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Sistema americano tornou absolvição de Trump tão certa quanto seu processo

Processo de impeachment contra presidente americano termina nesta quarta (5)

São Paulo

Donald Trump mal tinha esquentado a cadeira no Salão Oval, em 2017, e duas coisas pareciam certas em seu futuro ali: em algum momento ele responderia a um processo de impeachment; ele se safaria desse processo.

A chance de isso não ocorrer se amparava na eleição de 2018, caso seu Partido Republicano tivesse perdido a maioria no Senado. Afinal, a natureza estanque do bipartidarismo americano faz com que o julgamento político que culminou na votação desta quarta (5) no Senado seja jogo jogado bem antes da conclusão.

Não que os lances não sejam relevantes para serem acompanhados ou que não deixem consequências (eles são, eles deixam). Essa marca escarlate perdurará por toda a carreira política de Trump, e parecerá mais grave quando vista em retrospecto, tal como foi com o democrata Bill Clinton.

Para efeito imediato, porém, em um sistema de dois partidos no qual raramente se troca de lado, seria preciso bem mais para que os republicanos concordassem em tirar um correligionário com bom índice de popularidade da Presidência e instalar seu vice, opaco no cenário nacional, às vésperas de uma eleição.

O presidente dos EUA, Donald Trump, chega à Câmara dos Deputados para fazer o discurso do Estado da União
O presidente dos EUA, Donald Trump, chega à Câmara dos Deputados para fazer o discurso do Estado da União - Olivier Douliery/AFP

Uma falha incontornável e de consequências muito mais calamitosas para o país —como foi o Watergate, quando se descobriu que o republicano Richard Nixon mandara instalar escutas em um comitê eleitoral adversário, em 1972— poderia mover o partido nessa direção, sob pena de se ver também ele manchado. 

Mas a prevaricação cometida por Trump ao usar ajuda financeira americana para pressionar outro governo a lhe entregar informações de um desafeto político, grave e eticamente condenável, respinga mais sobre o homem do que sobre o partido ou o cargo.

E, neste sentido, os meses de expectativa por uma falha impichável acabaram por favorecer Trump, cujo comportamento errático e errado é frequentemente lido como “falta de noção” e engolido. 

Afinal, é difícil imaginar que alguém em Washington tenha se surpreendido quando vieram à tona os telefonemas entre o americano e o presidente ucraniano Volodimir Zelenski, de quem Trump cobrou investigar negócios suspeitos de Hunter Biden, filho de Joe Biden, seu possível rival nas eleições de novembro. 

Ainda assim, após darem em nada os meses de investigação sobre um suposto conluio do presidente com agentes russos para prejudicar sua adversária na eleição de 2016, Hillary Clinton, era crucial para a oposição impor o limite —conceito que Trump ou ignora ou manipula muito bem. 

Caso contrário, passariam os democratas como tíbios e lenientes, adjetivos que pegam especialmente mal entre os assertivos americanos.

Mais de um senador republicano, no processo, classificou os malfeitos de Trump como errados e inapropriados. Envolver um país estrangeiro de forma escusa em um assunto nacional fere os brios da soberania americana muito mais do que o espectro de corrupção em se usar dinheiro como forma de pressionar alguém.

Rob Portman, um senador republicano de Ohio bastante respeitado e tido como moderado na cacofonia da polarização, foi um deles. Mas, afirmou, a atitude de Trump, embora errada, “não está no nível para remover um presidente eleito do cargo e da cédula eleitoral no meio de uma eleição”.

Serve de recado para o presidente, serve também para a oposição e para os que banalizam o instrumento do impeachment, cujas marcas para a estabilidade social, econômica e política de um país são indeléveis.

Dos outros três ocupantes da Casa Branca que sofreram processo de impeachment, o Senado absolveu dois (Clinton em 1998 e Andrew Johnson 130 anos antes). O terceiro é Nixon, que renunciou em 1974 para fugir da condenação. 

O Watergate ainda é sinônimo de escândalo político cabeludo mundo afora.

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