Milhares protestam contra confinamento na Alemanha

Manifestações tomaram ruas de mais de dez cidades pelo país

Berlim | AFP

Milhares de pessoas, sobretudo pertencentes à ultradireita e à esquerda radical, reuniram-se em mais de dez cidades alemãs neste sábado (16) para protestar contra medidas de isolamento social, em um movimento que preocupa as autoridades.

Todas as marchas foram vigiadas pela polícia, obrigada a agir em alguns casos.

Em Stuttgart, o conselho da cidade autorizou a manifestação desde que não reunisse mais de 5.000 pessoas. No entanto, como um número maior de ativistas participou do evento, a polícia teve que dispersar parte dos manifestantes.

Em Munique, no sul do país, algo semelhante aconteceu. Mil manifestantes —o número autorizado— se reuniram no parque onde o Festival da Cerveja geralmente é realizado.

Em Berlim, policiais prendem manifestante que protestava contra medidas de isolamento social na Alemanha
Em Berlim, policiais prendem manifestante que protestava contra medidas de isolamento social na Alemanha - Tobias Schwarz/AFP

No entanto, outras tantas pessoas se agruparam nas proximidades, sem respeitar as regras de distanciamento social, informou a polícia, que também interveio para dispersar a multidão.

Em Frankfurt, cerca de 1.500 ativistas se reuniram, enquanto um número semelhante de contra-manifestantes saiu às ruas gritando "nazistas!”.

Também foram realizadas marchas em Berlim, Bremen, Nuremberg, Leipzig e Dortmund, todas com um influxo de várias centenas de manifestantes.

"Estamos aqui porque nos preocupamos com as liberdades públicas", explicou Sabine, 50, em Dortmund.

"Escondendo-se na luta contra a pandemia, que realmente retrocedeu na Alemanha e que está quase controlada aqui em Dortmund, são adotadas leis [excepcionais] que fogem à Constituição", denunciou.

Esses tipos de protestos são convocados na Alemanha desde o início de abril, reunindo cada vez mais seguidores.

Manifestantes —militantes extremistas, defensores das liberdades civis, oponentes a vacinas e até anti-semitas— protestam contra o uso de máscaras ou as restrições de movimento que permanecem em vigor após a saída do confinamento. Alguns reivindicam o direito de se contaminar com o coronavírus.

Usando slogans como “nós somos o povo" ou “liberdade, liberdade!", eles se referem aos protestos que antecederam a queda do Muro de Berlim, em 1989.

Os manifestantes têm o apoio do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que espera tirar vantagem dos protestos.

O fenômeno está longe de ser marginal. Um em cada quatro alemães diz que entende esses protestos, de acordo com uma pesquisa do instituto Civey.

A chanceler Angela Merkel chamou os atos de "alarmantes", segundo líderes do seu partido, e acusou a Rússia de estar por trás de operações de desinformação que alimentam as manifestações, de acordo com o jornal Bild.

Essas mobilizações parecem ter surpreendido as autoridades, especialmente porque aumentam de intensidade no momento em que a Alemanha, com um número de mortes menos dramático do que seus vizinhos europeus, começou a levantar consideravelmente as restrições impostas para conter o coronavírus.

Para alguns políticos, esses protestos contra o confinamento são uma reminiscência do movimento islamofóbico alemão Pegida.

As marchas semanais reuniram centenas de pessoas a partir do final de 2014, em Dresden, e aumentaram ao longo das semanas em que Merkel decidiu abrir as fronteiras para refugiados iraquianos e sírios, em 2015.

Essas marchas foram o terreno fértil para o surgimento da AfD, que entrou no Bundestag (Parlamento) em 2017.

Os protestos "reúnem anti-semitas, conspiradores e negacionistas", diz Felix Klein, comissário do governo para a luta contra o anti-semitismo. Para ele, "não é surpreendente que as teorias anti-semitas floresçam novamente na atual crise".

"Os judeus foram responsabilizados pelas epidemias da peste, foram acusados ​​de envenenar os poços", lembrou em artigo no jornal Süddeutsche Zeitung.

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