Após trégua fracassada, cresce número de civis mortos em conflito entre Armênia e Azerbaijão

Ataque com mísseis deixa ao menos 22 vítimas nesta quarta; confrontos entram no 2º mês

Baku (Azerbaijão) e Ierevan (Armênia) | AFP e Reuters

Azerbaijão e Armênia voltaram a trocar acusações nesta quarta-feira (28) após bombardeios que marcam o dia mais letal do conflito que já dura um mês. Autoridades azeris disseram que um ataque com mísseis armênios na cidade de Barda, perto do território separatista de Nagorno-Karabakh, deixou pelo menos 21 civis mortos e 60 feridos.

A porta-voz do Ministério da Defesa da Armênia, Shushan Stepanyan, negou a acusação. "É falsa e sem fundamento. Uma mentira absoluta e uma provocação suja", escreveu ela em uma rede social.

O ministério também confirmou que o Azerbaijão ocupou a cidade de Gubadli, que fica entre o território disputado e a fronteira com o Irã, um ganho militar aparente que pode tornar ainda mais difícil uma solução diplomática para o maior conflito na região nos últimos 30 anos.

Cratera formada em meio a ruínas de construções destruídas por bombardeios em Shushi, na região de Nagorno-Karabakh - Hayk Baghdasaryan/Photolure - 28.out.20/Reuters

Por sua vez, autoridades apoiadas pelo governo armênio baseado na capital do país, Ierevan, disseram que projéteis azeris caíram nas duas maiores cidades de Nagorno-Karabakh, Stepanakert e Shushi, matando ao menos uma pessoa —o que o Azerbaijão também nega.

Na terça-feira (27), quatro civis, incluindo uma criança de dois anos, morreram, e 13 ficaram feridos em outro bombardeio por mísseis em Barda.

"Em violação ao cessar-fogo humanitário e para compensar suas perdas militares sustentadas, a Armênia recorre a crimes de guerra de matar civis", disse conselheiro presidencial do Azerbaijão, Hikmet Hajiyev, no Twitter.

Segundo ele, os armênios utilizaram bombas de fragmentação, que liberam uma grande quantidade de projéteis, em um "ataque indiscriminado e direcionado contra civis". A Armênia negou a autoria do ataque.

Dois dias depois da fracassada "trégua humanitária", a terceira tentativa de cessar-fogo entre os dois países em conflito desde 27 de setembro, os ataques desta quarta indicam uma escalada das tensões no Cáucaso.

Não há números precisos sobre o número total de vítimas do conflito. Autoridades de Nagorno-Karabakh registram 1.068 mortos, enquanto o Azerbaijão não divulga suas baixas militares.

Entre os civis, o número de mortes já passa de cem. A Rússia, historicamente um árbitro das tensões entre os dois países, estima que a cifra tenha ultrapassado 5.000 mortes ao todo.

Os dois países se acusam mutuamente de não terem respeitado os acordos de cessar-fogo assinados sob a mediação de Rússia, França e Estados Unidos. O primeiro foi assinado em Moscou, no dia 10.

O segundo, em Paris, uma semana depois. O terceiro, no último fim de semana, foi firmado em Washington pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que disse que a solução do conflito seria "algo fácil".

A região de Nagorno-Karabakh foi tomada pelos separatistas armênios com o apoio do governo após uma guerra que se sucedeu à desintegração da União Soviética e deixou mais de 30 mil mortos.

Atualmente, entretanto, o país não reconhece a independência de Nagorno-Karabakh, assim como a comunidade global —de acordo com o direito internacional, a região continua pertencendo ao Azerbaijão.

Para Ierevan, o território é parte de sua pátria histórica, e a população local precisa de proteção.

O impasse tem se agravado ao longo das últimas semanas. A Armênia descarta soluções diplomáticas, e o Azerbaijão exige a retirada das tropas armênias como condição prévia para qualquer negociação.

Nesta quinta (29), representantes do Grupo de Minsk, que busca mediar o conflito desde 1992 e é liderado por Rússia, França e EUA, devem se reunir com os ministros das Relações Exteriores de Armênia e Azerbaijão.

A Turquia, por sua vez, exige maior participação nas decisões do grupo. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, disse, nesta quarta, que seu país "é sincero em seus esforços" para resolver o conflito e que esperava a mesma atitude do governo russo.

O presidente Vladimir Putin, em telefonema a Erdogan na terça, afirmou estar preocupado com o aumento no número de combatentes vindos do Oriente Médio envolvidos nos conflitos no Cáucaso, o que pode indicar uma escalada ainda maior nas tensões.

Putin e Erdogan têm uma relação complexa, que alterna parcerias de ocasião que dão certo na área energética e interesses geopolíticos opostos marcados, por exemplo, pelos diferentes lados que assumiram nas guerras civis da Síria e da Líbia.

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