Atitudes de Trump acabam com esperança de usar infecção para projetar nova imagem

Assessores do republicano queriam aproveitar experiência para mostrar empatia com americanos atingidos pela pandemia

Maggie Haberman Annie Karni
The New York Times

Na sexta-feira (2), quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sentiu dificuldade para inspirar oxigênio suficiente e seus assessores se prepararam para levá-lo ao principal hospital militar do país, alguns membros de sua campanha viram uma oportunidade em potencial.

Se Trump se recuperasse rapidamente do duelo com a Covid-19 e parecesse simpático ao falar sobre sua experiência e a de outros milhões de americanos, poderia ter uma espécie de recomeço político.

A crise de saúde vem sendo um revés em seu esforço para se reeleger, mas também poderia oferecer uma chance de demonstrar uma nova atitude em relação ao vírus, conquistando alguns eleitores.

O presidente Donald Trump tira máscara ao chegar à Casa Branca, após três dias internado para tratar da Covid-19
O presidente Donald Trump tira máscara ao chegar à Casa Branca, após três dias internado para tratar da Covid-19 - Nicholas Kamm - 5.out.20/AFP

E o presidente poderia usar o episódio para mostrar, de agora até o segundo debate, marcado para o dia 15, que a doença é séria, mas pode ser combatida, e que ele está pronto para retomar a campanha.

Essa era a esperança de seus assessores. Mas foi severamente minada pelo comportamento do próprio Trump, que escreveu ao país: "Não tenham medo da Covid. Não deixem que ela domine sua vida!", sem reconhecer que, como presidente, ele recebe cuidados médicos muito melhores do que o cidadão comum.

Os comentários indicaram uma realidade muito mais provável: que o tratamento errático da doença por Trump e seus assessores lembrará aos eleitores os fracassos do governo e seus esforços para minimizar a pandemia mortal durante seis meses.

"Há uma estratégia de alto risco aqui, e espero que o presidente não volte correndo ao modo de campanha —o que ele quer fazer antes de se curar— até que lhe digam que a infecção dele não representa mais um perigo para os demais", disse Ed Rollins, assessor de um supercomitê de campanha que apoia Trump.

Ansioso para sair do hospital, Trump conseguiu o que queria na segunda à tarde. Os médicos permitiram que ele fosse para a Casa Branca, mesmo admitindo que ele ainda não tinha alcançado a janela crítica de sete a dez dias em que os médicos avaliam se os pacientes vão piorar.

De volta à Casa Branca, subiu dois lances de escada até o Balcão Truman, que não é seu ponto de entrada normal, e quase imediatamente arrancou a máscara para encarar as câmeras. Então fez um vídeo em estilo de campanha, dizendo que estava "melhor" e que "talvez seja imune, não sei" aos ataques do vírus.

Não é a primeira vez que Trump sabotou a vontade de seus assessores. Ele os contradisse sobre questões que vão da política para a China aos preparativos para o debate na semana passada.

Durante o fim de semana, assessores disseram ter visto claramente com quem estão lidando: Trump é considerado uma figura incapaz de empatia. Mas esperava-se que falar sobre sua própria experiência o ajudasse a administrar a pandemia daqui para frente e pudesse lhe trazer benefícios políticos.

Trump pouco fez para manter a narrativa que seus assessores esperavam que surgisse e que o beneficiaria politicamente. Em vídeos produzidos nos bastidores, destinados a mostrá-lo trabalhando, o presidente não mencionou as dificuldades que o vírus causou a outras pessoas, ou que alguém tenha sofrido muito com ele. Tampouco citou os funcionários da Casa Branca que adoeceram.

E sua mensagem no Twitter, que também declarava "sinto-me melhor do que 20 anos atrás", pintava o vírus como algo semelhante a um fim de semana em um spa. Isso indicou que Trump muito provavelmente voltará à campanha com mais declarações falsas sobre o vírus.

"Parece que a campanha não discutiu seu conceito com o candidato", disse Brenan Buck, ex-assessor do ex-presidente da Câmara Paul Ryan. "Você esperaria que numa crise de saúde séria a pessoa tivesse uma espécie de despertar, encontrasse um pouco de religião, mas ele parece incapaz disso."

Buck disse que a atitude do presidente não foi muito útil para ele politicamente porque ele "não passou no teste de seriedade em uma situação que arruinou a vida de milhões de pessoas". Mas disse que isso ainda é preocupante porque "a metade do país tira suas opiniões [a partir] dele".

A estrategista republicana Antonia Ferrier, ex-assessora do líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, disse que o presidente poderia usar dicas de líderes mundiais que venceram a batalha contra o vírus.

"Depois de ter alta do hospital, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, mostrou em termos pessoais como o vírus o havia impactado —agradeceu aos que o ajudaram a se recuperar, prometeu atacar o vírus e fez um balanço dos desafios que seu país enfrenta", explicou ela.

"O presidente Trump tem uma oportunidade de passar uma mensagem positiva semelhante."

A campanha começou a prever publicamente essa postura. "Agora ele tem a experiência de lutar contra o coronavírus como indivíduo", disse Erin Perrine, porta-voz da campanha. "Joe Biden não tem isso."

É semelhante a uma mensagem que Trump divulgou na televisão em 2016 —a de que ele era capaz de combater a corrupção no sistema político porque já tinha feito parte desse sistema como doador.

Diretores da campanha de Trump continuam insistindo que não estão fazendo preparativos alternativos para o segundo debate e pretendem estar lá. Mas o doutor Sean Conley, médico da Casa Branca, disse que só no dia 12 ficará claro se Trump superou o vírus.

Trump indicou sua ansiedade para retomar a campanha em um post no Twitter na tarde de segunda-feira. "Logo voltarei à campanha!!! As fake news só mostram pesquisas fake", escreveu.

Os chefes da campanha disseram que a expectativa era retomar os comícios antes de novembro, alegando que a única exposição real de Trump a pessoas nesses eventos é no avião, e a equipe viajando com ele será menor, uma vez que muitos de seus assessores também estão doentes.

O presidente continua, de muitas maneiras, comportando-se como se fosse um cidadão comum que, por acaso, trabalha na Casa Branca. Ele ficou furioso, por exemplo, com reportagens sobre se teria de transferir o poder para o vice-presidente, Mike Pence, o tipo de cobertura que imprensa sempre fez quando outros presidentes enfrentaram problemas médicos.

"Com quatro semanas pela frente e mais de 4 milhões de americanos já votando, é tarde para mudar as percepções sobre Trump ou seu desempenho", afirmou Liam Donovan, um estrategista republicano.

"E, à medida que os eleitores estão abertos a reavaliar suas opiniões, o vídeo do presidente no [hospital] Walter Reed refletiu o desafio que sua campanha tenta vencer: a aparência inicial de humanidade e humildade rapidamente dá lugar a um monólogo extenso que mina todo o esforço."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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