Cidade americana tem 2ª noite de protestos após policiais atirarem em homem negro pelas costas

Jacob Blake está paralisado da cintura para baixo; manifestantes pedem que agentes sejam presos

Kenosha (EUA) e São Paulo | Reuters

Pela segunda noite consecutiva, manifestantes tomaram as ruas de Kenosha, no estado americano de Wisconsin, para protestar contra a violência policial no país.

Os atos, que começaram pacíficos e terminaram com confrontos e prédios incendiados, são uma resposta a uma ação policial na qual agentes brancos atiraram pelas costas em Jacob Blake, um homem negro.

Blake, 29, foi alvejado enquanto era abordado por dois oficiais chamados para atender um incidente doméstico na tarde de domingo (23).

Ele sobreviveu aos disparos, mas está internado em estado grave e, segundo seu pai, em entrevista à rede americana CNN, está paralisado da cintura para baixo. Ainda não se sabe se a paralisia é permanente.

De acordo com advogados da família, Blake sofreu perfurações no estômago e precisou retirar quase todo o cólon e o intestino delgado. Também sofreu danos no rim e no fígado, além de um dos disparos ter atingido o braço.

Policial perto de prédio incendiado em Kenosha, na noite de segunda (24) - Brandon Bell/Getty Images/AFP

Em reação aos confrontos, o governador de Wisconsin, o democrata Tony Evers, declarou estado de emergência nesta terça (25) e anunciou o envio de mais tropas da Guarda Nacional para a cidade, que se preparava para uma terceira noite de protestos.

Um dia antes, Evers havia destacado 100 membros da força de segurança. Agora, o número deve subir para 250, numa medida defendida por autoridades como resposta mais enérgica a saques e incêndios que ofuscaram os manifestantes pacíficos nas ruas durante a noite de segunda (24) e a madrugada de terça.

Centenas de ativistas ignoraram o toque de recolher imposto pelo governador, e prédios públicos, lojas e veículos foram incendiados. A polícia usou bombas de gás e balas de borracha para dispersar as centenas de manifestantes. Ao menos uma pessoa ficou ferida.

Imagens publicadas em redes sociais mostram pessoas brancas e negras atacando propriedades e homens usando bastões de beisebol para quebrar semáforos, luzes de postes e faróis de carros.

Em outro registro, um homem branco, em um skate, joga combustível em um caminhão do governo e depois coloca fogo no veículo. Do outro lado, civis brancos armados montaram guarda em frente a um espaço comercial para protegê-lo de ataques.

"Basicamente, nossa cidade foi totalmente queimada, prédio por prédio", disse Zach Rodriguez, membro do Conselho de Supervisores do Condado de Kenosha. "Já é suficiente." Rodriguez disse que o conselho realizaria uma reunião de emergência em busca de ajuda federal, uma vez que há o temor de que o governador não esteja fazendo o suficiente para aplacar a situação.

Também houve atos devido ao ataque a Blake, em menor escala, em Seattle, Portland, Minneapolis e Nova York, onde manifestantes invadiram a ponte do Brooklyn, segundo um vídeo publicado nas mídias sociais.

Ativistas ligados ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam) pedem que os agentes envolvidos no caso sejam demitidos e presos. Até agora, eles foram apenas afastados de suas funções, e a polícia ainda não explicou por que Blake, que tentava separar uma briga entre duas mulheres, foi atingido por quatro tiros em frente a seus filhos de 3, 5 e 8 anos.

O advogado de direitos civis Ben Crump, que representa a família da vítima, disse em entrevista ao canal de TV ABC que não há indicação de que Blake estava armado.

Um vídeo que circula nas redes sociais mostra o homem andando até o assento do motorista de um veículo SUV, parado na rua, seguido por dois policiais que apontam armas para suas costas. Blake, que aparenta estar desarmado, abre a porta do carro com os agentes atrás dele, e os tiros são disparados à queima-roupa. É possível ouvir sete disparos.

ATENÇÃO: O VÍDEO A SEGUIR CONTÉM IMAGENS FORTES

O governador de Wisconsin condenou o uso excessivo de força pelos oficiais e pediu uma sessão especial no Legislativo para avaliar mudanças na polícia. "Nós devemos oferecer nossa empatia. Devemos olhar para o trauma, o medo e a exaustão de ser negro em nosso estado e em nosso país."

Por outro lado, apesar de reconhecer o direito a manifestação, disse que comportamentos ilegais não serão permitidos. "Há uma linha entre a reunião pacífica e o que vimos na noite passada, algo que colocou indivíduos, famílias e empresas em perigo", disse Evers em um comunicado.

O caso de Blake é mais um a provocar protestos contra a brutalidade e o racismo da polícia desde o assassinato, em 25 de maio, de George Floyd, um homem negro, em Minneapolis. Floyd foi sufocado por um policial branco que pressionou o pescoço da vítima por quase nove minutos com o joelho.

A morte do ex-segurança gerou uma onda de atos que se espalhou por dezenas de cidades dos EUA e outras partes do mundo. Floyd foi lembrado em manifestações na África, na Ásia, na Europa e no Brasil.

Os protestos antirracismo são um dos temas da campanha eleitoral nos Estados Unidos. O presidente Donald Trump, que busca a reeleição, tem buscado ressaltar a destruição ocorrida em algumas das manifestações e se colocar como um defensor da lei e da ordem. Seu rival, Joe Biden, tem dado apoio aos protestos e defendido mudanças para combater a violência policial contra os negros.

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