Rússia ofereceu recompensas ao Taleban para matar tropas americanas, mostra investigação

Órgão responsável seria o mesmo por trás da interferência nas eleições dos EUA de 2016

Washington | The New York Times

Oficiais da inteligência americana concluíram que uma unidade militar russa ofereceu secretamente recompensas a militantes ligados ao Taleban para matar tropas da coalizão liderada pelos EUA no Afeganistão, de acordo com pessoas próximas à investigação.

Criminosos armados ligados aos militantes também teriam recebido recompensas, disseram os agentes. Vinte americanos foram mortos em combate no Afeganistão em 2019, mas não ficou claro quais assassinatos estavam sob suspeita.

Militares americanos organizam equipamento ao chegarem em Kandahar, em 2014
Militares americanos organizam equipamento ao chegarem em Kandahar, em 2014; a guerra do Afeganistão começou há mais de 18 anos - Wakil Kohsar - 26.out.14/AFP

As conclusões da inteligência americana se baseiam em interrogatórios de militantes e criminosos afegãos capturados. Os oficiais não revelaram como a operação funcionava, como os alvos eram escolhidos nem como os pagamentos foram feitos.

Não está claro se a alta cúpula do governo russo tem conhecimento da prática nem se os agentes russos foram enviados ao Afeganistão especificamente para se encontrar com os membros do Taleban.

Uma operação para incentivar o assassinato de tropas americanas e da Otan (aliança militar ocidental) seria uma escalada significativa do que os EUA e o Afeganistão veem como apoio russo ao Taleban.

Autoridades americanas e afegãs já haviam acusado a Rússia de fornecer armamento leve e suporte ao grupo terrorista de outras formas, mas oficiais de Moscou rejeitaram as alegações afirmando se tratar de "fofocas sem fundamento".​

As informações foram repassadas ao presidente americano, Donald Trump, e o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca discutiu a questão numa reunião no fim de março. Os agentes apresentaram a Trump uma lista com opções de resposta, que sugeria desde uma reclamação diplomática formal até sanções à economia russa.

Até o momento, a Casa Branca não autorizou nenhuma dessas medidas. As autoridades familiarizadas com o inquérito não explicaram o atraso da reação americana.

Porta-vozes do Conselho de Segurança Nacional, do Pentágono, do Departamento de Estado e da CIA recusaram-se a comentar.

O Kremlin não foi informado das acusações, afirmou Dmitry Peskov, secretário de imprensa do presidente da Rússia, Vladimir Putin. "Se alguém as fizer, responderemos", disse. Um porta-voz do Taleban não respondeu a mensagens da reportagem.

Os oficiais afirmaram ainda que há evidências de que a operação tenha sido conduzida pela Unidade 29155, um braço da agência de inteligência militar da Rússia, conhecida como GRU.

Ela nunca havia sido acusada de orquestrar ataques a soldados da Otan, mas, segundo a inteligência americana, ela atua no Afeganistão há muitos anos.

De acordo com os agentes, a GRU estava no centro dos esforços secretos de Moscou para interferir nas eleições presidenciais dos EUA de 2016. Nos meses anteriores ao pleito, duas ciberunidades, conhecidas como 26165 e 74455, invadiram os servidores do Partido Democrata e usaram o site WikiLeaks para publicar mensagens internas comprometedoras.

A unidade também estaria por trás do envenenamento, em março de 2018, na Inglaterra, de Sergei Skripal, ex-agente da GRU que desertou e passou a trabalhar para a inteligência britânica, e de sua filha; de uma tentativa de golpe de Estado em Montenegro, em 2016; e do envenenamento de um fabricante de armas na Bulgária, um ano antes.

Embora a Rússia tenha declarado o Taleban uma organização terrorista em 2003, os dois têm se aproximado no últimos anos. Membros do Taleban viajaram a Moscou para negociações de paz com altas autoridades afegãs, incluindo o ex-presidente Hamid Karzai. As conversas excluíram representantes do atual governo afegão, assim como os Estados Unidos.

O fim da guerra no Afeganistão foi uma das principais promessas de política externa da campanha de Trump, que busca se reeleger em novembro.

A revelação do apoio russo ao grupo terrorista ocorre dias após o americano dizer que convidaria Putin para uma reunião ampliada do G7, mesmo com o aumento das tensões entre militares americanos e russos.

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