Descrição de chapéu The New York Times

Tropas americanas se preparam para o pior no Oriente Médio

Eventual guerra com Irã será travada mais por forças aéreas e navais, além de ciberataques

Thomas Gibbons-Neff
Washington | The New York Times

Depois do ataque de drone que matou um general iraniano de alto escalão na semana passada, unidades militares americanas estacionadas no Iraque e na Síria se preparam para possíveis ataques de forças iranianas ou suas representantes.

Não está claro que forma pode assumir um ataque retaliatório iraniano após a morte do general Qassim Suleimani, comandante da segurança e inteligência iraniana responsável pela morte de centenas de tropas ao longo dos anos, e de Abu Mahdi al-Muhandis, funcionário governamental iraquiano e comandante de uma milícia poderosa.

Mas as forças dos EUA na região já estão reforçando seus postos avançados, bases e aeródromos.

O Pentágono determinou o envio de 4.500 militares adicionais à região, além dos cerca de 50 mil que já se encontram ali.

Soldado se prepara para entrar em ônibus e ser enviado ao Oriente Médio, em Fort Bragg, na Carolina do Norte - Travis Dove - 04.jan.20/The New York Times

Tropas adicionais enviadas ao Iraque e Kuait

O envio de novas forças foi motivado por vários fatos: a morte de um empreiteiro americano no Iraque em 27 de dezembro em um ataque com foguete lançado por uma milícia apoiada pelo Irã; protestos em volta da embaixada dos EUA em Bagdá depois disso, após uma série de ataques aéreos americanos contra a milícia; e o ataque de drone da semana passada contra Suleimani e al-Muhandis.

As novas tropas vão atuar principalmente como força defensora, para reforçar as bases e instalações americanas na região e reagir a possíveis ataques. Não há grandes ofensivas terrestres planejadas para elas.

Quais unidades estão sendo mobilizadas

Quatro mil militares —uma brigada— da 82ª Divisão Aerotransportada, sediada em Fort Bragg, Carolina do Norte, começaram a ser despachadas ao Kuait. Elas integram a força de resposta global da divisão, que é mantida de prontidão para responder a emergências específicas.

Um oficial militar sênior americano disse que o envio de paraquedistas da 82ª Divisão e outras forças terrestres tem finalidade defensiva. A ideia é posicionar no Oriente Médio mais tropas que possam ser despachadas rapidamente para defender ou reforçar as defesas de embaixadas, consulados e bases militares dos EUA.

Cerca de cem outros paraquedistas da Equipe de Combate da 173ª Brigada Aerotransportada, sediada em Vicenza, Itália, também serão enviados ao Oriente Médio, segundo um funcionário do Departamento de Defesa. O envio desses militares foi noticiado inicialmente pela publicação militar Stars and Stripes.

O oficial observou que o planejamento para um eventual conflito mais amplo com o Irã não abrange qualquer grande invasão terrestre como ocorreu na Guerra do Golfo, em 1991, ou na Guerra do Iraque, em 2003. Em vez disso, uma guerra prolongada será travada mais por forças aéreas e navais, além de ciberataques, para atingir alvos iranianos ou alvos de forças apoiadas pelo Irã.

Outras unidades mobilizadas incluem cerca de cem marines do 2º Batalhão do 7º Regimento de Marines. O contingente está sendo enviado ao Kuait como parte de uma força-tarefa com o objetivo especial de reagir a emergências no Oriente Médio.

Os marines, que acabam de ajudar na retirada de forças americanas do nordeste da Síria, estão reforçando dezenas de funcionários de segurança posicionados na embaixada dos EUA em Bagdá. O complexo da embaixada é grande, cobrindo uma área de mais de 0,4 quilômetro quadrado, com postos de guardas, áreas de alojamento, refeitórios e pequenas lojas.

Cerca de cem comandos do 75º Regimento de Rangers foram mobilizados logo após o ataque de drone da semana passada. Segundo um funcionário do Departamento de Defesa, os rangers, que integram o Comando Conjunto de Operações Especiais, provavelmente atuarão como força de reação se forças apoiadas pelo Irã lançarem um ataque coordenado contra qualquer posição americana.

A 26ª Unidade Expedicionária de Marines abrange 2.200 marines e marinheiros, sendo composta de um batalhão de infantaria, unidade de logística e esquadrão de aeronaves (helicópteros de transporte e jatos de ataque). Elas estão a bordo de navios da Marinha americana no Grupo Anfíbio de Pronta Resposta Bataan, composto de 2.000 marinheiros, que está se dirigindo ao Oriente Médio como parte de uma mobilização previamente programada.

Essas Unidades Expedicionárias de Marines atuam como força de resposta global há anos. Suas mobilizações no Golfo Pérsico em várias ocasiões já as levaram a dar apoio a operações no Iraque, Síria e Afeganistão.

As tropas que já estão na região

Entre 45 mil e 65 mil militares –o número exato pode variar a cada dia— já estão estacionados na Arábia Saudita e outros países do Golfo Pérsico, incluindo 5.500 no Iraque e 600 na Síria.

Em resposta aos ataques e provocações iranianos lançados desde maio, o Pentágono enviou cerca de 14 mil militares adicionais à região do Golfo Pérsico, incluindo 3.500 a mais à Arábia Saudita.

Os equipamentos militares incluem aeronaves de detecção precoce, aviões de patrulha marítima, baterias de mísseis de defesa Patriot, bombardeiros B-52, um grupo de ataque aerotransportado, drones Reaper armados e outros militares de apoio e engenharia.

Cerca de 2.000 tropas americanas estão na Turquia, em sua maioria na base aérea de Incirlik, que os EUA continuam a usar como aeródromo apesar das tensões recentes com a Turquia, também membro da Otan. No auge do conflito contra o Estado Islâmico, em 2016 e 2017, aviões americanos lançaram centenas de ataques a partir da base.

O Bahrein sedia a 5ª Frota da Marinha americana, que comanda navios de guerra que patrulham a região.

A grande base de Al Udeid, no Catar, tem cerca de 10 mil tropas americanas. Ela é o QG das operações aéreas americanas na região e sedia uma frota de aviões de reabastecimento aéreo, além de aviões de reconhecimento e bombardeiros.

Soldados da divisão Airborne de Fort Bragg esperam para serem transportados ao Oriente Médio em Fort Bragg, na Carolina do Norte - Travis Dove - 04.jan.20/The New York Times

O que as forças americanas fazem

As forças americanas na região atuam como o sistema nervoso central das guerras prolongadas travadas pelos EUA desde os ataques de 11 de Setembro.

Os soldados, marinheiros, marines e tripulantes de aeronaves operam os QGs principais. Eles reabastecem os 12 mil a 13 mil militares americanos no Afeganistão e lançam centenas de missões de vigilância na região. Eles treinam forças locais.

E, até o domingo passado (5), quando a missão liderada pelos EUA no Iraque e Síria suspendeu sua campanha contra o Estado Islâmico para focar sobre a proteção de suas forças contra potenciais ataques, ela combateu o EI até quase derrotá-lo. Países aliados como o Canadá também suspenderam suas operações, dando à organização terrorista uma oportunidade para ou lançar mais ataques ou pelo menos se recuperar.

O número de tropas americanas na região muda substancialmente dependendo da presença de um grupo de porta-aviões de ataque (atualmente liderado pelo porta-aviões USS Harry S. Truman) e de um grupo grande de marines se encontrar presente nessas águas ou não. A 26ª Unidade Expedicionária de Marines deve passar pelo Mediterrâneo em breve e dirigir-se ao Mar Vermelho, segundo o rastreador de tropas do Instituto Naval americano.

O porta-aviões Truman ficará na região até fevereiro ou março, quando será substituído ou reforçado pelo porta-aviões USS Dwight D. Eisenhower, quando este chegar do Mediterrâneo.

As tripulações aéreas do Eisenhower já receberam instruções sobre potenciais lançamentos de missões de bombardeios de longo alcance.

Tradução de Clara Allain

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