permitir que Evo comande campanha, diz presidente interina da Bolívia

Em entrevista à Folha, Jeanine Añez conta que atua junto com outros países para evitar que antecessor siga atuando na política

Buenos Aires

Jeanine Añez, presidente interina da Bolívia, disse que vem conversando com o governo argentino para evitar a participação de Evo Morales nas próximas eleições presidenciais, em maio. Embora não seja candidato, ele atua como chefe de campanha mesmo estando fora do país.

“Evo Morales não deveria estar comandando, de Buenos Aires, a campanha do [partido] MAS. Ele está na Argentina como refugiado, e essa atitude viola claramente o espírito do direito ao asilo e ao refúgio”, disse Áñez, 52, em entrevista à Folha.

A presidente interina da Bolívia Jeanine Añez durante uma conferência no palácio presidencial de La Paz - David Mercado/Reuters

“Os direitos ao asilo e ao refúgio, filosoficamente, são necessários e respeitados em todo o mundo. Por isso estamos reclamando que a Argentina o respeite de acordo com esses princípios. O ex-presidente não deveria estar participando do processo político na Bolívia nem dando declarações e fazendo reuniões sobre isso em seu país de refúgio”, diz.

“Outros países nos têm apoiado com relação a isso e esperamos uma resposta mais contundente. Todas as democracias deveriam protestar sobre a maneira como a Argentina está violando uma instituição tão importante no direito internacional”, acrescenta.

Añez chegou ao poder de forma contestada em novembro --como 2ª vice-presidente do Senado, era a pessoa seguinte na linha sucessória da Presidência, depois que várias autoridades bolivianas renunciaram. Porém, não teve a aprovação da maioria do Congresso, que tampouco sancionou o pedido de renúncia de Evo Morales, ambos requisitos previstos pela Constituição do país. 

Ainda assim, vem conduzindo o país com mão de ferro. As ruas das principais cidades estão militarizadas e tem havido confrontos, mortes e detenções, principalmente em La Paz e em Cochabamba. 

Para a presidente, o governo interino tem agido com a firmeza necessária. “Conseguimos pacificar o país. Estamos negociando com diferentes setores da sociedade, mas os atores políticos e sociais já recuperaram a confiança para continuar com o diálogo”, afirmou. 

Apesar de ter havido mais de 30 mortes na repressão dos protestos de apoiadores de Evo, Áñez diz que o processo eleitoral será pacífico e democrático, uma vez que “os órgãos eleitorais estão reorganizados e trabalhando de modo coordenado. Todos os setores políticos irão participar”. 

Áñez diz que não há vetos ao MAS, o partido de Evo, por parte do Executivo, mas que quem avaliará as candidaturas será o Tribunal Supremo Eleitoral, formado depois que ela assumiu e que está sob seu comando.

A economia da Bolívia sofre uma crise desde a eleição de 20 de outubro. O crescimento do PIB caiu em um ponto em 2019, há desabastecimento nas cidades por conta dos bloqueios de estradas e a economia informal passou a responder por 80% do total das atividades, no final do ano passado.

A presidente, cuja prioridade é a transição, é criticada por colocar muito foco na segurança e pouco na economia. “Daqui até maio, pedi para a equipe econômica realizar um relatório pormenorizado sobre o estado da economia. Segundo os primeiros informes, já sabemos que foram feitos gastos abusivos pelo ex-presidente em muitas áreas, e houve uma gestão muito equivocada dos recursos do país, além de termos detectado muita corrupção. A Bolívia teve 14 anos de crescimento do PIB, mas mesmo assim não resolveu a pobreza.”

Segundo a presidente, que não será candidata na eleição de 3 de maio, a prioridade agora é “reduzir o déficit fiscal, ajustando os gastos que não são necessários. Mesmo assim, não vamos eliminar nenhuma assistência aos que mais precisam. Temos problemas graves também na saúde e de desemprego, deixados pela gestão anterior”.

Sobre o fato de ser a segunda mulher à frente do país, Áñez considera ser um símbolo importante. “Não estou aqui por ser mulher, mas sendo mulher tenho uma visão diferente das coisas. É um orgulho representar as milhares de mulheres que lutaram pela democracia. É uma bênção de Deus, que me colocou nesse lugar de privilégio e cada dia me esforço para que minhas decisões sejam melhores para todos os bolivianos. Sou uma mulher que ama seu povo e que é firme. Assumi o compromisso de reconciliar meu país.”

 

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