Descrição de chapéu The Washington Post

Secretário da Defesa diz que 'não viu' evidências de conspiração citada por Trump

Presidente usou suposto plano do Irã de atacar quatro embaixadas como justificativa de morte de general

Juliet Eilperin Drew Harwell JOSEPH MARKS
Washington | The Washington Post

As principais autoridades do governo dos Estados Unidos se esforçaram para defender o ataque aéreo que matou um general iraniano no domingo (5) de manhã, reconhecendo que não podiam confirmar a afirmação feita pelo presidente Donald Trump na sexta-feira (10) de que os iranianos planejavam atacar quatro embaixadas americanas.

No programa Face the Nation, da rede de TV CBS, o secretário da Defesa, Mark Esper, disse que "não viu" evidências de um plano iraniano para atacar as quatro embaixadas. Mas declarou que "compartilha a opinião do presidente de que provavelmente —minha expectativa era de que eles fossem atacar nossas embaixadas. As embaixadas são a demonstração mais proeminente da presença americana em um país".

Na sexta-feira, Trump disse que o general iraniano Qassim Suleimani, morto por um ataque de drones dos EUA, planejava atacar quatro embaixadas dos EUA, uma alegação feita para justificar a decisão.

Manifestantes pisam em cartazes com rosto de Trump em ato contra a morte do general Qassim Suleimani em Nova Déli
Manifestantes pisam em cartazes com rosto de Trump em ato contra a morte do general Qassim Suleimani em Nova Déli - Sajjad Hussain/AFP

Essa afirmação estava em desacordo com as avaliações de inteligência de altos funcionários do governo Trump. Na sexta-feira, um membro graduado do governo e um da Defesa, falando sob a condição do anonimato por abordar informações sigilosas, disseram ao Washington Post que estavam cientes de vagas informações sobre uma conspiração contra a embaixada em Bagdá, e que as informações não sugeriam uma trama totalmente formulada. Nenhuma das autoridades disse que havia ameaças contra várias embaixadas.

No domingo, no programa State of the Union, na CNN, Esper defendeu o ataque a Suleimani, dizendo que "interrompeu os ataques" (iranianos) e "redefiniu os termos com o Irã".

O conselheiro de segurança nacional da Casa Branca, Robert O'Brien, também defendeu o ataque no This Week, da ABC, dizendo que o regime iraniano está "tendo uma semana muito ruim" e que os Estados Unidos continuarão com uma "campanha de pressão máxima" contra o regime.

Ele também afirmou que o presidente mostrou "uma contenção incrível" diante das provocações regulares do Irã e também tem sido "moderado em suas negociações" com outros países.

Mas O'Brien não confirmou a afirmação de Trump de que a Casa Branca recebeu informações de que Suleimani, chefe da tropa de elite do Irã, a Força Quds, planejava ataques "iminentes" contra quatro embaixadas dos EUA.

"O que o presidente disse é consistente com o que estamos dizendo. Tínhamos informações muito fortes de que eles estavam procurando matar e ferir americanos em instalações americanas na região", disse O'Brien no Fox News Sunday.

Mesmo com a "inteligência requintada" dos EUA, é difícil "saber exatamente quais são os alvos", disse O'Brien. Ele acrescentou que era apropriado prever que um futuro ataque iraniano "teria atingido embaixadas em pelo menos quatro países".

Pressionado sobre por que a Casa Branca não revelou mais detalhes sobre a suposta ameaça que, segundo eles, teria precipitado o ataque ao general iraniano, O'Brien disse: "Eu adoraria divulgar a informação", mas "esses mesmos fluxos e canais" são importantes para proteger os americanos.

Os principais democratas também rejeitaram a alegação de Esper de que a Turma dos Oito (grupo bipartidário do Congresso que tradicionalmente é informado sobre informações secretas e questões militares) recebeu informações sobre a ameaça de ataque à embaixada em Bagdá. O deputado Adam Schiff, da Califórnia, membro da Turma dos Oito, contradisse a afirmação de Esper no Face the Nation sobre o comunicado ao Congresso, dizendo que faltou "especificidade" sobre uma potencial ameaça à embaixada. Schiff disse que ele e vários membros da Turma dos Oito estão insatisfeitos com as evidências apresentadas como base para o ataque.

Trump e Esper estão "embaralhando" os detalhes, acrescentou Schiff, "exagerando o que as informações mostram". No que se refere a informações que poderiam levar a uma potencial guerra no Irã, disse ele, "é uma coisa perigosa de se fazer".

A alegação de Trump sobre ameaças contra embaixadas também não fez parte de uma informação ao Senado no início desta semana, disse o senador republicano Mike Lee, de Utah, no State of the Union da CNN.

"Isso foi novidade para mim", disse ele. "Certamente não foi algo que me lembro de ter sido mencionado no briefing secreto."

Lee também criticou o governo Trump por não justificar suficientemente o ataque. Anteriormente, ele disse que o briefing foi o "pior" que recebeu em nove anos no Senado.

O senador democrata Chris Coons, de Delaware, também falando no Fox News Sunday, criticou o governo por não divulgar informações mais específicas durante o briefing a portas fechadas.

"Recebemos informações menos detalhadas do que as que o presidente Trump compartilhou com Laura Ingraham (apresentadora da Fox News)", disse Coons.

Matar Suleimani eliminou "um dos nossos piores inimigos no Oriente Médio (...) Mas a pergunta principal é: isso nos tornou mais seguros?", disse Coons.

O senador republicano Rand Paul, do Kentucky, no programa Meet the Press, da NBC, disse que as autoridades do governo "desdenharam do Congresso" durante o briefing.

Ele também criticou o governo por confiar em uma autorização para uso da força militar da época de George W. Bush para justificar o ataque.

"Precisamos ter um debate completo no Congresso", disse ele. "Eu quero ter esse debate e trazer nossos jovens para casa."

O senador democrata Michael Bennett, do Colorado, disse no Meet the Press que os atos de Trump "fortaleceram a ala mais dura do governo iraniano".

"Este é um momento em que um escrutínio intenso do Congresso sobre o presidente é importante, quem quer que seja o presidente", disse Bennett, que também é um candidato com poucas chances à nomeação presidencial democrata para 2020.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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