Revolta com caso Floyd mostra ponto de não retorno contra racismo, afirma Graça Machel

Para viúva de Mandela, maior impacto da Covid-19 na África será econômico

São Paulo

Viúva de dois ícones africanos, o moçambicano Samora Machel e o sul-africano Nelson Mandela, Graça Machel, 74, é hoje uma das vozes mais respeitadas, em seu continente e globalmente, na discussão de temas ligados a pobreza, igualdade de gênero e combate à discriminação racial.

Para a ativista moçambicana, a revolta internacional com o assassinato do negro americano George Floyd por um policial branco demonstra que a humanidade atingiu um “ponto de não retorno” ao não tolerar mais episódios do tipo.

A ativista moçambicana Graça Machel, viúva de Nelson Mandela, durante visita ao Brasil
A ativista moçambicana Graça Machel, viúva de Nelson Mandela, durante visita ao Brasil - Marcos Nagelstein - 12.mai.19/Folhapress

“As circunstâncias foram como um fósforo que acionou um fogo latente no íntimo das pessoas, independentemente da sua raça, origem social, étnica ou econômica”, afirma, em entrevista por email.

Graça não quis responder a perguntas sobre o papel da OMS (Organização Mundial da Saúde) no combate ao coronavírus e as críticas à entidade feitas pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Também não se pronunciou sobre a polêmica das remoções de estátuas de figuras acusadas de serem racistas nem declarou quem prefere que vença a eleição presidencial americana de novembro.

Ela também diz que o impacto do coronavírus na África será sentido mais em termos econômicos do que de saúde pública.

Graça participou nesta terça-feira (23) de uma “live” promovida pela United Way Brasil (UWB), filial de uma organização filantrópica criada há 130 anos nos EUA e que hoje tem sedes em mais de 40 países.

O debate, sobre desigualdades e a pandemia, teve também a participação do apresentador Luciano Huck. No evento, ela disse a Covid-19 nos lembra que desigualdade social não é algo criado por Deus.

Como a sra. avalia a forma como o coronavírus está afetando a África em particular e os países pobres em geral? Em fevereiro de 2020, quando o surto do novo coronavírus estava restrito quase exclusivamente à China, os especialistas soaram o alarme: assim que o vírus chegasse à África, esperava-se uma catástrofe incontrolável, devido aos sistemas precários de saúde.

Até agora, no entanto, os números não fornecem um cenário de catástrofe para o continente africano. Provavelmente, porque os governos locais também reagiram cedo e de forma abrangente. Mesmo que o número real de casos seja maior devido à falta de testagem, já está claro que a evolução da pandemia no continente é menos fatal do que, por exemplo, na Europa.

Na África, a maior ameaça poderá ser o impacto econômico, mais do que o vírus propriamente dito. É preciso lembrar que para muitos não há qualquer rede de segurança social, e onde há, não chega para aliviar o sofrimento diário a que são expostos particularmente os mais vulneráveis.

De um universo de 28 milhões de moçambicanos, 46,1% vivem abaixo da linha da pobreza, sendo que o sistema de segurança social alcança pouco menos de 4 milhões de pessoas vulneráveis. Não obstante esta realidade, o fato de muito cedo se terem tomado medidas preventivas, abraçando lições de outros países, deve ter contribuído para os níveis baixos de mortalidade, quiçá de contaminação.

A sra. teme que aconteça com a África, no caso do coronavírus, algo similar ao ocorrido com o HIV/Aids? Ou seja, que uma doença que não surgiu no continente acabe afetando-o de forma mais acentuada do que no restante do mundo? O vírus apanhou toda a gente de surpresa e despreparada. Numa época com milhares de aviões atravessando continentes, propagou-se como um raio. E não é por acaso que foi o hemisfério norte primeiro. Quem viajava mais, duas, três vezes por semana? Houve pânico.

E a máquina da mídia? As mídias sociais? Tudo ficou ampliado exponencialmente. Os vírus anteriores eram regionalizados. Este tornou-se global numa questão de dias.

Não só na África, mas ao nível global, o coronavírus trouxe a nu as desigualdades sociais, mas também, e sobretudo, acentuou ainda mais as nossas fragilidades, particularmente os sistemas de saúde e social e a economia de forma geral.

O mundo pós-Covid-19 não será mais o mesmo, terá que reconfigurar as relações entre países e povos e ganhar uma nova forma, particularmente no que tange às dinâmicas demográficas (migrações, oferta de mão de obra etc.).

Como garantir que uma eventual vacina contra a doença seja aplicada de forma rápida e acessível para as populações pobres, na África e no mundo em geral? Os avanços tecnológicos, associados com o desenvolvimento das cadeias de distribuição ao nível global, permitem que a vacina chegue o mais rapidamente possível a lugares anteriormente considerados inacessíveis.

As experiências e as capacidades acumuladas das agências humanitárias, no seu papel de assistência de emergência, poderão ser equacionadas para aumentar a capacidade de resposta quanto à disponibilização eficiente da vacina logo que estiver disponível.

O que a sra. acha das posições negacionistas sobre os riscos da doença, defendidas, por exemplo, pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro? Ao jurar defender a Constituição da República, qualquer presidente se obriga a colocar em primeiro lugar a vida e a segurança de todos os seus cidadãos. Ele se obriga a mobilizar todos os recursos necessários para evitar que o impacto da pandemia não atinja proporções fora do controle.

O Brasil situa-se em segundo lugar [no número de doenças], depois dos EUA. Só isso já é suficiente para forçar medidas enérgicas e apropriadas para corrigir a situação —trata-se de vidas humanas, não são apenas números. Cada indivíduo infectado pertence a uma família e a uma comunidade. O impacto socioeconômico é enorme.

Como a sra. viu os protestos surgidos nos EUA após o assassinato de George Floyd por um policial branco? A imagem do vídeo e sobretudo a voz de George a dizer em mais de oito minutos “I can’t breathe!” [não consigo respirar] desencadearam protestos não só nos EUA, mas em centenas de cidades em todos os cantos do mundo. Havia uma revolta silenciosa acumulada ao longo dos anos contra a brutalidade da polícia contra os negros.

Por isso, a resposta não foi só dos negros, mas entre brancos e latinos. Todos os segmentos da sociedade revoltaram-se. As circunstâncias foram como um fósforo que acionou um fogo latente no íntimo das pessoas, independentemente da sua raça, origem social, étnica ou econômica.

É encorajador que os protestos tenham sido feitos por todos. Trata-se de um sinal de que a humanidade atingiu um ponto de não retorno da luta sistemática, com alvos estratégicos, estruturais e institucionais bem definidos, para que a normalização da discriminação racial seja agora e sempre intolerável.


Graça Machel, 74

Graduada em filologia da língua alemã pela Universidade de Lisboa e fundadora do Graça Machel Trust, que auxilia mulheres empreendedoras na África, a moçambicana também é membro do grupo The Elders, de líderes globais e presidente do Conselho de Administração da Universidade da Cidade do Cabo. Foi ministra da Educação e da Cultura de Moçambique

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