Descrição de chapéu Governo Trump

Capital palestina proposta por Trump é vista como jaula por moradores locais

Murado e vigiado, vilarejo de Abu Dis figura em plano de paz de americano

Abu Dis (Cisjordânia)

Na entrada do vilarejo de Abu Dis, pouco mais de quatro quilômetros a leste de Jerusalém, uma sequência de placas vermelhas alerta: “Esta é uma estrada que leva a uma vila palestina. A entrada de cidadãos israelenses é perigosa”.

Alguns metros adiante, a navegação do Waze, aplicativo de origem israelense para orientação e rotas, simplesmente para de funcionar. No lugar do trajeto, o app indica uma espécie de fim da linha no mapa —como se a larga avenida em frente, congestionada e repleta de todo tipo de comércio, fosse uma miragem.

Criancas palestinas caminham perto de muro que separa Jerusalem de Abu Dis, na Cisjordania - Lalo de Almeida/Folhapress

Apesar de ignorada pelo aplicativo, Abu Dis foi destacada no mapa da geopolítica global pelo presidente americano, Donald Trump, que apontou a cidade, parte do subúrbio de Jerusalém, como capital do Estado Palestino em seu plano de paz para o Oriente Médio

Apresentado há um mês, o plano contempla as aspirações da direita israelense, representada pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que será ou não confirmado no posto mais importante da política de Israel nas eleições da próxima segunda (2). 

Apoiada pelo governo brasileiro, a visão de paz da dobradinha Trump-Netanyahu foi rejeitada pela Autoridade Nacional Palestina, que rompeu com EUA e Israel.

“Do ponto de vista político, nós recusamos qualquer capital que não inclua partes de Jerusalém”, explica Zeidoun Salah, 45, professor de biologia da Universidade Al Quds, fundada no local em 1984 e que hoje tem 12 departamentos e mais de 12 mil estudantes. 

“Do ponto de vista geográfico e estratégico, Abu Dis não é uma cidade. É uma vila e é caótica. Foi escolhida só porque é muito próxima de Jerusalém, nossa capital histórica”, diz ele, apontando para o Domo da Rocha, construção islâmica do século 7 cuja cúpula dourada, símbolo de Jerusalém, é avistada ao longe desde a empoeirada Abu Dis. 

“Concordamos com o plano [de paz] de Oslo, mas Israel não o cumpriu. Agora, ainda que concordássemos com este plano, achamos que Israel não o cumpriria também.”

Muro que separa Jerusalem de Abu Dis, na Cisjordania - Lalo de Almeida/Folhapress

Para o estudante de medicina Marwan Shteya, 20, se não fosse pela universidade, Abu Dis não teria “nada”. “Uma capital precisa de estrutura, de segurança e de uma vida própria. Não temos nada disso aqui.”

O foco do plano de Trump em Abu Dis não é uma ideia original. Depois do acordo de paz de Oslo, conduzido por Bill Clinton em 1993, Abu Dis foi canteiro de uma grande obra para estabelecer ali o parlamento do futuro Estado Palestino que parecia próximo de ser realidade. 

Majoritariamente em território palestino e com uma pequena parte situada dentro dos limites do município de Jerusalém, Abu Dis era híbrida e parecia capaz de borrar as fronteiras entre os dois povos num potencial acordo.

E, com isso, amainar a eterna disputa pelos territórios sagrados de judeus e muçulmanos dentro da cidade murada no centro de Jerusalém.

Em 1995, Abu Dis também foi cogitada por negociações extraoficiais entre Israel e Autoridade Nacional Palestina para ser uma espécie de capital temporária do Estado Palestino que, numa segunda fase, incorporaria partes a leste de Jerusalém.

O acordo não assinado entre as partes foi comemorado por seus negociadores poucos dias antes de o assassinato do então premiê de Israel, Yitzhak Rabin (1922-1995), por um extremista israelense, colocar o plano por água abaixo. 

A cidade de Jesuralem, vista de Abu Dis - Lalo de Almeida/Folhapress

A construção do parlamento de Abu Adis, inacabada, tornou-se então um elefante branco cuja ruína é também símbolo dos descaminhos do processo de paz na região.

Com a eclosão da segunda Intifada, em 2000, e o aumento de atentados suicidas em cidades israelenses, Israel decidiu erguer um muro de concreto de oito metros ao redor de territórios palestinos, incluindo Abu Dis.

Para o engenheiro Mohammad Khalad, 25, o confinamento de Abu Dis é que faz o local ser interessante para o plano de paz de Trump. “Olha ali o muro. A cidade é cercada e controlada, por isso querem a capital aqui.”

O muro serpenteia a paisagem, colorido por pichações e grafites, alguns dos quais de homens-bomba palestinos tratados como mártires. 

De um lado estão os vales e as oliveiras que antecedem a vista das construções sagradas dos muçulmanos, em Jerusalém. Do outro lado do muro, estão as construções mal-ajambradas e as ruas sujas e sem calçadas de Abu Dis.

“Antes, eu levava cinco minutos de carro daqui até a mesquita de Al-Aqsa, na cidade velha, em Jerusalém. Hoje, com o muro, eu levo mais de uma hora para contorná-lo e passar no posto de checagem do Exército de Israel”, diz o professor Salah, da Al Quds. 

“Abu Dis é uma cela, uma jaula, cercada de muros e checkpoints, em que soldados podem te deixar passar ou te barrar, sem motivo aparente”, avalia ele. “Somos prisioneiros aqui. Vivemos sob estresse e não podemos determinar nossas vidas. Como podemos aceitar Abu Dis como capital? Não dá para ter uma vida normal aqui.”

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