Equador admite que número de infectados por coronavírus é o dobro do anunciado

Pandemia atinge fortemente Guayaquil, e sistema de saúde e funerário entrou em colapso

Buenos Aires

A ministra do Interior do Equador, María Paula Romo, e o ministro da Saúde, Juan Carlos Zevallos, apresentaram nesta quinta-feira (23) uma atualização do número de infectados pelo novo coronavírus no país.

Após revisar provas e somar casos que estavam subnotificados, explicou Romo, o número subiu para 22.160 casos confirmados, o dobro da cifra apresentada apenas horas antes, além de 1.028 mortos.

A pandemia vem castigando duramente o país andino, tendo causado um colapso no sistema de saúde e funerário de Guayaquil, cidade costeira de 2,2 milhões de habitantes para a qual foi enviada uma força-tarefa do Exército para realizar enterros de corpos que demoraram a serem recolhidos.

Funcionários do Ministério da Saúde do Equador visitam complexo residencial no norte de Guayaquil para fazer exames de coronavírus nos moradores - Jose Sanchez/AFP

Ainda nesta quinta (23), um levantamento do New York Times comparou o total de mortes, por qualquer causa, registradas no país entre 1º de março e 15 de abril com a média dos anos anteriores —2020 teve cerca de 7.600 mortes a mais.

Esse número é aproximadamente 15 vezes maior que o número de vítimas da Covid-19 divulgado pelo governo em 15 de abril: 503.

A defasagem indica que o total de mortes pela doença pode ser ainda mais alto, segundo o jornal, que também relata que pode haver inconsistências nos dados de óbitos analisados.

Romo divulgou ainda os índices relacionados a sanções aplicadas contra pessoas que violaram a quarentena e o toque de recolher —um total de 21.255 em todo o país.

Desde o primeiro caso registrado, no fim de fevereiro, o país aumentou sua capacidade de realizar testes.

Os primeiros exames em outras cidades tiveram que ser enviados aos EUA, pois apenas na capital do país, Quito, havia condições de realizar o procedimento que detecta o vírus. De lá para cá, segundo a ministra, já foram feitos mais de 58 mil testes no Equador.

Ainda assim, como o surgimento da doença foi muito rápido, principalmente em Guayaquil, o governo da cidade admite que o número de mortos pode ser ainda maior, uma vez que centenas de pessoas foram enterradas sem serem testadas.

A lotação dos hospitais e dos necrotérios na segunda cidade mais importante do Equador obrigou pessoas a tirarem os corpos de parentes que morriam em casa e levá-los para parques e outras áreas públicas da cidade.

Segundo o Nieman Reports, da Universidade Harvard, 13 jornalistas e profissionais de imprensa morreram durante a cobertura da pandemia na cidade. Entre eles, estão Victor Hugo Peña, da Ecuavisa, Paúl Tobar, do canal Uno, e Augusto Itarburú, do jornal El Telégrafo.

As Redações estão trabalhando com cerca de 40% do pessoal, porque muitos estão afastados, com sintomas da doença.

A situação no país por causa da pandemia começou a se agravar em meados de março.

A chegada do coronavírus só fez piorar uma crise política iniciada em outubro de 2019 devido aos ajustes que a gestão do presidente Lenín Moreno pretendia fazer no preço dos combustíveis para se adequar a metas impostas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), a quem o país pediu empréstimo de US$ 4 bilhões (R$ 21,1 bilhões).

O episódio levou a fortes enfrentamentos, especialmente entre as comunidades indígenas e camponesas e as forças de segurança, causando sete mortes e deixando 1.340 pessoas feridas.

Ao final, Moreno recuou e revogou o polêmico decreto, adiando a decisão para um ajuste em algum outro setor, ainda não definido.

Assim, a fricção entre governo e sociedade, principalmente a parte rural do país, é grande e vem debilitando a imagem do presidente.

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