Descrição de chapéu

Covid-19 de Trump vira 'surpresa de outubro' da eleição americana

Se passar bem, presidente deverá emular Bolsonaro e tentar capitalizar a infecção

São Paulo

Não é casual que líderes mundiais integrantes do time de negacionistas da gravidade da pandemia tenham acabado infectados pelo novo coronavírus.

Desprezo pelo protocolo de distanciamento social e pelo uso de máscara, quando não pela doença em si, eram características de Boris Johnson e de Jair Bolsonaro antes de caírem enfermos.

Tendo conhecido o inferno de uma UTI da Covid-19, o britânico mudou de ideia e passou a levar a sério a pandemia. Já o presidente brasileiro, acometido de sintomas leves, contentou-se em fazer propaganda de cloroquina para as emas do Alvorada e segue tão irresponsável quanto antes.

Os presidentes de EUA, Donald Trump, à esq., e Brasil, Jair Bolsonaro, durante jantar em Mar-a-Lago, na Flórida
Os presidentes de EUA, Donald Trump, à esq., e Brasil, Jair Bolsonaro, durante jantar em Mar-a-Lago, na Flórida - Jim Watson - 7.mar.20/AFP

O padrão Bolsonaro pode ser esperado no caso de Donald Trump, mas obviamente isso dependerá de como ele passará pela infecção anunciada. E há um fator adicional: Boris e Bolsonaro não comandam a mais importante nação do mundo às vésperas de uma dificílima eleição.

É possível especular que, se os efeitos brandos anunciados pela Casa Branca se mantiverem e Trump, 74, sair ileso, o americano tentará capitalizar politicamente o episódio. Afinal de contas, usar máscara era coisa de velho medroso, como ele insinuou acerca de seu rival, o também septuagenário Joe Biden.

O americano pode sofrer e até morrer, contudo, e aí haverá um conto caucionário perfeito colocado para o mundo. Se até o presidente dos EUA pode morrer da peste, ninguém está a salvo.

Considerando a estatística, modalidade ótima quando você não entra na exceção à regra, Trump deverá sobreviver apesar de ter vários indicadores de risco —é obeso e idoso, no pouco que se sabe sobre sua saúde.

Na política americana há o termo "surpresa de outubro", que designa algum fato extraordinário e forçado para influenciar o resultado do pleito em novembro. Ele foi cunhado pelo chefe da campanha de Ronald Reagan em 1980, William Casey, mas já havia sido registrado na prática em eleições anteriores.

Usualmente, a mídia pensa em um escândalo ou, no caso de presidentes no cargo, ações militares ou crises agudas. Neste ano, com Trump atrás de Biden nas pesquisas, já se especulou sobre um embate com o Irã ou mesmo com a China.

O republicano, com sua infecção, involuntariamente tornou-se tal supresa.

A dinâmica da campanha eleitoral será afetada de forma insondável neste momento —se tudo der certo, serão ao menos duas semanas de interrupção na exibição pública do presidente.

Uma coisa é certa. Com o anúncio dramático na madrugada, Trump dará uma grande contribuição ao rol de itens colecionáveis dos teóricos da conspiração se passar sem problemas pela Covid-19.

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