Descrição de chapéu The New York Times

Retratos gigantes geram debate em pequena cidade dos EUA

Retratos serão retirados em junho, mas provocaram conversas entre desconhecidos

The New York Times

Era a tarde de sábado que uma pequena cidade do sul dos EUA temia —um grupo de neonazistas havia prometido fazer um ato em Newnan, na Geórgia, para comemorar o aniversário de Adolf Hitler e protestar contra a imigração ilegal e a remoção de monumentos confederados.

Newnan se orgulhava de sua tranquilidade. A 64 km de Atlanta, foi apelidada de “Cidade das Casas” por sua arquitetura pré-Guerra Civil. Até que um grupo neonazista se reuniu em um parque, em abril de 2018, após seu líder ter dito que a preferência era se encontrar em cidades de maioria branca.

Apenas algumas dezenas participaram do comício —a Newnan que eles imaginavam já não existia mais. Sua população mais que dobrou em menos de 20 anos, com a chegada de pessoas cada vez mais diversas. A cidade passava por mudanças, e muitos na comunidade queriam abraçar essa transformação mais abertamente. 

Um ano após a manifestação, Newnan passou a exibir 17 retratos gigantes de pessoas comuns que moram na cidade. Eles estão pendurados em edifícios na região central.

Neles, há pessoas como Helen Berry, uma afro-americana que trabalhou por anos em uma confecção de roupas, Wiley Driver, trabalhadora branca que dobrava e embalava cobertores em uma fábrica, e Jineet Blanco, garçonete mexicana.

Também há as irmãs Aatika e Zahraw Shah, que foram retratadas usando hiyabs. Elas nasceram na Geórgia e moram em Newnan desde 2012. A reação foi rápida e intensa.

“Sinto que o islã é uma ameaça ao modo de vida americano”, disse o morador James Shelnutt. “Não deve haver retratos positivos disso.” No Facebook, ele incentivou outros a reclamarem, e a discussão se transformou em ataques e xingamentos contra muçulmanos.

As imagens foram feitas para serem inclusivas, para reverter preconceitos e para desfazer casulos que as pessoas criaram na comunidade. E elas fizeram isso —mas também expuseram como a imigração e as mudanças demográficas reformularam a dinâmica racial que definiu o país, acrescentando novas camadas a velhas tensões.

“Não sei se Newnan já havia se olhado tão de perto”, afirmou Robert Hancock, presidente do programa Artista em Residência da cidade, que encomendou a instalação “Vendo Newnan”, criada pela fotógrafa Mary BethMeehan.

A artista esperava que suas fotos forçassem as pessoas a enxergarem umas às outras e sabia do risco de os retratos não corresponderem a suas percepções da cidade. Por isso, passou centenas de horas conversando com residentes —diálogos que, com frequência, se voltavam para questões raciais. Os retratos serão retirados em junho, mas já tiveram efeito duradouro —conseguiram provocar conversas profundas entre desconhecidos.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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