Sob pressão, governo da Belarus pede apoio europeu contra a Rússia

Apesar de criticar vizinhos ocidentais em público, carta diplomática obtida pela Folha revela outro tom

São Paulo

Em meio à violenta repressão contra os protestos por eleições livres, e com sanções anunciadas por parte da UE (União Europeia), o governo da Belarus pediu ajuda ao bloco para manter sua soberania.

A exortação, obtida pela Folha, foi enviada na quarta (12) a embaixadores europeus em Minsk. No mesmo dia, um grupo deles depositou flores no ponto em que um manifestante havia sido morto pela polícia

Manifestantes durante protesto em Minsk contra o resultado das eleições na Belarus
Manifestantes durante protesto em Minsk contra o resultado das eleições na Belarus - Vasily Fedosenko/Reuters

Dois dias antes, o autocrata Aleksandr Lukachenko havia incluído a República Tcheca e a Polônia, membros da UE, no rol de países que interferiam na política interna bielorrussa, ao lado de Reino Unido e Rússia.

Segundo um embaixador, que pediu para não ser identificado, a carta sinaliza que o discurso público difere das preocupações reais do governo. O sujeito oculto do documento tem nome e sobrenome: Vladimir Putin, o presidente russo.

A mensagem nas entrelinhas é: parem de insuflar as manifestações contra o governo, porque o problema não somos nós, é a Rússia.

"Antes das eleições nos aproximamos de nossos parceiros por assistência, informando sobre a interferência externa direta nas eleições. Em vez disso, no segundo dia [depois das eleições] ouvimos chamados para imposição de sanções [contra a Belarus]", diz o texto.

Nas semanas que antecederam o pleito, Lukachenko acusou a Rússia de tentar interferir, e prendeu 33 mercenários do país vizinho num episódio ainda bastante obscuro. Nesta sexta (14), com o temor de ser alienado ainda mais pelo Ocidente, resolveu soltá-los.

Putin é o único ator político com força suficiente para influir no curso dos acontecimentos no seu vizinho, que vê Belarus como um quintal geopolítico útil desde a dissolução da União Soviética em 1991.

Os países têm desde 1999 um acordo de união que nunca foi totalmente implementado, por resistência bielorrussa.

Desde domingo (9), quando venceu uma eleição considerada fraudulenta pela oposição, Lukachenko estabeleceu uma dura repressão policial no país.

Milhares de pessoas foram presas, com direito a brutalidade, e abundam relatos de tortura. Analistas veem uma fissura incontornável da base de apoio a Lukachenko, e já há sinais de dissidências internas no governo.

"Pedimos a nossos parceiros um olhar imparcial e que considerem todos os pontos de vista. Não pedimos que desconsiderem suas fontes tradicionais de informação nem suas convicções. Dirigimo-nos a nossos parceiros e vizinhos. Não façam declarações desestabilizadoras. Apoiem nossa independência e soberania", diz o texto.

Em outro ponto, o texto pede um "debate desapaixonado" sobre a situação do país. "Estamos prontos a fornecer fortes evidências que explicam os acontecimentos em curso, inclusive a interferência estrangeira."

Até aqui, o apelo não comoveu os europeus, a quem também não parece interessar melindrar ainda mais Putin —o apoio à derrubada do governo pró-Moscou na Ucrânia em 2014, buscando trazer Kiev para a esfera europeia, foi respondido pelos russos com a anexação da Crimeia e uma guerra civil no leste do país.

A UE anunciou que vai fazer sanções contra o regime do autocrata, no poder desde 1994. Isso pode afetar a receita de exportação bielorrussa, que inclui o envio de produtos refinados de petróleo para países como a Lituânia, membro do bloco europeu.

Mas a economia de Minsk é dominada pela relação com a Rússia. Até aqui, Putin deu um apoio frio a Lukachenko, a quem tem como um inconveniente aliado dada a habilidade do bielorrusso de extrair vantagens de Moscou.

Ele oferta em troca uma área não ocidental separando a Rússia das forças ocidentais da Otan, o bloco militar liderado pelos EUA. E toda uma infraestrutura de gasodutos e oleodutos dos tempos em que tudo aquilo era a União Soviética, por onde passam um quinto do gás e um quarto do petróleo russos para a Europa.

Diplomatas ocidentais em Minsk ouvidos pela Folha consideram que as opções de Lukachenko estão se estreitando. Nas eleições, um dos principais candidatos de oposição era Viktor Babariko, que durante anos chefiou o banco da gigante russa Gazprom na Belarus.

Isso sinalizou um apoio tácito de Moscou a um membro da elite contra Lukachenko. Babariko acabou preso, assim como o popular blogueiro Serguei Tikhanovski, cuja mulher, Svetlana, teve de fugir do país depois de concorrer em nome da oposição no domingo. Sua campanha mobilizou multidões, mas só teve oficialmente 10% dos votos.

E Moscou ainda abrigou um terceiro candidato viável, Valeri Tsepkalo, que fugiu do país após ter sido ameaçado pelos serviços de seguranças de ser preso e perder o pátrio poder sobre os filhos.

A comunicação diplomática bielorrussa é um aceno aos europeus, ainda que obviamente não cite os russos. Soberania e independência aparecem como valores ao longo do texto, e na visão de Lukachenko o único país que pode ameaçá-lo neste sentido seria a Rússia.

O texto diz que "é inaceitável que um número de servidores europeus tenha emitido importantes declarações políticas tão depressa, sem tentar examinar objetivamente e avaliar bem a situação".

Há um ensaio de mea culpa, afirmando que o convite para observadores europeus, que não estiveram presentes no domingo, foi feito tardiamente. E a insistência de que o país não quer esconder dados sobre mortes de manifestantes.

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