Boca de urna aponta vitória de Netanyahu em eleições de Israel

Votação registra alto comparecimento às urnas, mas resultado ainda não garante formação de governo

Jerusalém e São Paulo | AFP e Reuters

O partido Likud, do premiê Binyamin Netanyahu, foi o mais votado nas eleições realizadas em Israel nesta segunda-feira (2): a legenda conseguiu entre 36 e 37 cadeiras, contra 32 a 34 do Azul e Branco, principal legenda rival, segundo pesquisas de boca de urna divulgadas pelos três principais canais de TV do país. 

Os levantamentos indicam ainda que o bloco de apoio a Netanyahu, que une partidos de direita, soma 59 ou 60 assentos (o número varia dependendo do canal). Com isso, faltaria apenas um ou dois para conseguir a maioria e formar governo.

O bloco de centro-esquerda e árabes, que inclui o Azul e Branco, somou de 54 a 55 cadeiras, de acordo com as pesquisas.

O premiê Binyamin Netanyahu deposita seu voto em Jerusalém - Marc Israel Sellem/Xinhua

Os números apontam um avanço de Netanyahu em relação à última votação, em setembro, quando o Likud teve 32 assentos e o Azul e Branco, 33. 

O bom resultado, no entanto, pode não garantir o fim do impasse político em Israel. Na votação de abril de 2019, o bloco então liderado pelo Likud obteve 65 assentos, mas depois não houve consenso entre seus integrantes para formar governo e o país precisou voltar às urnas, situação que pode se repetir agora. 

Isso ocorreu porque uma das siglas, o Israel Nossa Casa, se recusou a fazer parte da coalizão governista e desde então tem se mantido como independente —na votação desta segunda, as seis cadeiras obtidas pelo partido não estão mais incluídas no bloco de apoio ao premiê.   

Os resultados oficiais devem começar a ser divulgados na noite desta segunda. A expectativa é que os partidos de direita se reúnam na manhã de terça para confirmar ou não seu apoio a um novo governo de Netanyahu.

"Eu amo vocês e agradeço do fundo do meu coração. Essa noite foi uma vitória gigantesca", disse o primeiro-ministro em discurso para apoiadores em Tel Aviv. 

Em clima de comemoração, Netanyahu afirmou que o resultado desta segunda é sua "maior e mais saborosa vitória" por ter contrariado as expectativas dos analistas. 

O premiê disse ainda que pretende governar para todos os israelenses e que vai trabalhar para resolver as divisões políticas que marcaram o país na sequência de pleitos —foram três votações em menos de 11 meses. Ele afirmou também que quer buscar novos acordos de paz com países árabes.     

Seu opositor, Benny Gantz, 60, (líder do Azul e Branco) no entanto, não admitiu a derrota e disse a seus apoiadores que iria esperar a divulgação oficial dos resultados. "Eu entendo a sensação de desapontamento, mas nós não vamos desistir do nossos princípios ou do nosso caminho", afirmou ele também em Tel Aviv.

Nesta segunda-feira, os locais de votação ficaram abertos de 7h (2h em Brasília) a 22h (17h). Mais de 6 milhões estavam aptos a votar, e o comparecimento atingiu 71%, nível superior ao das últimas duas votações. 

Havia temores de que a epidemia do novo coronavírus pudesse desmotivar os eleitores a irem votar, mas isso aparentemente não ocorreu. O país, que registrou dez casos da doença, criou seções especiais de votação para pessoas que estavam em quarentena

Após depositar seu voto, Netanyahu disse que este era um dia de orgulho e convocou os cidadãos. Depois da divulgação da boca de urna, ele publicou "obrigado" em uma rede social. O premiê tem o apoio dos partidos judaicos ultraortodoxos Shas, Judaísmo Unido da Torá e da lista Yamina (direita radical), do atual ministro da Defesa, Naftali Bennett.  

Ao votar na cidade de Rosh Haayin, Gantz, criticou o rival. "Espero que hoje seja o dia de mudar, acabar com a difamação e com as mentiras", declarou.

O Likud foi multado em cerca de 7.500 shekels (R$ 9,660) por espalhar um vídeo adulterado de Gantz. Durante a campanha, Netanyahu retratou o rival como um covarde, que ficaria dependente do apoio de políticos árabes para governar.

O Azul e Branco tem o apoio dos partidos de centro-esquerda e poderia receber o respaldo da Lista Unida, que agrega legendas árabes israelenses, grupo que surpreendeu em setembro e se tornou a terceira força do Knesset, o Parlamento de Israel.

A Lista Unida manteve o terceiro lugar entre os partidos, com 14 assentos, segundo a boca de urna. O partido tenta se beneficiar da frustração entre a minoria árabe israelense (20% da população) com o plano apresentado pelos Estados Unidos para solucionar o conflito israelense-palestino, um projeto aplaudido por Israel e rejeitado pelos palestinos.

A proposta do presidente Donald Trump prevê a conversão de Jerusalém na capital indivisível de Israel e a transferência do controle de uma dezena de vilarejos e localidades árabes israelenses a um futuro Estado palestino. 

Netanyahu centrou a campanha no plano de Trump, prometendo a rápida anexação do vale do Jordão e de colônias israelenses na Cisjordânia, território palestino ocupado por Israel em 1967, como contempla o projeto americano.

Gantz, que também apoia o projeto americano, baseou a campanha nos problemas judiciais do primeiro-ministro, no poder há 11 anos consecutivos (14, se somados três anos em que governou o país durante a década de 1990).

Nos últimos meses, o processo que investiga o atual primeiro-ministro por corrupção avançou: ele foi indiciado oficialmente pelas acusações de fraude, abuso de poder e quebra de confiança em três casos diferentes. O julgamento está marcado para começar em 17 de março.

A investigação seguirá mesmo que Netanyahu consiga renovar o mandato. Para obter imunidade, ele precisa de aprovação do Parlamento. Houve uma tentativa em janeiro, mas o premiê desistiu do pedido pouco antes da sessão que debateria o caso. Ele poderá tentar de novo se conseguir ampliar sua base de apoio após a votação desta segunda. 

Neste contexto de rivalidade entre Netanyahu e Gantz, o Israel Nossa Casa, que não simpatiza com nenhum dos grandes blocos, pode ser o fiel da balança. Seu líder, Avigdor Lieberman, é um nacionalista laico hostil aos partidos árabes e judeus ortodoxos.

Ele deve conquistar entre seis cobiçadas cadeiras, mas, como das duas vezes anteriores, não se comprometeu nem com direitistas nem com esquerdistas. 

Lieberman até se identifica com a direita quando se trata de diplomacia e relacionamento com os palestinos. Mas está mais próximo da esquerda progressista sobre a separação entre religião e Estado. 

Israel teve duas eleições em 2019, em abril e em setembro. Nas duas ocasiões, Netanyahu e Gantz tentaram formar governo, mas não conseguiram um acordo entre os partidos. Um dos entraves foi que Netanyahu se recusou a abrir mão da liderança do Likud e, por consequência, do cargo de premiê. 

 
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